cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

Riacho doce: uma enebriante metáfora da paixão

A sensualidade e a transgressão são as marcas mais fortes desta série que em seus menores detalhes cuidou de primar pela beleza e pelo erótico. Pelas imagens e sons , somos capazes de sentir o cheiro do mar , a mornidão do Riacho doce , o calor do sol e a mesma luz que invade os olhos de Eduarda , fazendo-a desmaiar , nos invade.


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“Eu pinto meu cabelo de preto, deixo minha pele queimar ao sol” (Fala da personagem Eduarda interpretada por Vera Fisher a Nô, vivido por Carlos Aberto Riccelli ).

Riacho doce é uma belíssima série produzida pela Rede Globo no ano de 1990. Foi baseada no romance homônimo de José Lins do Rego, o autor brasileiro que talvez tenha traduzido melhor em palavras o ser nordestino. A adaptação para TV foi realizada por Aguinaldo Silva.

Eduarda, a protagonista de Riacho doce, é capaz de qualquer atitude para ficar com Nô, um sedutor pescador que marcou com a tragédia muitas mulheres. A pobre Terezinha , desesperada , se joga de um precipício. Não morre. Acontece algo muito pior. Seu belo rosto se deforma e ela passa a viver envolta por véus, dependente da caridade alheia. A irreverente Francisca perde o seu filho num aborto que esvazia o útero e a alma. Passa a viver como uma proscrita , rejeitada publicamente por todos , adorada secretamente pelos homens solteiros e casados do paupérrimo vilarejo de Riacho doce que levam às escondidas alimentos à porta de sua casa.

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Luísa Tomé como Francisca. Personagem inexistente no romance de José Lins do Rego, mas uma das principais da série

Nô, que toca o coração das mulheres com o toque suave de seu violão é incapaz de sentir o que desperta nos outros: paixão, desejo e amor. Pula de cama em cama , sem nunca se envolver, deixando atrás de si um rastro de desgraça e sofrimento. Tudo isso porque sua avó paterna , líder do vilarejo, autoritária e mística , “fechou” seu corpo para ponta de faca , bala de revólver , enfermidades de um modo geral, incluindo o amor. A intenção de Vó Manuela é fazê-lo seu sucessor no vilarejo. Mas , uma forasteira , Eduarda , chega de longe acompanhada por seu marido e põe à prova o feitiço de Manuela com o seu próprio feitiço: os lindos e intensos olhos de Vera Fisher. Semioticamente falando, Eduarda e Vô Manuela representam a luta entre o bem e o mal. E a personagem vivida por Ana Rosa, mãe de Nô, uma espécie de consciência coletiva. Alguém que pode enxergar além do óbvio.

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Eduarda, uma mulher casada , porém solitária , infeliz e incompreendida , farta dos invernos rigorosos da Suécia e da frieza e formalidade de seu casamento, encontra em Riacho doce e em Nô tudo o que busca: calor , erotismo, luminosidade, um mar convidativo. E ela se atira em ambos sem medo de ser feliz , sem medo de atrair para si toda a fúria da velha bruxa. A mãe de Nô se alegra com a chegada da forasteira. Eduarda é a resposta às suas preces: a mulher forte o bastante para quebrar o feitiço de Vô Manuela e devolver ao filho a parte mais importante de um homem: o seu coração.

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Ana Rosa vive com muito vigor a amargurada e sensível mãe de Nô

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Fernanda Montenegro interpreta poderosamente a austera Vô Manuela

Eduarda não enfrenta apenas a avó do seu amado, mas também seu marido, um homem orgulhoso, capaz de tentar se impor pela força física. Associada à belíssima história de José Lins do Rego, com algumas adaptações , Riacho doce encanta pela plasticidade das imagens , a trilha sonora refinada , e um elenco expressivo. O romance e a série falam sobre dois temas fascinantes: o amor desmedido e seu poder contra maldições , feitiçarias e bruxarias. O outro tema importante é o misticismo em si. Riacho doce lida com duas forças vitais: o amor e o sobrenatural. A ambientação num vilarejo fictício do Nordeste ( na verdade as filmagens foram realizadas em Fernando de Noronha) ressaltam o caráter místico da história , repleta de pescadores , de folclore e crendices. A paixão está impregnada em toda a série , desde o roteiro em si até às paradisíacas imagens no fundo do mar , passando por cenas de nudez e a sensual trilha sonora que conta com uma música de Danilo Caymmi. Riacho doce faz referência a três coisas:

1. Nome da vila de pescadores 2. Nome do riacho de água doce e altamente agradável que põe em estado febril quem se banha nele. 3. A comparação da água perigosa do riacho doce com o estado da paixão. Ambos são agradáveis , porém perigosos , porque nos deixam em febre , sem controle algum sobre nós mesmos.

Em uma determinada cena, Eduarda entrega-se ao banho morno do Riacho doce , depois de ter se entregado e perdido Nô. Por sua vez , o pescador cai desesperado e em prantos aos pés da avó, pedindo-lhe que lhe acalme o coração e cuide da sua febre. Ambos queimam simultaneamente.

A referência clara à paixão também é feita quando Nô diz a Eduarda que é perigoso entrar no mar quando este exala um cheiro adocicado. Em determinado ponto da trama, Nô se vê obrigado a mentir para Eduarda , negar o amor que sente para protegê-la de Vô Manuela , como não protegeu as outras. Desesperada , Eduarda imagina que ele a rejeita por ser muito diferente do povo local. Promete a Nô pintar os cabelos de preto e queimar a pele ao sol. Mas tanto Eduarda como Nô sabem que isso não a tornará igual aos habitantes de Riacho doce.

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A sensualidade e a transgressão são as marcas mais fortes desta série que em seus menores detalhes cuidou de primar pela beleza e pelo erótico. Pelas imagens e sons , somos capazes de sentir o cheiro do mar , a mornidão do Riacho doce , o calor do sol e a mesma luz que invade os olhos de Eduarda , fazendo-a desmaiar , nos invade. Talvez , uma das cenas mais luxuriantes seja a que Eduarda e a forasteira Cristina , interpretada por Suzy Rego, vão a uma festa de pescadores na praia . Ambas entram na roda e dançam. Eduarda até à exaustão. Chega a quase desfalecer de cansaço e emoção. Se integra totalmente àquela vida rudimentar e sensorial. Os homens a olham com desejo, seu mundo se abre para outras possibilidades .

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Eduarda desmaia ao se deparar com a luz do sol de Riacho doce. Ela tem uma espécie de premonição de tudo que está por vir.

Ela se delicia com os pratos coloridos , fortes e apimentados preparados por sua fiel empregada. Em uma determinada cena podemos ver um prato cheio de carambolas. A fruta de um amarelo vivo nos remete a umidade , a um sabor típico e tropical que enfeita a cena e é desdenhada por Carlos. O marido de Eduarda , vivido por Herson Capri, despreza a comida preparada por Hermínia como despreza tudo que tenha a ver com Riacho doce. Considera seu povo ignorante , a comida horrível, a música vulgar. Por sua vez , Eduarda se põe diante da janela ou da varanda para ouvir o violão de Nô, o chamado do amor, o chamado à febre como as águas mornas de Riacho doce. Se Vô Manuela faz seus feitiços , Nô também enfeitiça com sua música e seus olhos de mar em ressaca. E Eduarda o segue sem temer as consequências, como outras mulheres o seguiram anteriormente. Em Riacho doce ninguém escapa impune das consequências da paixão.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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