cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O perigo de tentar impor ao outro as nossas ilusões

Porém, a pior parte dos julgamentos é quando eles são injustos e dizem respeito à subjetividade do interlocutor. Se reprimo uma conduta imoral da pessoa que sofre , o peso da minha crítica não é tão severo pois lá no fundo, quem agiu de forma imoral sabe que errou. Mas, quando tentamos ler a história a partir das nossas experiências e preferências, corremos o risco de cometer dois erros muito graves, que podem gerar consequências irreversíveis na vida de quem sofre: além de fazer uma leitura equivocada, podemos impor ao outro uma verdade que é nossa, que não tem nada a ver com a experiência que o outro viveu.


menina-se-olhando-no-espelho-e-nao-gostando-baixa-autoestima-acne-espinha-1394031646580_956x500.jpg

Uma das coisas mais complicadas na vida é desenvolvermos a alteridade. Alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Normalmente, analisamos as pessoas e as situações a partir das nossas opções, das nossas preferências e estilo de vida. Se sou passional, tenho dificuldade para entender uma escolha racional. Se sou racional, tenho dificuldade para entender uma escolha passional pois não agiria daquela forma.

Analisar as questões sob o nosso ponto de vista é algo razoavelmente corriqueiro e sem grandes consequências. Mas quando despejamos a nossa subjetividade em cima de um sujeito fragilizado, corremos o risco de aniquilar o outro sem nos darmos conta.

Quando ouvimos um relato de um depressivo ou de alguém que foi abandonado pelo parceiro afetivo, temos a tendência de reconstruir a história do outro a partir das nossas experiências e subjetividade. Podemos ou não nos identificar com quem nos fala. Quando nos identificamos, fica um pouco menos complicado consolar a pessoa em questão. Quando nos identificamos com o "algoz" da pessoa que nos fala, tendemos, mesmo que inconscientemente, a massacrar quem fala conosco.

Uma das piores coisas que uma pessoa pode falar quando ouve um relato de desespero, é fazer quem sofre acreditar que merece o sofrimento vivido. É satanizar quem sofre. Mesmo que identifiquemos pontos falhos na conduta do sofredor, devemos ser muito cuidadosos no nosso julgamento porque quem está no fundo do poço não tem condições para ser sentenciado.

Porém, a pior parte dos julgamentos é quando eles são injustos e dizem respeito à subjetividade do interlocutor. Se reprimo uma conduta imoral da pessoa que sofre , o peso da minha crítica não é tão severo pois lá no fundo, quem agiu de forma imoral sabe que errou. Mas, quando tentamos ler a história a partir das nossas experiências e preferências, corremos o risco de cometer dois erros muito graves, que podem gerar consequências irreversíveis na vida de quem sofre: além de fazer uma leitura equivocada, podemos impor ao outro uma verdade que é nossa, que não tem nada a ver com a experiência que o outro viveu.

Vamos a um exemplo? Uma mulher é abandonada pelo parceiro, mas ela tem certeza de que o homem que a rejeitou, ainda a ama , mas vive algum conflito que o impede de vivenciar este amor. A mulher em questão desabafa com uma amiga. Esta amiga se identifica com o homem que abandonou a relação, pois no passado, ela largou um namorado por ter medo de viver emoções intensas. Na cabeça dela, o homem que abandonou a amiga , a rejeitou por medo de viver sentimentos intensos. Esta pessoa não consegue aceitar que o namorado da amiga pode ter outras razões para ter desmanchado a relação, pois está totalmente enclausurada em suas próprias crenças. Mesmo que a amiga repita mais de mil vezes que a sua história de vida é outra , é diferente, a amiga "consoladora" não consegue escapar de seus paradigmas e tenta praticamente à força impor a sua versão, mesmo não conhecendo detalhes íntimos da história ocorrida.

Em resumo: ao em vez de consolar quem sofre, a pessoa sem alteridade duplica o sofrimento do outro, pois o faz crer que além de abandonado, ele mereceu aquele sofrimento ou ainda desmerece o que o outro viveu, reduzindo uma história de amor à uma aventura ou a uma paixonite sem grande importância.

Quem sofre já precisa conviver com a falta do outro. Este outro pode ser uma pessoa. Pode ser a própria autoestima. Quando alguém tenta destruir até mesmo as lembranças felizes e lado alegre da relação que se acabou, ela não está ajudando. Ela está empurrando o outro por um corredor escuro com um abismo à frente. Podemos sim tentar ajudar o outro a se libertar de ilusões. Mas não temos o direito de impor as nossas ilusões ao outro como se ele fosse o reflexo do nosso espelho.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Sílvia Marques