cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Cinco cineastas que mostram o lado dark da vida- Parte 1

Talvez, tenha este gosto pelos pessimistas pois eles mostram a vida e o ser humano sob sua pior perspectiva , sob sua luz mais desfavorável. É como se eles nos preparassem para os horrores da vida. Mais do que isso. É como se eles dissessem: "Fiquem tranquilos. Não sofram tanto com as suas desgraças. A vida é tragédia mesmo".


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Cena do filme Lua de fel, de Roman Polanski

Uma vez, lendo ao livro O cinema pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes, do professor de Filosofia Julio Cabrera, me deparei com um fragmento que me encantou e que me assustou ao mesmo tempo: ao citar os cineastas mais pessimistas e os mais otimistas da História do Cinema, percebi que havia mais nomes que me agradavam na lista dos pessimistas.

Talvez, tenha este gosto pelos pessimistas pois eles mostram a vida e o ser humano sob sua pior perspectiva , sob sua luz mais desfavorável. É como se eles nos preparassem para os horrores da vida. Mais do que isso. É como se eles dissessem: "Fiquem tranquilos. Não sofram tanto com as suas desgraças. A vida é tragédia mesmo".

Ao citar os mais otimistas, Cabrera não quis dizer que são cineastas bobos alegres que acreditam que viver é passar uma tarde no parque comendo algodão doce. Muitos cineastas otimistas mostram também o lado trágico da vida, mas sem perder de vista que existe a bondade humana e que mesmo nos cenários mais devastados pelo sofrimento, o amor, a amizade , a solidariedade florescem.

Mas vamos aos pessimistas? Se você está a fim de entrar numa energia mais pesadona, precisa ver pelo menos 3 filmes de cada uma destas figuras citadas a seguir. A lista é em ordem alfabética.

1. Carlos Saura

Cineasta espanhol que fez filmes altamente codificados no tempo do Franquismo, denunciando o regime ditatorial de forma bastante intelectualizada. Seus filmes são extremamente complexos e verdadeiros pratos cheios para uma aula de Semiótica. Quase nada do que aparece na tela é o que estamos vendo. Saura utilizou muito a dança e a música flamenca para falar sobre a paixão, o ciúme, as crises políticas e o caráter mestiço da sua cultura.

Em 1970, Saura dirigiu Ana e os lobos. Os lobos na verdade são três irmãos. Cada um deles representa um dos pilares da sociedade franquista: o governo, a Igreja , a família , portanto o sexo reprimido. Ana é uma governanta que vai trabalhar na casa dos três irmãos e ao brincar com o poder, sofre consequências nefastas. Porém, em 1979, quatro após o término do Franquismo, Saura dirigiu a sequência de Ana e os lobos, intitulada Mamãe faz cem anos. Neste filme, a governanta Ana vai visitar a família para quem trabalhou quando moça. Isto é , a morte de Ana no primeiro filme foi simbólica. Com o fim do Franquismo, Ana pode conviver tranquilamente com seus antigos patrões.

Outro filme muito significativo de Saura sobre o Franquismo é Cría cuervos. À primeira vista , pode soar como um dramalhão sobre uma garotinha órfã. Mas para quem já é iniciado no cinema de Saura verá que o filme vai muito além da historinha narrada. Vai muito além do pessoal. Cría cuervos é uma caricatura sombria de um povo marcado por um ditadura.

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Cría cuervos

2. Louis Malle

Cineasta francês rejeitado pelo movimento Nouvelle-Vague. Costumo fazer uma piada maldosa e polêmica a este respeito: o rejeitaram pois ele era melhor. Sua condição financeira privilegiada permitiu que ele financiasse seus filmes. Malle lidou com os temas tabu com tamanha maestria , a ponto de relatar o mais sórdido e constrangedor com delicadeza e poesia.

Em Menina bonita toca no tema da pedofilia. Em O sopro do coração, no incesto entre mãe e filho. Em Trinta anos esta noite , no tema do suicídio. Adeus , meninos é um dos filmes mais delicados sobre o Holocausto. Um de seus filmes mais famosos é Perdas e danos , estrelado por Jeremy Irons e Juliette Binoche, sobre um político importante que destrói a sua vida ao se apaixonar pela noiva do filho.

