cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A bela amiga ( conto)

Esta é uma história de ficção, mas qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência...infelizmente.


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Nenhum relacionamento deve ser considerado realmente sólido antes do parceiro conhecer a nossa bela amiga. Todas nós temos uma ou mais de uma bela amiga. E comigo não foi diferente, embora em meu torpor romântico, imaginei que estávamos imunes a qualquer vírus letal. Nossa relação era a mais plena de todas. Ciúmes, insegurança, dúvida? Jamais. Nós éramos o que éramos. Um casal apaixonado que viveria para sempre em uma bolha de sabão cor de rosa.

Em nosso pequeno e perfeito mundo de amor e afeto, outras pessoas não existiam. E se existissem, não representavam nenhum risco. Nós erámos o que éramos: Um casal totalmente afinado em nossas virtudes e manias. Os mesmos preconceitos , o mesmo gosto por vinhos e artes, a mesma obsessão por pontualidade e conhecimento, o mesmo senso de dever bem humorado, uma estabilidade quase irritante, um desejo profundo de irmos além de nós mesmos. Irônicos, inteligentes, intelectualizados, profundamente românticos e tristes. Às vezes, infantilmente alegres. Utópicos e realistas em medidas iguais. Amantes do amor . O mesmo olhar poético sobre o mundo. Para nós a vida era uma grande ópera. Ríamos de tudo, de nós mesmos, de nossos passados absurdamente parecidos e tristes.

Em nosso pequeno e perfeito mundo de paixão e sensualidade, o sexo nos libertava de tudo que insistia em nos punir. Nós éramos o que éramos: um casal libertino que se esquecia de tudo e de todos nos braços um do outro. Roupas emboladas ao pé da cama, um senso de urgência além da conta, uma curiosidade cômica.

Em nosso pequeno mundo de cumplicidade e confiança, encontramos um no outro nossos melhores amigos. Nós erámos o que éramos: confidentes , parceiros , cúmplices. Fazíamos amor por meio das palavras. Ele me dizia que eu o deixava louco apenas falando.

Em um belo e banal dia de sol, a vida toda pela frente, o mundo na palma de nossas mãos encontramos por acaso uma amiga minha no supermercado. Havíamos estudado juntas no ano anterior . Mal a conhecia, mas ela pertencia àquela classe de gente que gostamos com apenas uma ou duas conversas. Sorri quando a vi. Aproximou-se e nos abraçamos calorosamente. Pensando bem, hoje o gesto me pareceu bobo e afetado. Convivemos apenas dois meses. Uma vez por semana. Sim, o gesto foi realmente bobo e afetadíssimo e acima de tudo perigoso. Apresentei-a ao meu namorado. Atitude mais que natural. Não. Talvez não devêssemos ser tão civilizados quando colocamos em risco o que mais amamos. Talvez devesse ter saído correndo com ele pelo braço como um cão pela coleira! Mulheres intelectualizadas sabem que tais atitudes são grotescas. Efeito colateral da boa educação. Ficamos parados diante da prateleira de laticínios por uns cinco ou dez minutos. Não sei. O pavor ou a alegria suprema embaçam a percepção do tempo. Ela lançou seus olhos mornos para ele e com um sorriso assimétrico, disse qualquer coisa enquanto eu pensava, olhando para as garrafas de iogurte, de que nada adianta chorar sobre o leite derramado. Mas eu chorei. Chorei por horas, por dias, por semanas. Chorei em meu coração. A bolha de sabão cor de rosa estourou. Qualquer vírus poderia entrar e se infiltrar. Pequenas desatenções viraram desfeitas mortais. Uma resposta mais lacônica , um sinal de desinteresse. A menor coincidência, uma trama macabra.

_Amor, sabe quem eu encontrei hoje no supermercado? O gosto de leite azedo veio à boca novamente.

Soube que se encontraram por acaso mais uma vez no mesmo supermercado ...ou foi na padaria? Não me lembro. Ou foram duas vezes? Uma no supermercado e outra na padaria? Ele comentou qualquer coisa com um sorriso nos olhos e eu o ouvi com a cabeça estourando. Ou fui eu que perguntei algo sobre ela e ele se viu obrigado a responder? Beijou-me nos lábios, depois de pronunciar o nome da bela amiga como o verso de uma poesia. Fizemos amor. Mas a dor de cabeça não cedeu. Continuei chorando. Um dia comentei qualquer coisa sobre ela e ele demorou alguns segundos para relacionar nome à pessoa. “Bingo! Ele gostou dela realmente !”, pensei quase feliz. A felicidade típica daqueles que temem mais estarem loucos do que infelizes.

