cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

Algumas histórias dão voltas antes de acontecerem

Por alguma razão que desconheço, algumas histórias precisam acontecer e mesmo quando tudo e todos se colocam contra, inclusive nós mesmos , elas vencem. Mesmo contra tudo e todos, elas não deixam de transformar os escombros das batalhas anteriores em coisas completamente novas.


Ata-me.jpg

Cena do filme Atame , de Pedro Almodóvar. Marina leva um tempo para se apaixonar por Rick.

Sim, algumas histórias dão voltas antes de acontecerem. No começo tudo é difícil. Nada flui. Existem mais perguntas do que respostas , mais dúvidas do que certezas, mais sensações confusas do que sentimentos bem definidos.

Existe mais caos do que harmonia. Mais paixão desenfreada do que carinho. Existe mais indignação, revolta , desejo furioso do que plenitude.

Sim, algumas histórias nos fazem sofrer, nos levam às lágrimas, nos esfolam por dentro , tiram sangue dos mais delicados sentimentos. E nestas voltam antes de acontecerem, envolvem outras pessoas, outros sentimentos , outros anseios , outras perspectivas. Mais lágrimas, mais sofrimento, mais sensações confusas, mais hematomas psicológicos.

Sim, algumas histórias dão voltas antes de acontecerem e às vezes estas peripécias são tão drásticas e perturbadoras que quase inviabilizam qualquer começo. Sim, estas voltas deixam marcas doloridas na pele da alma. Sobreviver a elas é um ato constante de coragem e transcendência afetiva.

Mas por alguma razão, mesmo assim elas acontecem. Elas acontecem mesmo contrariando todas as probabilidades e previsões de quem assistiu de camarote todas as quedas e sobressaltos vividos antes do início.

Por alguma razão que desconheço, algumas histórias precisam acontecer e mesmo quando tudo e todos se colocam contra, inclusive nós mesmos , elas vencem. Mesmo contra tudo e todos, elas não deixam de transformar os escombros das batalhas anteriores em coisas completamente novas.

Não defendo aqui a ideia de que devemos cruzar os braços pois o que tem que acontecer vai acontecer independente das nossas atitudes e escolhas. Sim, podemos fechar a porta na cara de uma história louca para acontecer. Isso é totalmente possível e razoavelmente provável. Mas , por outro lado, sinto que somos empurrados mais para alguns lados do que para outros. Algumas pessoas e circunstâncias tendem a surgir mais insistentemente em nossa vida, tanto na objetiva e cotidiana como na emocional e subjetiva.

Às vezes negamos teimosamente o que mais queremos porque certas escolhas exigem grandes transformações, tanto exteriores como interiores. Algumas escolhas nos roubam totalmente da zona de conforto e nos fazem ver tudo aquilo que escondemos de nós mesmos. Certas escolhas exigem uma profunda renovação interior e não há nada mais difícil do que trocar a pele da alma.

Sim, muitas vezes optamos por relacionamentos e carreiras medíocres porque não sabemos voar alto. Porque tememos a queda. Porque tememos o julgamento alheio e principalmente o nosso. Porque , às vezes, tememos até mesmo a felicidade.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Sílvia Marques