cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

Dez filmes sobre a incomunicabilidade entre homens e mulheres

Grandes obras da literatura, além dos tipos textuais narrativo e descritivo, apresentam o tipo textual expositivo. O tipo expositivo é o utilizado em aulas e palestras. É quando alguém expõe um tema. Este tipo também é encontrado em livros não ficcionais e na Filosofia.


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Cena do filme Acossado de Godard

A incomunicabilidade entre homens e mulheres é tema caro a um tipo de cinema mais preocupado com o mundo interior dos personagens do que a simples narração de fatos. Pode soar estranho, mas nem sempre o objetivo central de um filme ou de um livro é contar uma história. Nem sempre saber quem é o assassino é a coisa mais importante para quem faz uma obra ou para quem a assiste.

Grandes obras da literatura, além dos tipos textuais narrativo e descritivo, apresentam o tipo textual expositivo. O tipo expositivo é o utilizado em aulas e palestras. É quando alguém expõe um tema. Este tipo também é encontrado em livros não ficcionais e na Filosofia.

Porém, obras como "A idade da razão", de Sartre possui mais exposição do que narração e descrição. "Assim fala Zaratustra" , de Nietzsche , por meio de discursos elaborados na forma de poesia, oferta uma aula de Filosofia bem caótica. "O deserto do amor" de Mauriac e "O estrangeiro" , de Camus também costuram a mais pura e dilacerante exposição filosófica por meio de uma linha finíssima de ficção.

" A vagabunda" , de Gabrielle Collete, obra limítrofe entre novela e poesia em prosa, também narra muito pouco. A vagabunda é uma atriz. É uma mulher amorosa, morrendo de medo de envelhecer. É uma desafortunada brilhante. Enfim, é um mergulho cruel no feminino.

Mesmo em obras bastante descritivas como Madame Bovary ( o excesso descritivo era marca do Realismo) podemos encontrar muitas interrupções na narração e descrição para mergulhar nas vicissitudes da alma humana, tão corruptível e lasciva.

Mas voltando ao cinema e aos filmes mais preocupados em trabalhar o emocional dos personagens e da vida em si , associando desta forma o poder das imagens com a sondagem psicológica da literatura, este artigo vai citar dez filmes que analisaram ou descreveram muito bem a incomunicabilidade entre homens e mulheres. A ordem dos filmes é aleatória. Não segue nenhum critério de data ou importância.

1. Acossado, de Godard

O filme se centra praticamente o tempo todo no diálogo sem pé nem cabeça de um casal que quanto mais fala , menos se comunica. A dose de humor do filme estabelece uma espécie de relação semiótica com o ridículo das conversas íntimas que não chegam a lugar algum.

2. Um cão andaluz, de Buñuel

Primeiro filme do célebre cineasta espanhol em parceria com o pintor Salvador Dalí. Num estilo surrealista bem ortodoxo, os dois artistas revelaram a dinâmica insana de um homem e uma mulher que se desejam e se ferem em proporções iguais.

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3. A mulher do lado, de Truffaut

Como Godard, Truffaut foi um seminal nome da Nouvelle-Vague. A mulher do lado é um filme de fim de carreira. Fim de carreira no que diz respeito à data. A qualidade é primorosa. O filme gira em torno da seguinte tese: homens e mulheres que não conseguem viver juntos nem separados. Não conseguem se entender nem deixam de se amarem.

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4. Nostalgia , de Tartovski

Entre muitos outros temas, Nostalgia trabalha a incomunicabilidade entre homens e mulheres. A inutilidade de qualquer exposição franca por parte das mulheres já que o universo masculino não consegue captar as nuances que tanto despedaçam as mulheres. Entre o nojo e uma paixão despudorada , a personagem vivida por Domiziana Giordano gasta saliva à toa tentando agredir e ao mesmo tempo se fazer desejar pelo protagonista, um homem culto, mas tolo nos assuntos do amor.

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5. Não amarás, de Kieślowski

Retirado da série Decálogo, "Não amarás" representa o sexto mandamento da lei de Deus: "Não pecarás contra a castidade". Num estilo bem melancólico, típico do diretor da célebre trilogia das cores ( A liberdade é azul, A igualdade é branca, A fraternidade é vermelha) o filme se centra na essência do amor, na completude do amor, na não necessidade de uma realização carnal para ele existir. E como podemos mais ferir quem mais nos ama.

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6. A noite , de Antonioni

O cineasta do tédio considerava as mulheres mais lúcidas do que os homens, embora não as compreendesse. Em "A noite" , primeiro filme da trilogia do tédio, é mostrada a dinâmica de um casal que deixou de se amar , mas que se manteve em silêncio. O afastamento emocional afeta de formas bem distintas cada um deles: ele parece não se dar conta enquanto ela caminha de um lado para o outro numa postura inquieta que estabelece uma relação semiótica com a própria inquietação interior. Simbolicamente falando, ela bate a cabeça contra a parede da indiferença que se estabeleceu de forma orgânica e insuportável.

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7. Noivo neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen

Com o título original "Annie Hall" , esta comédia amarga mostra com o típico humor cáustico de Allen que nem sempre amar basta para fazer uma relação durar. O casal protagonista se entende , se encaixa , se ama. Mas a relação vai se perdendo em mesquinharias cotidianas.

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8. Foi apenas um sonho, de Sam Mendes

Inspirado no romance "Revolutionary road" , de Richard Yates, "Foi apenas um sonho" narra de forma bem amarga o fracasso do sonho americano e a postura inquieta da mulher diante das trivialidades da vida enquanto o homem se adequa.

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9. Nosso amor de ontem, de Hans Canosa

Remake do filme de 1973 com o mesmo título, "Nosso amor de ontem" mostra um casal que já está separado , mas que ainda se ama fazendo um balanço da relação. Num estilo bem teatral ( quase toda a trama acontece num quarto de hotel) os dois falam e relembram bastante , mas não chegam a nenhuma conclusão sólida.

10. Closer, perto demais, de Mike Nichols

Um filme profundamente maduro e melancólico sobre as relações amorosas. Sobre a mutabilidade do amor e o abismo cotidiano.

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Além da incomunicabilidade entre homens e mulheres , os filmes citados acima trabalham outros temas como a solidão, a falta de sentido para a vida, a fragilidade das relações, a crítica às instituições, a loucura como sintoma da lucidez. Uma lista para nenhum cinéfilo cult botar defeito.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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