cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Cisne negro e a questão do duplo

"Cisne negro" é visualmente muito instigante, pois os movimentos de câmera nos induzem à subjetividade. A iluminação escura nos remete às sombras que temos em nós mesmos. O sonho se misturando à realidade é um convite ao desconhecido. A interpretação dos atores nos conduz à ambiguidade do ser humano. Os personagens são muito ambíguos.


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Cinema é sonho, é ilusão. Porém, não me refiro às ilusões cor de rosa e típicas de filmes que pretendem instaurar um falso otimismo no lugar de um otimismo coerente, consistente e possível. Refiro-me ao sonho como mistério. Mistério da vida, mistério da alma. Tudo ou quase tudo é bem misterioso se formos parar para pensar. "Cisne negro" mergulha fundo num mundo de possibilidades múltiplas onde podemos a qualquer momento encontrar o nosso outro eu.

O coreógrafo via apenas o cisne branco na jovem e enigmática protagonista, uma bailarina perfeccionista e aparentemente contida no quesito paixão. Merece destaque a cena em que o personagem de Vincent Cassel, Thomas, afirma para Nina que a bailarina Lilly apesar de não possuir uma técnica muito apurada, dança com liberdade, o que falta à Nina: se soltar, fluir, descobrir sua sensualidade, descobrir suas outras possibilidades.

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Porém, o mais interessante da trama é perceber que talvez só houvesse o cisne negro em Nina e que seu aspecto de cisne branco foi apenas mais um dos efeitos alucinógenos deste filme que nos arrasta constantemente para uma aura de pesadelo. Em "Cisne negro" tudo é muito tenso: a relação de Nina com sua mãe, sua mania de se machucar, o doloroso processo criativo que vai muito além dos ensaios de dança. Quando finalmente vemos as penas pretas brotarem de seu corpo, juntamente com Nina, sentimos a dolorosa e deliciosa intensidade de atingirmos o nosso clímax, o nosso encontro brutal com nós mesmos, com nossa genialidade e demência, lucidez e loucura. Nina se mostra o mais genial possível quando já está entregue à demência. Esta é a parte mais tenebrosa e linda do pesadelo.

Visualmente é um espetáculo de encher os olhos e arrepiar o coração. Muitos filmes de terror não são capazes de apresentar uma cena tão mórbida. Merece destaque também a sequência em que Nina e Lilly saem juntas e não sabemos ao certo o que realmente aconteceu entre elas, onde termina a realidade e onde inicia a imaginação de nosso cisne em mutação. "Cisne negro" combina magistralmente sonho e realidade , mostrando que para quem sonha, a imaginação é tão concreta quanto à mais pura realidade. O cineasta espanhol Luis Buñuel afirmava que a vida sonhada, lembrada, imaginada é tão real quanto à vida cotidiana, comezinha. Dizia também que o que falta à maioria dos filmes é o mistério.

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O filme abusa de espelhos, metáfora meio batida, mas que sempre funciona muito bem quando queremos falar sobre pessoas que olham para dentro de si. Porém, muitas vezes, como diria o escritor Sidney Sheldon, quem se olha no espelho, só vê a um estranho. É o caso de Nina, que é uma estranha para ela mesma. Nina nem ao menos conhece seu corpo e o agride pois é a única forma de relação que consegue estabelecer com ele.

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Outro filme interessantíssimo e ultra complexo que analisa a questão do duplo, do eu escondido dentro de si mesmo é “O inquilino” do polêmico e talentoso Roman Polanski. Nesta obra dos anos 1970 podemos reencontrar uma releitura não sobrenatural do célebre “O bebê de Rosemary”, de 1968. Diferentemente do primeiro filme em que a protagonista é realmente vítima de uma conspiração macabra, o segundo trabalha a questão da esquizofrenia.

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Mia Farrow como Rosemary: vítima de uma conspiração macabra. Terror intelectual. Tememos mais o que não vemos.

"Cisne negro" é visualmente muito instigante, pois os movimentos de câmera nos induzem à subjetividade. A iluminação escura nos remete às sombras que temos em nós mesmos. O sonho se misturando à realidade é um convite ao desconhecido. A interpretação dos atores nos conduz à ambiguidade do ser humano. Os personagens são muito ambíguos. A mãe de Nina é extremamente protetora, porém, existe algo de muito tenso e dominador em sua personalidade. E mesmo que de forma muito sutil e subliminar não podemos saber ao certo onde termina sua admiração por Nina e onde começa certa dose de inveja despertada por uma carreira frustrante e sem brilho.

A sensual Lilly talvez não seja tão desprendida como aparenta, talvez não seja tão despretensiosa e espontânea. Em alguns momentos, suas atitudes parecem bem questionáveis, como por exemplo, dizer ao coreógrafo que Nina chorou e oferecer droga à bailarina na véspera de um ensaio.

swanlesbian.jpg O coreógrafo Thomas tem um método de trabalho bem pouco ortodoxo. Não sabemos também bem ao certo onde termina sua metodologia e onde começa o seu desejo de conquistar eroticamente suas bailarinas.

Nina é o cisne negro. Em resumo: o filme tem os elementos temáticos e de linguagem necessários para conduzir o espectador a aura onírica do cinema e de nossos próprios fantasmas. Talvez, o filme seja pessimista demais. Porém, não deixa de ter mensagens: para ser um bom artista é preciso acima de tudo viver e sentir. Artistas não se fazem unicamente em estúdios e escolas. Os artistas se fazem também e principalmente no embate do dia a dia; na complexidade da vida. Segunda mensagem: nunca subestime o inimigo que existe dentro de nós.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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