cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

A comida como arte e erotismo: um banquete cinematográfico

Quero falar sobre a comida como fonte de prazer , geradora de alegria e manifestação artística , como uma verdadeira celebração á vida , à beleza de sentirmos , de estarmos à mercê das mais variadas e pulsantes emoções e sensações.


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É fato que comer é muito mais do que uma necessidade fisiológica. Comemos por prazer , para nos sentirmos felizes , aconchegados e integrados a algo muito maior do que a mera satisfação de uma necessidade vital.

Para Bakhtin a comida é uma fonte de prazer , de alegria. Comida e tristeza não combinam. No entanto , em alguns filmes o ato de comer gerou grandes frustrações em seus personagens , como por exemplo o espanhol Jamón Jamón , de Bigas Luna e muitos outros de artistas conterrâneos como Luis Buñuel, Carlos Saura e Pedro Almodóvar. Ou ainda como autodestruição e delimitação de poder como o franco-italiano A comilança e o brasileiro Estômago ( A Comilança brasileira) .

Porém, hoje , quero falar sobre a comida como fonte de prazer , geradora de alegria e manifestação artística , como uma verdadeira celebração á vida , à beleza de sentirmos , de estarmos à mercê das mais variadas e pulsantes emoções e sensações.

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Como água para chocolate , do cineasta mexicano Alfonso Arau, baseado no romance homônimo da escritora também mexicana Laura Esquivel, esposa de Alfonso , é uma saborosa homenagem à arte de cozinhar além de um belo filme que beira à linguagem da poesia. Estamos acostumados a ver histórias quando entramos nas salas de projeção , sentamos no sofá de casa ou em frente ao notebook. Estamos acostumados a ver fatos, personagens que se conhecem, que se enganam, que buscam por objetivos, que se desentendem, que se reconciliam, que terminam felizes ou infelizes o filme. Pode soar estranho para quem assiste apenas a obras mais convencionais. Mas nem sempre o principal objetivo de um filme é a sua história e quem vai ficar com quem e a identidade do assassino. Existem filmes mais próximos à linguagem da poesia do que da prosa e mais do que entender , precisamos sentir. Deixar as emoções aflorarem, os sentidos captarem a beleza das entrelinhas, ouvir o que não foi dito, compreender de uma forma mais sensorial e intuitiva.

Não digo que Como água para chocolate não tenha preocupação em contar uma história. Os personagens e a trama estão bem delineados , cada um ocupando um lugar bem definido: a jovem romântica , a irmã sedutora , a outra irmã insossa e invejosa , a mãe autoritária , o mocinho destemido, porém, um pouco atrapalhado. A trama é clara e podemos terminar de assistir ao filme com a sensação reconfortante de que vimos a uma história. Porém, Como água para chocolate exige um pouco mais de nós , da nossa sensibilidade. Mergulhar no universo das panelas e dos temperos de Tita pode ser uma viagem deliciosa a um mundo de sonhos , de encantamentos , de sabores e aromas delicados e provocantes.

Proibida de se casar devido à uma tradição familiar que destina as filhas caçulas a se manterem solteiras para cuidar da mãe na velhice , Tita e Pedro são separados antes mesmos de ficarem juntos. O rapaz ,´em vez de raptá-la e recomeçar a vida em outro lugar , casa-se com Rosaura , sua irmã mais velha , por sugestão da autoritária mãe das moças. Pedro aceita a oferta para morar na mesma casa que Tita. Duas irmãs apaixonadas pelo mesmo homem, os três vivendo debaixo do mesmo teto dá pano para muitas mangas...mas como se não bastasse Pedro amar Tita , esta prepara deliciosos pratos que igual ao filme Como água para chocolate são verdadeiros poemas. Não apenas Pedro, mas todos que comem das comidas de Tita mergulham num mundo de erotismo e sensações múltiplas.