Eu estava quase esquecendo o encontro acidental quando me convidou para ver um filme. Corri para a cozinha e joguei vinho tinto em uma caneca. O dia frio e cinzento me inspirou. Sorvi um pouco do vinho . Um rubor. O copo caiu das minhas mãos. Na sala ele esperava por mim. Chegou em casa com um desejo súbito de assistir ao filme favorito da bela amiga. Era um cult, tudo bem. Limpei o vinho derramado no piso, depois de recolher os cacos maiores. Cortei o dedo.

_ Ai!

Ele chegou à porta da cozinha. Parecia assustado. Parecia impaciente.

A bela amiga pertence àquela classe de gente que passamos a odiar por causa de um simples olhar. Vi em seus olhos os olhos que tive um dia. O mesmo desejo de tomar para mim custe o que custar, doa a quem doer. A cabeça ainda doía. O vírus letal instalou-se em minha mente. Sacolejando no metrô, olhava para cada rosto à minha frente e via o quanto o mundo era grande e imperfeito. Nós não éramos o que éramos. Ciúmes, insegurança, dúvida? Quase caí na lacuna entre o trem e a plataforma.

Durante o trajeto, lembrei-me da noite anterior. Quando saí do banheiro, o vi mexendo no celular. Ao me ver, ele desligou-o de repente, as pupilas um pouco dilatadas. Senti o rosto esquentar e o corpo gelar. Ele amou o filme favorito da bela amiga. Mais uma vez seu olhar morno veio-me à mente. Não foi apenas um olhar. Ela sacudiu os cabelos, quando riu ruidosamente entre as caixas de leite e garrafas de iogurte. Sua voz soou um pouco aguda na hora e sua mera lembrança penetrou meu coração como uma lâmina fina e fria. Mal podia andar até a saída do metrô. Por que alguém deveria rir assim para o namorado de uma ex colega? Por que entreabrir os lábios levemente úmidos como quem diz “Estou aqui”? Por que eu não saí correndo com ele? Não queria ser tão educada. Não queria amá-lo tanto.

_ Não me sinto bem no verão. Minha pressão cai. As caixas de leite olhavam-me fixamente.

-Jura? Eu amo o verão! Eu tenho um apartamentozinho na praia. Sempre que posso corro para lá. Disse sacudindo os cabelos, olhos fixos nele, esperando a sua resposta, esperando a sua reação, descendo o olhar para suas pernas bronzeadas. Deu uma mordidinha rápida no lábio inferior.

Ele amava o verão. Tal fato era evidente. Depois de meses descobri uma incompatibilidade entre nós. Ela sabia o quanto eu tinha nojo de areia. Ele sorriu como quem perdeu qualquer coisa e só se deu conta naquele instante.

Cheguei pálida em casa, as mãos frias. Contei o ocorrido no metrô e ele me abraçou. Comecei a chorar. Pela primeira vez com os olhos. Achou que eu estivesse machucada. Apalpou-me os braços, os tornozelos, as coxas. Sorriu. Eu estava perfeitamente bem. Sorri irônica, engolindo uma última lágrima.

_ Sim, eu estou completamente saudável.

Jogou-me no sofá e sem me despir, fez amor comigo. Me vi caindo na lacuna do metrô.

_ Vamos passar um final de semana em Buenos Aires? Perguntou-me ainda nu, o peito colado à minha roupa. Ele sabia como eu adorava um bom show de tango regado a vinho de qualidade a um preço acessível. As livrarias...os cafés... a água do chuveiro esfriou de repente. Soube acidentalmente que a bela amiga passaria algumas semanas em Buenos Aires fazendo um curso. Senti o tornozelo fraco. Será que eu não machuquei nada mesmo no metrô?

_ Então, vamos? Posso comprar as passagens?

Não disse nem que sim nem que não. Deixei-me ficar largada no sofá como fiquei abandonada à vida e a mim mesma nas últimas semanas. Estava cansada demais. Louca ou infeliz. De qualquer forma a resposta era péssima. Dane-se. Uma pontada no tornozelo. Preciso parar de somatizar! Ele serviu o jantar. Seu famoso espaguete ao sugo com vinho tinto. A surpresa era um bolo de sobremesa. Não era o bolo favorito da bela amiga, mas a simples relação estabelecida entre o doce e a padaria onde talvez tenham se encontrado por acaso me fez perder o pouco do apetite. Comi um punhado de massa sem vontade.

_ Quer mais queijo?

Quero um pouco de sinceridade. Ou não...coloquei mais um pouco de queijo ralado sobre o macarrão mecanicamente. Como olhava os rostos no metrô. Como caminhava pela estação. Como recebia seu sexo em mim todos os dias.

Depois do jantar, pediu-me em casamento. Enfiou a aliança no meio do bolo cheio de glacê. Quase engasguei . Cuspi. Ri. Aceitei com o sim mais triste deste mundo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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