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Perdas e danos

3. Luis Buñuel

Cineasta espanhol conhecido internacionalmente como o mestre do surrealismo no cinema, realizou filmes que atacavam o Franquismo, mas diferentemente de Saura, Buñuel se exilou. A obra de Buñuel também é bastante codificada, complexa e intelectualizada.

Buñuel teve três fases como cineasta: a primeira é a surrealista mais ortodoxa e apresenta apenas três filmes ( Um cão andaluz, A idade do ouro, Terra sem pão). A segunda é a mexicana e apresenta muitos títulos mais comerciais. A terceira , chamada fase europeia, é a mais famosa das três. Porém, em todas as fases como cineasta Buñuel criticou ferozmente as instituições sociais, mostrou a complexidade das relações humanas e o caráter mestiço da sua cultura. O Surrealismo foi apenas uma ferramenta utilizada por Buñuel para denunciar uma sociedade hipócrita , injusta e cruel.

O fantasma da liberdade , Via Láctea e O discreto charme da burguesia são os filmes da fase europeia que resgatam o Surrealismo mais ortodoxo da primeira fase. A bela da tarde, Esse obscuro objeto do desejo e Tristana embora possuam enredos razoavelmente lineares, apresentam uma grande complexidade tanto no que diz respeito à estética quanto ao conteúdo. São filmes aparentemente simples, mas altamente complexos se analisados por olhos mais atentos.

Da fase mexicana merecem destaque Viridiana e O anjo exterminador. O segundo apresenta uma situação completamente absurda fora de um contexto simbólico. Depois de um jantar , um grupo de amigos burgueses não consegue se retirar do living do casal anfitrião, embora nada de objetivo impeça a saída de todos. Uma mordaz crítica à burguesia mexicana com suas máscaras sociais.

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A bela da tarde

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O fantasma da liberdade

4. Quentin Tarantino

Para quem pensa que Tarantino é só sangue e violência , deveria assistir a seus filmes com olhos mais atentos. Sim, há muito sangue e violência na obra deste diretor estadunidense que utiliza de clichês para criticar os próprios clichês de uma sociedade massificada e imbecilizada. O cinema de Tarantino é filosofia na veia , em estado brutal.

Em Bastados inglórios e Django livre , ele resgatou contextos históricos seminais , mas criou soluções alternativas e estranhamente libertadoras para estes períodos de extrema violência e injustiça. Em Pulp Fiction, fez uma bela ironia ao "american way of life" de forma bem pouco ortodoxa. Em Cães de aluguel, mostrou ironicamente o lado humano dos criminosos. Este lado mais vulnerável dos criminosos também foi amplamente mostrado em Pulp Fiction, filme em que John Travolta vive um personagem que trabalha para um gangster e ao mesmo tempo aprecia Filosofia. Isto é , Tarantino põe em xeque a teoria de que a Filosofia e as artes podem nos humanizar e nos tornar pessoas melhores, embora o personagem vivido por Travolta não chega a ser um vilão cruel.

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Pulp Fiction

5. Roman Polanski

O polêmico cineasta polonês , nascido na França , ficou famoso por ter se envolvido num escândalo sexual, exaustivamente explorado pela mídia. Polanski perdeu sua primeira esposa de forma trágica ( assassinada por um psicopata. Detalhe: ela estava grávida)) e quando criança ficou preso num campo de concentração nazista. Enfim, motivos não faltaram para colorir a obra deste cineasta extremamente mordaz com tons trágicos.

Em O inquilino ele fez uma espécie de releitura não sobrenatural do cult O bebê de Rosemary. A trilogia do apartamento ( Repulsa ao sexo , de 1966, O bebê de Rosemary, de 1968 e O inquilino , de 1976) mostram pessoas materializando loucuras por meio do confinamento em condomínios domiciliares. Em Lua de fel, ele mostrou que amor romântico tem data de validade para acabar e que se o casal não aceita tal término numa boa , consequências trágicas podem surgir. Em Deus da carnificina, mostrou que estamos condenados à barbárie e que talvez o niilismo irônico seja a única saída para não enlouquecer numa sociedade absurda, que tenta explicar o inexplicável, controlar o incontrolável.

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Deus da carnificina

Futuramente , comentarei outros nomes interessantes. Outros nomes que utilizaram ou utilizam da brutalidade , da ironia, do desespero para mostrarem as agruras da raça humana.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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