cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Riacho doce: uma enebriante metáfora da paixão

A sensualidade e a transgressão são as marcas mais fortes desta série que em seus menores detalhes cuidou de primar pela beleza e pelo erótico. Pelas imagens e sons , somos capazes de sentir o cheiro do mar , a mornidão do Riacho doce , o calor do sol e a mesma luz que invade os olhos de Eduarda , fazendo-a desmaiar , nos invade.


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“Eu pinto meu cabelo de preto, deixo minha pele queimar ao sol” (Fala da personagem Eduarda interpretada por Vera Fisher a Nô, vivido por Carlos Aberto Riccelli ).

Riacho doce é uma belíssima série produzida pela Rede Globo no ano de 1990. Foi baseada no romance homônimo de José Lins do Rego, o autor brasileiro que talvez tenha traduzido melhor em palavras o ser nordestino. A adaptação para TV foi realizada por Aguinaldo Silva.

Eduarda, a protagonista de Riacho doce, é capaz de qualquer atitude para ficar com Nô, um sedutor pescador que marcou com a tragédia muitas mulheres. A pobre Terezinha , desesperada , se joga de um precipício. Não morre. Acontece algo muito pior. Seu belo rosto se deforma e ela passa a viver envolta por véus, dependente da caridade alheia. A irreverente Francisca perde o seu filho num aborto que esvazia o útero e a alma. Passa a viver como uma proscrita , rejeitada publicamente por todos , adorada secretamente pelos homens solteiros e casados do paupérrimo vilarejo de Riacho doce que levam às escondidas alimentos à porta de sua casa.

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Luísa Tomé como Francisca. Personagem inexistente no romance de José Lins do Rego, mas uma das principais da série

Nô, que toca o coração das mulheres com o toque suave de seu violão é incapaz de sentir o que desperta nos outros: paixão, desejo e amor. Pula de cama em cama , sem nunca se envolver, deixando atrás de si um rastro de desgraça e sofrimento. Tudo isso porque sua avó paterna , líder do vilarejo, autoritária e mística , “fechou” seu corpo para ponta de faca , bala de revólver , enfermidades de um modo geral, incluindo o amor. A intenção de Vó Manuela é fazê-lo seu sucessor no vilarejo. Mas , uma forasteira , Eduarda , chega de longe acompanhada por seu marido e põe à prova o feitiço de Manuela com o seu próprio feitiço: os lindos e intensos olhos de Vera Fisher. Semioticamente falando, Eduarda e Vô Manuela representam a luta entre o bem e o mal. E a personagem vivida por Ana Rosa, mãe de Nô, uma espécie de consciência coletiva. Alguém que pode enxergar além do óbvio.

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Eduarda, uma mulher casada , porém solitária , infeliz e incompreendida , farta dos invernos rigorosos da Suécia e da frieza e formalidade de seu casamento, encontra em Riacho doce e em Nô tudo o que busca: calor , erotismo, luminosidade, um mar convidativo. E ela se atira em ambos sem medo de ser feliz , sem medo de atrair para si toda a fúria da velha bruxa. A mãe de Nô se alegra com a chegada da forasteira. Eduarda é a resposta às suas preces: a mulher forte o bastante para quebrar o feitiço de Vô Manuela e devolver ao filho a parte mais importante de um homem: o seu coração.

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Ana Rosa vive com muito vigor a amargurada e sensível mãe de Nô

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Fernanda Montenegro interpreta poderosamente a austera Vô Manuela

Eduarda não enfrenta apenas a avó do seu amado, mas também seu marido, um homem orgulhoso, capaz de tentar se impor pela força física. Associada à belíssima história de José Lins do Rego, com algumas adaptações , Riacho doce encanta pela plasticidade das imagens , a trilha sonora refinada , e um elenco expressivo. O romance e a série falam sobre dois temas fascinantes: o amor desmedido e seu poder contra maldições , feitiçarias e bruxarias. O outro tema importante é o misticismo em si. Riacho doce lida com duas forças vitais: o amor e o sobrenatural. A ambientação num vilarejo fictício do Nordeste ( na verdade as filmagens foram realizadas em Fernando de Noronha) ressaltam o caráter místico da história , repleta de pescadores , de folclore e crendices. A paixão está impregnada em toda a série , desde o roteiro em si até às paradisíacas imagens no fundo do mar , passando por cenas de nudez e a sensual trilha sonora que conta com uma música de Danilo Caymmi. Riacho doce faz referência a três coisas:

1. Nome da vila de pescadores 2. Nome do riacho de água doce e altamente agradável que põe em estado febril quem se banha nele. 3. A comparação da água perigosa do riacho doce com o estado da paixão. Ambos são agradáveis , porém perigosos , porque nos deixam em febre , sem controle algum sobre nós mesmos.

Em uma determinada cena, Eduarda entrega-se ao banho morno do Riacho doce , depois de ter se entregado e perdido Nô. Por sua vez , o pescador cai desesperado e em prantos aos pés da avó, pedindo-lhe que lhe acalme o coração e cuide da sua febre. Ambos queimam simultaneamente.

A referência clara à paixão também é feita quando Nô diz a Eduarda que é perigoso entrar no mar quando este exala um cheiro adocicado. Em determinado ponto da trama, Nô se vê obrigado a mentir para Eduarda , negar o amor que sente para protegê-la de Vô Manuela , como não protegeu as outras. Desesperada , Eduarda imagina que ele a rejeita por ser muito diferente do povo local. Promete a Nô pintar os cabelos de preto e queimar a pele ao sol. Mas tanto Eduarda como Nô sabem que isso não a tornará igual aos habitantes de Riacho doce.

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A sensualidade e a transgressão são as marcas mais fortes desta série que em seus menores detalhes cuidou de primar pela beleza e pelo erótico. Pelas imagens e sons , somos capazes de sentir o cheiro do mar , a mornidão do Riacho doce , o calor do sol e a mesma luz que invade os olhos de Eduarda , fazendo-a desmaiar , nos invade. Talvez , uma das cenas mais luxuriantes seja a que Eduarda e a forasteira Cristina , interpretada por Suzy Rego, vão a uma festa de pescadores na praia . Ambas entram na roda e dançam. Eduarda até à exaustão. Chega a quase desfalecer de cansaço e emoção. Se integra totalmente àquela vida rudimentar e sensorial. Os homens a olham com desejo, seu mundo se abre para outras possibilidades .

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Eduarda desmaia ao se deparar com a luz do sol de Riacho doce. Ela tem uma espécie de premonição de tudo que está por vir.

Ela se delicia com os pratos coloridos , fortes e apimentados preparados por sua fiel empregada. Em uma determinada cena podemos ver um prato cheio de carambolas. A fruta de um amarelo vivo nos remete a umidade , a um sabor típico e tropical que enfeita a cena e é desdenhada por Carlos. O marido de Eduarda , vivido por Herson Capri, despreza a comida preparada por Hermínia como despreza tudo que tenha a ver com Riacho doce. Considera seu povo ignorante , a comida horrível, a música vulgar. Por sua vez , Eduarda se põe diante da janela ou da varanda para ouvir o violão de Nô, o chamado do amor, o chamado à febre como as águas mornas de Riacho doce. Se Vô Manuela faz seus feitiços , Nô também enfeitiça com sua música e seus olhos de mar em ressaca. E Eduarda o segue sem temer as consequências, como outras mulheres o seguiram anteriormente. Em Riacho doce ninguém escapa impune das consequências da paixão.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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