cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Amor é prato cozido em fogo lento: a pressa em ter alguém forma os pares mais absurdos

Não é à toa, que depois de algum tempo de convivência, o diálogo de muitos casais se reverte em jogos irônicos e maldosos, em que cada um tenta ferir o outro com mais crueldade. Costumamos ridicularizar o que não entendemos. Costumamos ridicularizar o que não podemos sentir. Talvez, por tal razão, os pragmáticos desprezem tanto os intelectuais e os descrentes do amor considerem os românticos tão patéticos.


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A literatura , o cinema e o teatro estão aí para nos mostrar muitas histórias de pessoas apressadas demais em encontrar o amor ou simplesmente um parceiro para seguir junto na estrada da vida.

A pressa em ter alguém forma os pares mais absurdos, mais incompatíveis, com objetivos de vida mais díspares, com necessidades psicológicas mais incongruentes, com almas de natureza completamente diferente.

Um exemplo profundamente belo e melancólico sobre a incompatibilidade de almas pode ser encontrado no romance naturalista inglês "Judas, o obscuro" , de Thomas Hardy. Jude e Arabella apresentam alguma compatibilidade sexual e acabam se casando. Mas no dia a dia , as diferenças entre eles vão se tornando cada vez mais evidentes e menos complementares. Sim, algumas diferenças são complementares e ajudam na relação. Mas, no caso de Jude e sua esposa, as diferenças tornavam a convivência impraticável.

Ele , era um intelectual ultra sensível. Ela, uma mulher prática do campo. Para ele, a mesa servia para estudar. Para ela, a mesa servia para colocar o toucinho. Para ele, os livros eram o mundo. Para ela, os livros davam um bom calço para a mesa bamba. Ao matarem juntos um porco , ela pediu que ele enfiasse a faca lentamente no coração do animal para a qualidade do sangue ficar mais adequada ao preparo das morcillas. Porém, para ele era inconcebível ver um ser que ele criou morrer lentamente e ele enfia a faca depressa para encerrar rapidamente o sofrimento do porco.

Não é à toa, que depois de algum tempo de convivência, o diálogo de muitos casais se reverte em jogos irônicos e maldosos, em que cada um tenta ferir o outro com mais crueldade. Costumamos ridicularizar o que não entendemos. Costumamos ridicularizar o que não podemos sentir. Talvez, por tal razão, os pragmáticos desprezem tanto os intelectuais e os descrentes do amor considerem os românticos tão patéticos.

Talvez, por esta razão, os intelectuais considerem, mesmo que não admitam, os práticos seres mais rudimentares. Talvez, por esta razão, os românticos enxerguem os descrentes no amor como seres profundamente infelizes e essencialmente solitários.

Na pressa em ter alguém, na pressa em dizer que temos alguém, acabamos ignorando as qualidades mais importantes que uma pessoa precisa ter para se conectar profundamente conosco. Na pressa de ter alguém, ignoramos a nós mesmos. No frisson de ter alguém, maximizamos coisas sem importância e colocamos debaixo do tapete o que realmente fará a diferença no dia a dia.

Se pararmos para prestar atenção, o que mais encontraremos são casais incompatíveis, desconexos, sem um entendimento profundo da alma do outro. O que mais encontraremos é gente que está junto, mas que usa linguagens completamente diferentes. Gente que não consegue dar alegria ao parceiro pois simplesmente não sabe quem é o parceiro, não faz a menor ideia daquilo que motiva o parceiro, daquilo que faz o parceiro vibrar.

Sim, o medo da solidão nos empurra para o mais nefasto tipo de solidão: aquela que sentimos estando acompanhados. Sim, o amor é prato cozido em fogo lento. É preciso guardar-se para o amor. É preciso guardar-se para quem pode nos ver como somos , para quem pode apreciar quem somos, para quem pode resgatar tudo aquilo de mais verdadeiro, íntimo e profundo que existe em nossa natureza e muitas vezes ocultamos por medo dos julgamentos, por medo da rejeição.

Não há nada mais lindo numa parceria afetiva do que podermos mostrar para o outro tudo aquilo de menos convencional que temos e somos, sem causar estranhamento ou desaprovação. Sim, é preciso amar aquilo que não é bonitinho no outro. Amar ou pelo menos aceitar e respeitar. É preciso se encantar ou simplesmente se divertir com aquilo que extrapola os limites do politicamente correto de alguém.

É preciso sentir que o romance vai muito além das rosas vermelhas, do jantar à luz de velas, das mensagens doces trocadas pelo WhatsApp, pelos "eu te amo" sussurrados ao pé do ouvido. O romance está também no arroto que escapa durante uma refeição. O romance está também na risada cúmplice que vem depois do arroto. O romance está nas trapalhadas feitas a dois, na travada que damos nas costas ao tentar uma posição sexual diferente, na gafe cometida na frente de amigos que geram piadas a dois. Sim, precisamos amar o lado confuso, incompetente e estranho do nosso parceiro para dizer que estamos realmente amando.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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