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Ao servir codornas ao molho de rosas , o frisson provocado é tão devastador que sua sensual irmã Gertrude incendeia o banheiro da casa ao tomar um banho . A jovem fica cercada por chamas que representam todo o desejo despertado pela iguaria. Logo em seguida , vai embora de casa , nua em pelo, cabelos ao vento, na garupa de um soldado. Como em muitas outras cenas , o que vemos na tela é o que os personagens sentem e não aquilo que de fato acontece. Como água para chocolate é sobre o mundo interior dos personagens , o que para o movimento surrealista significa a mais pura realidade. Como assim? Para o surrealismo, movimento de vanguarda dos anos 20 o que habita o nosso inconsciente é a realidade que realmente importa, sem querer fazer trocadilho. Provavelmente Gertrude foi embora de casa vestida . A nudez física pode ser interpretada como o seu desprendimento a tudo que deixou para trás ao partir com o homem amado: terras , dinheiro, reputação, família . Como diria o cineasta espanhol Luis Buñuel, amor e revolta são as palavras mais revolucionárias que existem.

As mesmas mãos que preparam receitas de passionalidade são capazes de produzir sofrimento. Ao chorar sobre a massa do bolo de casamento de Rosaura e Pedro, Tita transfere ao doce a sua dor e quando os convidados comem do bolo, começam a chorar , se sentem tristes , saudosos dos amores passados , daquilo que poderia ter sido e não foi. Mais do que choram. Vomitam, invadem os sanitários da casa , expelem junto com o bolo e as lágrimas de Tita suas próprias lágrimas. Tita tem o poder de se comunicar pela comida , tanto no sentido de dar prazer como no de expressar sofrimento. Uma vizinha sempre questiona a jovem sobre suas receitas . Deseja saber qual é o seu segredo. Afinal todas as cozinheiras têm ingredientes secretos, algo minúsculo que faz a maior diferença . O que diferencia um bom prato de um prato realmente bom. Tita afirma que o amor é o seu segredo, seu ingrediente mágico. Quem assiste ao filme ou lê ao livro não tem dúvidas de que Tita fala a mais pura verdade .

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A mesma magia e estranhamento geradas pelas mãos de Tita encontramos na chef francesa Babette , refugiada na humilde casa de duas senhoras na Dinamarca. Em A festa de Babette , vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1988, Babette , foge da França no ano de 1871 , durante a Comuna de Paris e encontra abrigo na casa de duas mulheres idosas , bondosas e muito pobres , filhas de um severo pastor luterano, líder religioso da pequena aldeia onde vivem. Babette passa anos cozinhando e cuidando dos afazeres domésticos em troca de casa e comida. Ao receber uma razoável quantia em dinheiro devido a uma espécie de loteria , Babette decide preparar um grande jantar às senhoras e seus vizinhos. Além dos ingredientes e bebidas , compra louças , toalhas , tudo o que é necessário para oferecer um banquete digno do Café Anglais , onde trabalhava em Paris como chef de cozinha.

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Antes do jantar , todos os convidados estão desconfiados porque temem qualquer tipo de prazer e enxergam nos ingredientes usados por Babette algo maligno. Por uma questão religiosa , todos enxergam no prazer algo negativo e se alimentam simplesmente para se manterem vivos. Porém, conforme o jantar vai avançando, todos se deixam levar pelas sensações provocadas pelas finas iguarias e entram em uma espécie de comunhão. Antigas rixas são desfeitas. As pessoas pedem desculpas e se perdoam. Enfim, o jantar é colocado como um ato artístico e sagrado simultaneamente. A cena do jantar e as que a sucedem apresentam uma aura quase religiosa no sentido mais espiritual da palavra.

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Ao final do jantar , as irmãs questionam Babette , lamentando o fato da mesma ter utilizado todo o dinheiro ganho no jantar. Babette, por sua vez , cansada , mas realizada e apaziguada com ela mesma, refeita de anos de ostracismo, pronuncia talvez uma das mais belas frases do filme: “Uma artista nunca é pobre”.

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“A festa de Babette” é um filme de ritmo lento e suave , sem grandes cenas de impacto. Para quem deseja adrenalina ou seres fantásticos não é a opção mais adequada. Para quem deseja assistir a uma obra profundamente humanística , sobre a renúncia, a generosidade e as vocações, sobre acima de tudo a cozinha como arte e comunhão se deparará com um filme deliciosamente sensível e revelador.

Muitos outros filmes trabalharam o tema da comida como arte e erotismo com maestria , como o delicado e profundo “O cheiro do papaia verde” ; o sexy e irreverente “Chocolate” e o colorido e turbulento “Volver”. Mas eles ficarão para uma próxima refeição! Ops...para um próximo artigo. Bom apetite!


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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