cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Beleza americana e a nossa sociedade do nada é o que aparenta ser

No filme "Beleza americana", Lester, o personagem protagonista vivido por Kevin Spacey, quebra o cerco do american way of life e passa a viver de uma forma muito mais prazerosa e autêntica. Ele coloca em segundo o plano o prazer masturbatório e volta a desejar. Mais do que isso. Volta a sonhar, a acreditar que existe todo um mundo de possibilidades fora dos limites do socialmente estabelecido.


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O filme Beleza americana , dirigido por Sam Mendes, em 1999, poderia ser resumido em uma simples e ao mesmo tempo complexa frase: Nada é o que aparenta ser na sociedade pautada pelo "American way of life". Ou ainda poderíamos resumir a mensagem central do filme com menos palavras: O sonho americano é um grande fiasco.

Mas o que seria o sonho americano que a sociedade brasileira têm incorporado tão bem no mau sentido do termo bem? Ter uma casa confortável, um carro novo na garagem, trabalhar numa empresa importante, casar e ter filhos. De preferência dois. E se você for um abençoado pelo destino, terá um menino e uma menina.

Nada contra ter uma casa confortável. Nada contra ter um bom carro, um casamento e filhos. O problema é quando as pessoas passam a acreditar cegamente que existe apenas um meio, um caminho de alcançar o sucesso, a realização, a felicidade.

É problemático quando as pessoas se fecham numa forma de pensamento que não permite novas leituras, novas interpretações. É triste quando alguém não consegue entender nem aceitar que uma pessoa possa ser feliz seguindo um outro caminho, que não inclua as diretrizes do american way of life. Nem todo mundo nasceu para casar. E muitos que se casam não querem filhos. Ou querem um filho apenas. Nem todo mundo acha primordial ter um carro. Muita gente prefere gastar dinheiro em outras coisas. Nem todo mundo sonha em trabalhar 12 horas por dia numa grande corporação, se estressando todos os dias com perversos jogos de poder. Escondendo-se atrás de um personagem para sobreviver às pressões de um meio altamente competitivo.

No filme "Beleza americana", Lester, o personagem protagonista vivido por Kevin Spacey, quebra o cerco do american way of life e passa a viver de uma forma muito mais prazerosa e autêntica. Ele coloca em segundo o plano o prazer masturbatório e volta a desejar. Mais do que isso. Volta a sonhar, a acreditar que existe todo um mundo de possibilidades fora dos limites do socialmente estabelecido.

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Lester volta a sonhar quando conhece Angela

Quando o filme começa, seu maior prazer é se masturbar durante o banho. Tal referência pode servir de metáfora para uma vida solitária, sem diálogo, sem conexão verdadeira.

Uma cena bastante emblemática do filme é o jantar entre Lester com a esposa e a filha. A mesa simetricamente arrumada enquadrada por uma câmera estática e um plano aberto simboliza a monotonia e o artificialismo da vida pautada pelos preceitos do american way of life. Quando Lester joga um prato contra a parede , a cena ganha ares autênticos e uma possível verdade começa a vir à tona. Enfim, o que parece ser um ruído, um tom destoante é justamente o que quebra a tensão angustiante daquela falsa harmonia.

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Muitos personagens de "Beleza americana" vivem uma um personagem, uma vida de mentira para se enquadrarem naquilo que a sociedade espera de cada um de nós. A esposa de Lester, Carolyn, interpretada por Annette Bening é uma corretora de imóveis deslumbrada com a ideia de sucesso que resume bem o ridículo de uma mentalidade que divide o mundo entre vencedores e perdedores. Carolyn pode servir de metáfora do pensamento reinante na nossa época: com pensamento positivo consegue-se tudo. Ela resume bem à Era da autoajuda.

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Lester tenta reviver a paixão dos primeiros anos do casamento mas, Carolyn estava mais preocupada em não sujar o sofá.

Outra personagem que se esconde muito bem atrás de uma máscara social é Angela, amiga da filha de Lester. Ele se encanta pela garota sexy e popular. Angela se passa por uma garota liberada, que teve muitas experiências sexuais. Mas na verdade é virgem e fragilizada como qualquer adolescente da sua idade, cheia de dúvidas sobre a vida, sobre seu corpo, sobre o amor. Angela temia ser considerada comum. Ricky, namorado da sua amiga Jane, afirma que Angela era comum. Ricky era considerado um garoto problema que filmava a tudo e a todos , como se pretendesse encontrar por meio da lente da sua câmera o que existe de real em cada um. Ricky encanta-se por Jane, filha de Lester. A garota aparentemente banal é vista como especial por ele.

Merece destaque o personagem do vizinho de Lester, um militar homofóbico e com ideias nazistas, que subjuga a esposa e ironiza os vizinhos homossexuais. No final do filme, descobriremos que ele é um homossexual enrustido, capaz de qualquer coisa para manter o seu segredo.

Em resumo: a loira sexy era uma garota virgem, a corretora de sucesso era apenas uma mulher que passou o filme todo sem conseguir vender uma casa , uma casa decadente como ela mesma, e o homofóbico era na verdade um homossexual.

"Beleza americana" é aquele tipo de filme aparentemente simples, que nos revela por meio dos mais variados detalhes, verdades e situações que fazem parte do nosso mais comezinho cotidiano.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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