cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Por que Emma Bovary é mais famosa do que Eugenia Grandet? A vitória da tragédia sobre o drama e a virtude

Como toda boa iludida que se preze, Emma vai tentar buscar a felicidade fora do casamento, mas tudo que consegue é se afundar cada vez mais em dívidas e decepções. O desfecho é trágico. Do simples drama de uma dona de casa entediada e deprimida que não vê saída para a própria vida , caminhamos para a tragédia insolúvel que se resolve da forma menos virtuosa possível.


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Já diria o autor inglês Aldous Huxley no livro "Contraponto" que a virtude vista de perto pode ser bem chata. O romance "Madame Bovary" , de Gustave Flaubert reitera esta tese ao revelar uma protagonista que se tornou altamente popular e ganhou versões cinematográficas importantes, incluindo a de Claude Chabrol, com ninguém mais, ninguém menos que a perturbadora Isabelle Huppert na pele da anti-heroína Emma, que tanto se parece com muitas de nós.

Emma é uma iludida. Ela acredita que o casamento e o amor transformarão a sua vida. Que nada...o local do enfado é apenas transferido da fazendola de seu pai para a casa do seu marido: Charles Bovary. Um médico bondoso, que a ama, mas é incapaz de satisfazer minimamente as expectativas de uma mulher culta , imaginativa e insaciável como Emma.

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Deixando moralismos de lado, ser casada com Charles Bovary provavelmente era bem enfadonho mesmo, pois numa sociedade em que as mulheres esperavam tudo de seu parceiro amoroso, devia ser muito frustrante estar casada com um homem incapaz de se destacar em qualquer coisa e completamente ignorante nas artimanhas do desejo.

Como toda boa iludida que se preze, Emma vai tentar buscar a felicidade fora do casamento, mas tudo que consegue é se afundar cada vez mais em dívidas e decepções. O desfecho é trágico. Do simples drama de uma dona de casa entediada e deprimida que não vê saída para a própria vida , caminhamos para a tragédia insolúvel que se resolve da forma menos virtuosa possível.

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Diferentemente da bondosa e virtuosa Eugenia Grandet, que sobrevive altivamente a uma existência triste e sem sentido, Emma não aceita a vida como ela é.

Eugenia Grandet foi escrito por Balzac em 1833 e Madame Bovary por Flaubert em 1857. Inclusive Balzac é citado em Madame Bovary. Eugenia também é uma iludida desafortunada. Uma romântica incorrigível, vítima da avareza e da ambição desmedida dos dois homens que ela mais amou: o pai e o primo Carlos. Como a mãe lhe ensinara antes de morrer, Eugenia acreditava que a felicidade não existia neste mundo. Por meio deste pensamento, agarrou-se à esperança da vida eterna como a solução para todos os seus males e ausências.

Apesar de ter sido torturada psicologicamente pelo pai, aprendido a viver como pobre mesmo sendo muito rica, mesmo tendo suportado a ausência do homem amado por tantos anos, apesar de ter perdido o homem amado para o status , Eugenia mantém-se virtuosa e ainda ajuda o primo a se casar com outra mulher. Enfim, falta a tragédia à existência de Eugenia. Se na vida real, as escolhas da protagonista de Balzac são muito mais sensatas e admiráveis, o mundo ainda quer saber mais sobre Emma.

Sim, literariamente e cinematograficamente falando, as Emas fazem muito mais sucesso. É a vitória da passionalidade sobre a virtude. É a vitória da tragédia sobre o drama.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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