cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A própria vida como lugar desconfortável no mundo

O problema é quando a gente se sente deslocado na nossa própria vida. Quando a gente se sente dispensável para nós mesmos. Quando fazemos apenas o que odiamos, vamos perdendo o brilho, a inspiração. Acabamos nos tornando parte de tudo que mais desprezamos e de certa forma passamos a nos desprezar também. A associação entre autodesprezo e auto piedade forma uma combinação explosiva para qualquer autoestima e sentido maior para a vida.


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Quantas vezes não nos perguntamos: "O que estou fazendo aqui?" Quantas vezes não nos perguntamos: "Por que eu estou rindo desta piada idiota? Porque eu estou concordando com este pensamento sem noção? Por que eu estou deixando de me divertir? Por que eu estou deixando de ser eu mesma? Qual é o sentido disso tudo? Onde eu estou na minha própria vida?"

Parece surreal dizer o que eu vou dizer, mas muitas pessoas não são protagonistas da própria existência. E falando em existência, elas apenas existem: cumprem as funções fisiológicas e sociais quase que com o mesmo automatismo. Quase que com o mesmo fatalismo típico do Naturalismo, como se não houvesse possibilidade alguma de mudança, como se todas as cartas tivessem sido entregues e mais nada restasse a fazer que se adaptar a elas.

Obviamente , viver com autenticidade não é tarefa simples, até mesmo porque nem tudo depende da nossa boa vontade. Nem tudo depende da nossa escolha. Vivemos cercados por muitas pessoas e circunstâncias que vão restringindo bem o nosso sentido de liberdade. Não existe liberdade irrestrita , até mesmo porque estamos sujeitos a nós mesmos , às nossas limitações e autoenganos. Enfim, qualquer liberdade é relativa. É parcial. Nenhum problema. Tudo ou quase tudo é relativo mesmo. A não totalidade das coisas não as tornam menos intensas ou belas. Às vezes, a grande beleza reside na precariedade mesmo das emoções e experiências subjetivas. Existe algo intrínseco entre a precariedade e a subjetividade. A subjetividade cria ruídos , abre abismos.

O problema reside em viver numa quase total falta de liberdade, como que teleguiado por forças que não entendemos ou que até compreendamos , mas não aceitamos ou fingimos aceitar para evitar caos e constrangimentos. O problema é quando tudo ou quase tudo na nossa vida vira uma grande maçada ...ou colocando numa linguagem mais chula e direta: um grande pé no saco. O problema é quando tudo vira obrigação. Ri-se da piada do chefe. Aguenta-se o papo chato dos colegas para fingir integração. Trabalha-se em projetos para não perder o emprego. Compra-se algo completamente dispensável para competir com o cunhado/cunhada.

O problema é quando a gente se sente deslocado na nossa própria vida. Quando a gente se sente dispensável para nós mesmos. Quando fazemos apenas o que odiamos, vamos perdendo o brilho, a inspiração. Acabamos nos tornando parte de tudo que mais desprezamos e de certa forma passamos a nos desprezar também. A associação entre autodesprezo e auto piedade forma uma combinação explosiva para qualquer autoestima e sentido maior para a vida.

Obviamente , a vida tem um lado objetivo e prático, cheio de deveres chatos. Não há como fugir. O problema é quando este lado cansativo começa a sufocar todas as coisas bacanas que somos capazes de realizar e sentir. Muitas vezes, a vida faz mais sentido para nós quando ela não faz sentido para a maioria das pessoas. Sim, existe uma relação forte e poderosa entre ser feliz e remar contra a maré. Ser feliz não significa estar livre de problemas. Ser feliz significa estar em sintonia com você mesmo, convivendo e compartilhando experiências e sensações com aqueles que se conectam a nós. Ser feliz é deixar-se tocar pelos outros e os outros se deixarem tocar por nós numa dinâmica cúmplice e vivaz.

A felicidade tem a ver com cumplicidade , com apetite. Enquanto o apetite de viver e fazer e sentir e pensar for maior e mais eloquente do que o medo de tentar coisas novas , a preguiça de romper com esquemas chatos, o tédio diante das dificuldades da vida, podemos dizer que somos felizes sim.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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