cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Malévola e mulheres com asas cortadas

Não, não estou dizendo que o amor não existe. Mas por outro lado, vivemos em uma sociedade que torna tudo muito complicado para as mulheres que ousam serem elas mesmas e pensarem com a própria cabeça. Mulheres com luz própria ameaçam o status quo que é ainda predominantemente masculino. Para muitos homens e muitas mulheres também, o ser feminino precisa ser sempre uma sombra do seu parceiro, uma espécie de acessório.


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Filmes como Malévola e Caminhos da floresta propõem uma nova leitura da realidade. Provavelmente, as meninas de hoje não crescerão tão ingênuas como as de outras épocas, incluindo a minha.

Se as mulheres atuais cresceram esperando por um "príncipe" que as salvasse de uma vida de tédio e ostracismo, as garotas de hoje são alertadas que mulheres fortes e poderosas podem ter suas asas cortadas pelo homem amado.

Não pretendo cair em nenhum tipo de generalização, mas me parece pertinente dizer que existe uma espécie de "boicote inconsciente" por parte de muitos homens quando o tema é se relacionar afetivamente ou até mesmo profissionalmente com uma mulher que pode empanar o brilho da força masculina.

Malévola é a fada principal de seu reino. Um reino encantado, onde não há maldade e todos seres vivem em harmonia. Stefan, um humano, invade seu reino para roubar e mesmo assim , ela o perdoa e se apaixona por ele. O beijo de Stefan que para Malévola parecia um beijo de amor verdadeiro, não passou de um beijo e na primeira oportunidade, Stefan traiu a confiança de Malévola, cortando suas enormes asas em troca do trono do reino dos humanos. Malévola se torna extremamente vingativa e envenenada pelo ódio. Ela não pode mais voar ...nos dois sentidos. Além de perder suas asas físicas, perdeu as asas simbólicas que temos quando cremos no amor verdadeiro.

Stefan mostrou à Malévola uma realidade brutal e cínica ao invés de salvar-lhe do tédio, do ostracismo, da exploração, da morte, como vemos em outros contos de fadas, incluindo a própria versão tradicional de A bela adormecida.

Se em Cinderela, por exemplo, o amor salvou a protagonista de uma vida miserável de exploração e se Rapunzel dependeu de um homem para sair da torre e ver o mundo e A bela adormecida precisou do beijo de um príncipe para acordar, em Malévola, o homem estraga o mundo perfeito feminino. Fugir de uma vida miserável, escapar da torre e acordar são metáforas do começar a viver. Em Malévola ocorre o inverso. Ela vivia melhor antes do falso príncipe.

Não, não estou dizendo que o amor não existe. Mas por outro lado, vivemos em uma sociedade que torna tudo muito complicado para as mulheres que ousam serem elas mesmas e pensarem com a própria cabeça. Mulheres com luz própria ameaçam o status quo que é ainda predominantemente masculino. Para muitos homens e muitas mulheres também, o ser feminino precisa ser sempre uma sombra do seu parceiro, uma espécie de acessório.

Não é à toa que na maioria dos casais formais e estabelecidos, o homem ainda ganha um salário melhor do que a parceira, tem um nível de instrução maior, tem mais possibilidades de se destacar socialmente. Mesmo mulheres consideradas brilhantes acabam se casando com homens ainda mais marcantes no sentido social. Em suma: a mulher precisa estar sempre, pelo menos, um degrau abaixo para não ter suas asas cortadas. Se em contos de fadas, as mulheres fugiam do ostracismo por meio do amor, na vida real, muitas vezes, precisamos mergulhar no ostracismo para ter o amor ou pelo menos o seu simulacro.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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