cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

O quarto de Jack: quando os limites entre o real e o imaginário inexistem

O conforto de Jack em relação ao cativeiro é possível pois ele não conhece o que existe do lado de fora. Ao conhecer , ele olha para o cativeiro com outros olhos. O mesmo processo ocorre quando abrimos a mente para novas ideias e passamos por experiências que nos transformam.


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O quarto de Jack faz claras referências platônicas ao comparar o galpão onde o pequeno Jack vive com sua mãe com a caverna do mito de Platão. Como Jack nasceu em um cativeiro e passou os primeiros cinco anos de vida apenas com a mãe, não consegue identificar o que é realidade e imaginação. Ao assistir televisão, não consegue identificar a diferença, por exemplo, entre um desenho animado e repórteres de um telejornal.

Jack imagina que jornalistas e atores que aparecem na televisão são irreais, mas acredita na veracidade de um cão imaginário. Para Jack o quarto pequeno é amplo, pois para ele o mundo todo é ali. É o que ele conhece. É o que ele domina. Para poupar o filho do desespero de estar preso e a mercê de um sequestrador, a mãe de Jack faz o menino acreditar que o quarto é o mundo. Mas quando o garoto completa cinco anos , a mãe resolve contar a verdade para ele a fim de obter a sua ajuda para escapar do cativeiro.

Em princípio Jack se desespera e nega que exista um mundo do lado de fora. Toda uma crença é desconstruída e ele deseja voltar a ter quatro anos de idade para fugir das responsabilidades que seus cinco anos lhe exigem.

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Escapar de um sequestrador para uma criança comum de cinco anos já seria complicado. Mas Jack não é comum. Ele não recebeu uma socialização como qualquer criança recebe , convivendo com diversas pessoas e frequentando uma escola.

Quando Jack regressa ao cativeiro, percebe que o quarto era pequeno. Mas para obter tal percepção, ele precisou primeiramente se acostumar com a dinâmica social cheia de possibilidades e amplos espaços, tanto físicos como emocionais, que existem no mundo real, no mundo fora da "caverna".

Uma das mais impressionantes frases do filme é quando Jack afirma para a mãe que aquele galpão para ser o "quarto" tem que ficar com a porta fechada. A mãe pergunta se ele deseja que a porta seja fechada e Jack recusa a oferta. Enfim, quando escapamos da caverna , quando escapamos das limitações de uma vida ignorante , não conseguimos nem queremos regressar a uma vida apequenada.

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O conforto de Jack em relação ao cativeiro é possível pois ele não conhece o que existe do lado de fora. Ao conhecer , ele olha para o cativeiro com outros olhos. O mesmo processo ocorre quando abrimos a mente para novas ideias e passamos por experiências que nos transformam.

Muito mais do que um filme sobre a violência , sobre o desespero de estar sob a mercê de um sequestrador, muito mais do que um filme sobre a imprevisibilidade da vida e os estragos gerados por meio de experiências traumáticas, O quarto de Jack é um filme sobre os insondáveis laços de afeto entre mãe e filho e uma belíssima metáfora a respeito do poder do conhecimento em nossa vida.

Como qualquer filme que vai além do mero enredo, O quarto de Jack nos convida a uma profunda reflexão sobre todos os cativeiros simbólicos que nos aprisionam.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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