cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

Status quo me dá um tempo, please!

Pelo status quo , uma pessoa não pode ser feliz ou ter sucesso vendendo coco ou sanduíche natural na praia. Pelo status quo, todo mundo precisa ter um diploma universitário, usar terno e gravata ou terninho em grandes empresas. Pelo status quo, batom vermelho é vulgar, esmalte preto é agressivo, rir alto é falta de educação, não priorizar o dinheiro é falta de ambição ( podemos ser ambiciosos de tantas formas. Podemos ser ambiciosos no que diz respeito ao tempo livre , ao amor , a fazer aquilo que se gosta etc).


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Ok.Ok.Ok. Precisamos de normas e padrões para seguir caso contrário a vida social viraria um verdadeiro caos. Imaginem um mundo em que cada um pensa com a própria cabeça e age de acordo com aquilo que pensa e sente?

Por outro lado, o excesso de normas e padrões automatiza a vida e as relações, retirando a espontaneidade dos gestos e palavras, tirando o sabor das pequenas experiências cotidianas. É no imprevisto e no improviso que nos reinventamos e recriamos a vida com cores mais interessantes. É no imprevisto e no improviso que descobrimos o que nos torna únicos. Muitos ainda não sabem disso ou fingem não saber que aquilo que nos diferencia não é o produto anunciado para uma massa sem rosto e sim o que fazemos porque simplesmente queremos fazer. Aquilo que fazemos de determinado jeito porque é o nosso jeito e não o dos outros e não o mais prudente.

Algumas regras precisam realmente ser seguidas. Ultrapassar um sinal vermelho não é irreverência nem criatividade. É cretinice na veia. Quando falo de quebrar regras é no sentido de repensar tabus e preconceitos. É questionar o porquê de determinados padrões e proibições, mesmo que sejam proibições feitas de forma subliminar.

Revendo um filme comercial ( alguns filmes comerciais questionam também os valores sociais) me animei a escrever este artigo: Status quo me dá um tempo, please.

O filme em questão tem como título original White Palace e foi traduzido para o Português como Loucos de paixão. Os atores principais são Susan Sarandon e James Spader. Ele, um jovem brilhante , elegante e culto. Ela uma garçonete desbocada com mais de 40 anos. A relação do casal foi vista com maus olhos pelos amigos e familiares do rapaz. Foi mal vista por ele mesmo. Mas no final das contas, os dois ficaram juntos e a partir daquele relacionamento ele reavaliou a vida dele como um todo, incluindo a profissional.

Na vida real ou se o filme continuasse, talvez os dois não fossem felizes para sempre nem ficassem juntos. Mas de qualquer forma , aquela relação pouco convencional quebrou um importante paradigma na vida do personagem.

Pelo status quo aquela relação não era possível, mas para eles era. Pelo status quo , uma pessoa não pode ser feliz ou ter sucesso vendendo coco ou sanduíche natural na praia. Pelo status quo, todo mundo precisa ter um diploma universitário, usar terno e gravata ou terninho em grandes empresas. Pelo status quo, batom vermelho é vulgar, esmalte preto é agressivo, rir alto é falta de educação, não priorizar o dinheiro é falta de ambição ( podemos ser ambiciosos de tantas formas. Podemos ser ambiciosos no que diz respeito ao tempo livre , ao amor , a fazer aquilo que se gosta etc).

Pelo status quo, a competência e a idoneidade de um profissional é medido pela cor cinza e marinho das roupas , pela maquiagem nude ou cor de nada, pelo comprimento dos cabelos, pela ausência de tatuagens, barbas e piercings. Pelo status quo a gente não pode amar demais, a gente não deve se perder nas delícias e nas agruras de uma vida escrita com as nossas próprias mãos. O status quo nos ensina a copiar vírgula por vírgula de um penoso manual escrito com letras bem pequenas e cheias de passagens obscuras e sem sentido para a nossa vida.

Status quo não combina com felicidade nem com infelicidade. Status quo combina com coma emocional.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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