cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O homem irracional e o niilismo amoral de Allen

O mais instigante no filme não é a trama em si ( embora ela seja muito interessante), mas sim o niilismo da vida. Jill, uma linda estudante interpretada por Emma Stone, vive um relacionamento amoroso sem expressividade que cai por terra quando se encanta pelo professor de Filosofia. Mas no decorrer da trama , ela acaba sentindo saudade deste mesmo relacionamento inexpressivo por perceber que o professor não era exatamente quem ela acreditava ser. Enfim, ela acaba optando pelo menos pior. O próprio Sartre dizia que na vida precisamos escolher entre o ruim e o menos pior.


critica_resenha_homem_irracional_filme_woody_allen.jpg

Ver ao cinema de Woody Allen , muitas vezes, exige de nós certo distanciamento moral. Se desejarmos captar o mais interessante e subjacente das tramas e personagens, devemos temporariamente nos desconectarmos dos conceitos de moralidade e imoralidade que regem a vida social e também as nossas escolhas mais íntimas e privadas.

O filme é aberto com um pensamento de Kant, um dos mais importantes filósofos racionalistas. Kant era um defensor da moral, que acreditava na verdade acima de tudo, mesmo que uma mentira pudesse ajudar uma pessoa inocente. Para Kant , abrir exceções para a mentira era o mesmo que aceitar um mundo em que mentir é um ato válido. Teoricamente falando é simples de entender e bastante louvável. Na prática , nem tanto, como defendeu Abe Lucas, um professor pouco ortodoxo de Filosofia.

alx_homem-irracional-20140819-02_original.jpg

Escolher como protagonista do filme um professor de Filosofia foi bastante interessante e até certo ponto meio metalinguístico pois o cinema de Allen é um cinema filosófico. É um cinema que propõe uma leitura racional e crítica da realidade. Nesta obra, Allen confessa abertamente o seu interesse meio desdenhoso pelos possíveis e ao mesmo tempo questionáveis benefícios da Filosofia. O professor em determinado momento afirma que muito da Filosofia é masturbação verbal, porém não deixa de filosofar. Mais do que isso. Entrega-se à interpretações inusitadas da própria Filosofia quando relaciona seu ato transloucado com o Existencialismo de Sartre.

irracional-man-14julho2015-09.jpg

O mais instigante no filme não é a trama em si ( embora ela seja muito interessante), mas sim o niilismo da vida. Jill, uma linda estudante interpretada por Emma Stone, vive um relacionamento amoroso sem expressividade que cai por terra quando se encanta pelo professor de Filosofia. Mas no decorrer da trama , ela acaba sentindo saudade deste mesmo relacionamento inexpressivo por perceber que o professor não era exatamente quem ela acreditava ser. Enfim, ela acaba optando pelo menos pior. O próprio Sartre dizia que na vida precisamos escolher entre o ruim e o menos pior.

homem-irracional-1.jpg

Abe com Jill

Por outro lado, o professor também se empolga com a ideia de ir para a Europa com Rita , uma atraente professora casada que vive tendo romances com colegas. Abe prefere a estudante Jill, mas Rita o deseja com menos ressalvas, com menos poréns.

O-Homem-Irracional-01.jpg

Abe com Rita

No final das contas, identificamos em O homem irracional o mesmo sentimento niilista de tédio que podemos encontrar em outros filmes de Allen. Para ele, a vida é banal e mesquinha. O que chamamos de paixão, muitas vezes não passa de tesão. O que chamamos de amor, muitas vezes não passa de comodismo. O que mais nos encanta pode ser a nossa perdição. O que consideramos coragem e altruísmo, pode ser simplesmente um ato de vaidade e fúria para quebrar o tédio e anestesiar as dores e aflorar os sentidos. O que consideramos uma luz no fim do túnel, pode ser apenas um pisca-pisca ordinário que vai se queimar no minuto seguinte.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Sílvia Marques
Site Meter