cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

À beira mar: a infelicidade é contagiosa

Com um estilo lento e intimista, algumas cenas fazem lembrar do cinema de Antonioni: Como a protagonista do filme A noite , Vanessa vaga por espaços abertos em busca de algo ou fugindo de algo. Os tons pasteis explodem na primeira cena sugerindo um pseudo equilíbrio que vai se desmantelar pouco a pouco, no decorrer da trama. Ainda na primeira cena, vemos o casal mudando a posição dos móveis do quarto. Tal marcação pode soar desimportante num primeiro momento, mas analisando o filme como um todo, podemos enxergar tal cena como uma metáfora da incapacidade de ambos se adaptarem às circunstâncias. As coisas precisam ser exatamente do jeito que eles querem.


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Em À beira mar, filme de 2015 , dirigido, roteirizado e protagonizado por Angelina Jolie, vemos um casal em crise tentando salvar o casamento com uma viagem à França. A tentativa meio desesperada de salvar a relação deteriorada me fez lembrar de um filme de Roberto Rossellini: Viagem pela Itália.

Roland ( Brad Pitt) é um escritor de sucesso que enfrenta uma crise criativa. Provavelmente reflexo da falta de inspiração em sua vida afetiva com a esposa constantemente deprimida. Roland e Vanessa se hospedam num lindo hotel à beira mar, mas diferentemente dos outros turistas , vivem fechados em seus mundos. Roland que buscava inspiração para escrever na França, não consegue produzir nada e passa o dia num bar. Vanessa passa praticamente o tempo todo no quarto.

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Os sentimentos amortecidos e dolorosos de ambos vão se reconfigurando conforme um jovem e apaixonado casal em lua de mel tenta se aproximar deles. Eles passam a vigiar a mais visceral intimidade do casal por meio de um orifício na parede do quarto. De certa forma , a relação ardente e cheia de vida do casal vizinho gera um elo entre Roland e Vanessa que voltam a interagir.

Com um estilo lento e intimista, algumas cenas fazem lembrar do cinema de Antonioni: Como a protagonista do filme A noite , Vanessa vaga por espaços abertos em busca de algo ou fugindo de algo. Os tons pasteis explodem na primeira cena sugerindo um pseudo equilíbrio que vai se desmantelar pouco a pouco, no decorrer da trama. Ainda na primeira cena, vemos o casal mudando a posição dos móveis do quarto. Tal marcação pode soar desimportante num primeiro momento, mas analisando o filme como um todo, podemos enxergar tal cena como uma metáfora da incapacidade de ambos se adaptarem às circunstâncias. As coisas precisam ser exatamente do jeito que eles querem.

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Mas , talvez, o mais importante e interessante neste filme não seja o drama que fez o casal sucumbir. Talvez , o mais importante e interessante seja perceber o quanto a infelicidade é contagiosa. Como a infelicidade afeta a todos ao redor.

Vanessa consegue contagiar o casal vizinho com sua infelicidade, com o seu desespero. De certa forma , transforma a ambos em "sócios" do seu infortúnio. Como inveja a felicidade do casal, tenta destruir aquilo que ela nunca poderá ter. E é aí que o filme apresenta a sua grande sacada. O que faz Vanessa e Roland infelizes , talvez, não seja o mais importante da trama. Mas sim, como reagimos ao sofrimento. Como reagimos às perdas e à impotência diante da vida.

Todos nós passamos por perdas e tragédias. Nem tudo o que desejamos pode ser nosso. Nem tudo o que desejamos pode acontecer em nossa vida. Nem sempre querer é poder. Alguns aceitam e tocam a vida, se reinventam, criam planos B. Outras pessoas ficam enraizadas em seus passados , ruminando suas impossibilidades.

A falta de inspiração literária de Roland pode servir como metáfora para a falta de inspiração afetiva de Vanessa, que só consegue enxergar o que ela não pode ter e fecha os olhos para todas as riquezas que ela negligencia.

Um filme maduro sobre o poder destruidor que provém da incapacidade de nos reinventarmos. Quem se nega a seguir em frente é atropelado pelos acontecimentos e envenenado pela própria infelicidade.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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