cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

O quarto de Jack: quando os limites entre o real e o imaginário inexistem

O conforto de Jack em relação ao cativeiro é possível pois ele não conhece o que existe do lado de fora. Ao conhecer , ele olha para o cativeiro com outros olhos. O mesmo processo ocorre quando abrimos a mente para novas ideias e passamos por experiências que nos transformam.


quartodejacktop.jpg

O quarto de Jack faz claras referências platônicas ao comparar o galpão onde o pequeno Jack vive com sua mãe com a caverna do mito de Platão. Como Jack nasceu em um cativeiro e passou os primeiros cinco anos de vida apenas com a mãe, não consegue identificar o que é realidade e imaginação. Ao assistir televisão, não consegue identificar a diferença, por exemplo, entre um desenho animado e repórteres de um telejornal.

Jack imagina que jornalistas e atores que aparecem na televisão são irreais, mas acredita na veracidade de um cão imaginário. Para Jack o quarto pequeno é amplo, pois para ele o mundo todo é ali. É o que ele conhece. É o que ele domina. Para poupar o filho do desespero de estar preso e a mercê de um sequestrador, a mãe de Jack faz o menino acreditar que o quarto é o mundo. Mas quando o garoto completa cinco anos , a mãe resolve contar a verdade para ele a fim de obter a sua ajuda para escapar do cativeiro.

Em princípio Jack se desespera e nega que exista um mundo do lado de fora. Toda uma crença é desconstruída e ele deseja voltar a ter quatro anos de idade para fugir das responsabilidades que seus cinco anos lhe exigem.

O-Quarto-de-Jack-Room.jpg

Escapar de um sequestrador para uma criança comum de cinco anos já seria complicado. Mas Jack não é comum. Ele não recebeu uma socialização como qualquer criança recebe , convivendo com diversas pessoas e frequentando uma escola.

Quando Jack regressa ao cativeiro, percebe que o quarto era pequeno. Mas para obter tal percepção, ele precisou primeiramente se acostumar com a dinâmica social cheia de possibilidades e amplos espaços, tanto físicos como emocionais, que existem no mundo real, no mundo fora da "caverna".

Uma das mais impressionantes frases do filme é quando Jack afirma para a mãe que aquele galpão para ser o "quarto" tem que ficar com a porta fechada. A mãe pergunta se ele deseja que a porta seja fechada e Jack recusa a oferta. Enfim, quando escapamos da caverna , quando escapamos das limitações de uma vida ignorante , não conseguimos nem queremos regressar a uma vida apequenada.

O-Quarto-de-Jack-01.jpg

O conforto de Jack em relação ao cativeiro é possível pois ele não conhece o que existe do lado de fora. Ao conhecer , ele olha para o cativeiro com outros olhos. O mesmo processo ocorre quando abrimos a mente para novas ideias e passamos por experiências que nos transformam.

Muito mais do que um filme sobre a violência , sobre o desespero de estar sob a mercê de um sequestrador, muito mais do que um filme sobre a imprevisibilidade da vida e os estragos gerados por meio de experiências traumáticas, O quarto de Jack é um filme sobre os insondáveis laços de afeto entre mãe e filho e uma belíssima metáfora a respeito do poder do conhecimento em nossa vida.

Como qualquer filme que vai além do mero enredo, O quarto de Jack nos convida a uma profunda reflexão sobre todos os cativeiros simbólicos que nos aprisionam.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Sílvia Marques