cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Contrações e o sadismo das relações pseudo profissionais

A personagem interpretada por Yara de Novaes, a gerente sem nome de Ema, vivida por Débora Falabella, é um ícone de qualquer déspota que esconde o sadismo e o automatismo por trás de um sorriso frio. A gerente não precisa realmente ter um nome pois ela pode ser qualquer gerente tirânica que utiliza de um contrato absurdo para respaldar as próprias loucuras e vontade de manipular ao seu bel prazer.


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A peça teatral "Contrações" do dramaturgo inglês Mike Barlett, apresenta por meio de um humor bastante sutil e ácido, os perversos jogos de poder do mundo coorporativo que penetra na intimidade dos funcionários até drenar qualquer tipo de ânimo e sentido maior para a vida.

No início da peça temos uma Ema vivaz e eloquente, brincalhona, sedutora, confiante nos negócios e na vida de um modo geral. Aquela mulher forte e segura vai se desmilinguindo aos poucos até quase à sua aniquilação, até se transformar num ser apático, sem vontade própria, sem forças para sentir, querer ou revoltar-se.

No fundo, tudo se resume a manter os números de venda altos. No fundo, tudo se resume a ter o tal do sucesso tão ferozmente perseguido por aqueles que não conseguem ver nada além do dinheiro e do status.

A personagem interpretada por Yara de Novaes, a gerente sem nome de Ema, vivida por Débora Falabella, é um ícone de qualquer déspota que esconde o sadismo e o automatismo por trás de um sorriso frio. A gerente não precisa realmente ter um nome pois ela pode ser qualquer gerente tirânica que utiliza de um contrato absurdo para respaldar as próprias loucuras e vontade de manipular ao seu bel prazer.

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Embora Ema represente uma gama variada de mulheres e homens despedaçados pelo mundo corporativo, ela precisa ter um nome , pois além de um ícone , é também um ser humano. Ema vive o momento e se deixa levar por ele mesmo sem entender tudo o que lhe acontece muito bem. Ema primeiro quer fazer sexo com um colega. Depois se interessa verdadeiramente por ele. Por fim, deseja tê-lo ao seu lado para sempre. Nada é planejado.

Por outro lado, a gerente quer colocar tudo em planilhas, demarcar datas rigidamente. Para a gerente , o fundamental é manter os dois funcionários na empresa pois ambos são produtivos. O amor que se desenrola entre eles é mero detalhe , é um mero contratempo que precisa ser administrado para que não prejudique os negócios.

"Contrações" coloca uma lente de aumento sobre as relações corporativas , denunciando todo um sistema cruel e doentio, que só faz sentido para quem concebe a vida como transação comercial.

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A montagem é bastante interessante , pois por meio de signos visuais e sonoros explicados no prólogo da peça , o espetáculo ganha uma visualidade muito poderosa e levemente cômica , que quebra um pouco a tensão do texto naturalmente opressor. Na cena final, quando as duas mulheres envoltas por peles são enlaçadas por uma bruma de gelo seco, sentimos de forma quase cinematográfica o gelo da indiferença , a falta de sentido de vidas pseudo livres, desprovidas de amor e solidariedade.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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