cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Dez filmes sobre a incomunicabilidade entre homens e mulheres

Grandes obras da literatura, além dos tipos textuais narrativo e descritivo, apresentam o tipo textual expositivo. O tipo expositivo é o utilizado em aulas e palestras. É quando alguém expõe um tema. Este tipo também é encontrado em livros não ficcionais e na Filosofia.


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Cena do filme Acossado de Godard

A incomunicabilidade entre homens e mulheres é tema caro a um tipo de cinema mais preocupado com o mundo interior dos personagens do que a simples narração de fatos. Pode soar estranho, mas nem sempre o objetivo central de um filme ou de um livro é contar uma história. Nem sempre saber quem é o assassino é a coisa mais importante para quem faz uma obra ou para quem a assiste.

Grandes obras da literatura, além dos tipos textuais narrativo e descritivo, apresentam o tipo textual expositivo. O tipo expositivo é o utilizado em aulas e palestras. É quando alguém expõe um tema. Este tipo também é encontrado em livros não ficcionais e na Filosofia.

Porém, obras como "A idade da razão", de Sartre possui mais exposição do que narração e descrição. "Assim fala Zaratustra" , de Nietzsche , por meio de discursos elaborados na forma de poesia, oferta uma aula de Filosofia bem caótica. "O deserto do amor" de Mauriac e "O estrangeiro" , de Camus também costuram a mais pura e dilacerante exposição filosófica por meio de uma linha finíssima de ficção.

" A vagabunda" , de Gabrielle Collete, obra limítrofe entre novela e poesia em prosa, também narra muito pouco. A vagabunda é uma atriz. É uma mulher amorosa, morrendo de medo de envelhecer. É uma desafortunada brilhante. Enfim, é um mergulho cruel no feminino.

Mesmo em obras bastante descritivas como Madame Bovary ( o excesso descritivo era marca do Realismo) podemos encontrar muitas interrupções na narração e descrição para mergulhar nas vicissitudes da alma humana, tão corruptível e lasciva.

Mas voltando ao cinema e aos filmes mais preocupados em trabalhar o emocional dos personagens e da vida em si , associando desta forma o poder das imagens com a sondagem psicológica da literatura, este artigo vai citar dez filmes que analisaram ou descreveram muito bem a incomunicabilidade entre homens e mulheres. A ordem dos filmes é aleatória. Não segue nenhum critério de data ou importância.

1. Acossado, de Godard

O filme se centra praticamente o tempo todo no diálogo sem pé nem cabeça de um casal que quanto mais fala , menos se comunica. A dose de humor do filme estabelece uma espécie de relação semiótica com o ridículo das conversas íntimas que não chegam a lugar algum.

2. Um cão andaluz, de Buñuel

Primeiro filme do célebre cineasta espanhol em parceria com o pintor Salvador Dalí. Num estilo surrealista bem ortodoxo, os dois artistas revelaram a dinâmica insana de um homem e uma mulher que se desejam e se ferem em proporções iguais.

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3. A mulher do lado, de Truffaut

Como Godard, Truffaut foi um seminal nome da Nouvelle-Vague. A mulher do lado é um filme de fim de carreira. Fim de carreira no que diz respeito à data. A qualidade é primorosa. O filme gira em torno da seguinte tese: homens e mulheres que não conseguem viver juntos nem separados. Não conseguem se entender nem deixam de se amarem.

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4. Nostalgia , de Tartovski

Entre muitos outros temas, Nostalgia trabalha a incomunicabilidade entre homens e mulheres. A inutilidade de qualquer exposição franca por parte das mulheres já que o universo masculino não consegue captar as nuances que tanto despedaçam as mulheres. Entre o nojo e uma paixão despudorada , a personagem vivida por Domiziana Giordano gasta saliva à toa tentando agredir e ao mesmo tempo se fazer desejar pelo protagonista, um homem culto, mas tolo nos assuntos do amor.

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5. Não amarás, de Kieślowski

Retirado da série Decálogo, "Não amarás" representa o sexto mandamento da lei de Deus: "Não pecarás contra a castidade". Num estilo bem melancólico, típico do diretor da célebre trilogia das cores ( A liberdade é azul, A igualdade é branca, A fraternidade é vermelha) o filme se centra na essência do amor, na completude do amor, na não necessidade de uma realização carnal para ele existir. E como podemos mais ferir quem mais nos ama.

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6. A noite , de Antonioni

O cineasta do tédio considerava as mulheres mais lúcidas do que os homens, embora não as compreendesse. Em "A noite" , primeiro filme da trilogia do tédio, é mostrada a dinâmica de um casal que deixou de se amar , mas que se manteve em silêncio. O afastamento emocional afeta de formas bem distintas cada um deles: ele parece não se dar conta enquanto ela caminha de um lado para o outro numa postura inquieta que estabelece uma relação semiótica com a própria inquietação interior. Simbolicamente falando, ela bate a cabeça contra a parede da indiferença que se estabeleceu de forma orgânica e insuportável.

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7. Noivo neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen

Com o título original "Annie Hall" , esta comédia amarga mostra com o típico humor cáustico de Allen que nem sempre amar basta para fazer uma relação durar. O casal protagonista se entende , se encaixa , se ama. Mas a relação vai se perdendo em mesquinharias cotidianas.

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8. Foi apenas um sonho, de Sam Mendes

Inspirado no romance "Revolutionary road" , de Richard Yates, "Foi apenas um sonho" narra de forma bem amarga o fracasso do sonho americano e a postura inquieta da mulher diante das trivialidades da vida enquanto o homem se adequa.

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9. Nosso amor de ontem, de Hans Canosa

Remake do filme de 1973 com o mesmo título, "Nosso amor de ontem" mostra um casal que já está separado , mas que ainda se ama fazendo um balanço da relação. Num estilo bem teatral ( quase toda a trama acontece num quarto de hotel) os dois falam e relembram bastante , mas não chegam a nenhuma conclusão sólida.

10. Closer, perto demais, de Mike Nichols

Um filme profundamente maduro e melancólico sobre as relações amorosas. Sobre a mutabilidade do amor e o abismo cotidiano.

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Além da incomunicabilidade entre homens e mulheres , os filmes citados acima trabalham outros temas como a solidão, a falta de sentido para a vida, a fragilidade das relações, a crítica às instituições, a loucura como sintoma da lucidez. Uma lista para nenhum cinéfilo cult botar defeito.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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