cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Por que o grotesco nos encanta?

O feio, assustador ou degenerado nos desperta a nossa própria "superioridade". Em alguns casos, desperta o nosso desejo redentor. Quantas pessoas, principalmente mulheres, não se apaixonam por homens perdidos e desiludidos porque alimentam o ideal de se tornarem suas salvadoras? Seus anjos redentores? Sim, para muitas mulheres, as ideias de amor e sacrifício estão altamente associadas. Mais do que amantes e amadas, desejam ser benfeitoras, herança de valores cristãos que pregam o sofrimento voluntário em detrimento à alegria mundana.


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Por que o grotesco nos encanta? Por que algo terrivelmente feio, assustador e degenerado pode atrair a nossa atenção com semelhante intensidade a algo profundamente belo e gentil, algo que inspira bondade, coerência, nobre normalidade? Uso o termo nobre para distinguir da normalidade banal, da normalidade como sinônimo de coisa comum, sem grande valor ou expressividade.

Por que gostamos tanto de ler , ouvir e assistir a notícias bizarras? Por que gostamos de ver programas televisivos ao estilo de "Colecionadores" , em que são mostrados obsessivos acumulando uma série de quinquilharias, transformando a própria casa e a vida numa grande lixeira? Por que nos interessamos por documentários e filmes que mostram as particularidades de uma mente psicopata? Por que assistimos a programas sensacionalistas que repetem inúmeras vezes detalhes sórdidos de crimes hediondos?

Por que gostamos de assistir a filmes de terror? E muitas vezes com as luzes da sala ou do quarto apagadas...

Existe algo de altamente sedutor no decadente , no medonho. Muitas vezes as ideias e os ideais mais sublimes convivem com relativa tranquilidade com os pensamentos mais mórbidos e/ou estranhos. Existe uma poesia cortante no horror e uma doçura enjoativa no bom e no belo. Algo totalmente horrível, sem nenhuma gota de delicadeza, nos soa desprezível ou repugnante. Por outro lado, a bondade pura , sem nenhum resquício de veneno, sem nenhum desvio, sem nenhuma tecla quebrada, sem nenhum desvio, sem nenhuma obscuridade ou sombra nos soa altamente falsa. E mesmo se fôssemos suficientemente ingênuos para crer na sua veracidade, ficaríamos entediados com tanta perfeição.

Sim, muitas vezes, o que nos fascina em uma pessoa é a estranha e ao mesmo tempo harmônica mescla entre elementos nobres e outros nem tanto. Como disse um personagem de um giallo ( gênero cinematográfico entre o suspense e terror, com altas doses de violência à mulher num estilo misógino) "não há nada que una mais duas pessoas do que um vício em comum". E por vício, entende-se uma gama bastante extensa de bizarrices.

O feio, assustador ou degenerado nos desperta a nossa própria "superioridade". Em alguns casos, desperta o nosso desejo redentor. Quantas pessoas, principalmente mulheres, não se apaixonam por homens perdidos e desiludidos porque alimentam o ideal de se tornarem suas salvadoras? Seus anjos redentores? Sim, para muitas mulheres, as ideias de amor e sacrifício estão altamente associadas. Mais do que amantes e amadas, desejam ser benfeitoras, herança de valores cristãos que pregam o sofrimento voluntário em detrimento à alegria mundana.

O feio, assustador e degenerado pode nos proporcionar também a ilusão de que estamos bem, de que temos uma vida boa. De que não devemos reclamar dos nossos problemas cotidianos pois nenhum serial Killer cortou a nossa garganta e transformou em arte contemporânea as nossas vísceras. Depois de um filme como "O massacre da serra elétrica" os aborrecimentos do dia a dia parecem mais contornáveis e administráveis.

O feio, o assustador e o degenerado observado nos remete ao próprio feio, assustador e degenerado que existe em nós e de certa forma o horror do outro nos poupa de praticar o nosso. Acusam os filmes violentos de incentivadores de atrocidades...talvez, seja totalmente o inverso... esta é uma pergunta que merece a busca exaustiva da sua resposta, embora não acredite que seja possível encontrá-la de fato.

Talvez, em alguns casos, o aparentemente mais belo possa ser muito assustador, como diria o cineasta interpretado por Francisco Rabal no filme Atame , de Pedro Almodóvar. Para ele, amor e terror eram a mesma coisa. Pensamento possivelmente extraído do Marquês de Sade. Para Buñuel, célebre cineasta espanhol, Sade era um grande amoroso porque para o diretor aragonês, só pode amar quem pode odiar. Comungo deste ponto de vista. Quem ama a todos, não ama a ninguém. Vive na zona morta das emoções, numa apatia e desdém emocional, em que pouco importa se a água corre para cima ou para baixo. Quem diz amar a todos , provavelmente , ignora a todos com o mesmo nível de simpatia protocolar. Bem, este é o meu ponto de vista : parcial e bem subjetivo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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