cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Sobre estereótipos e as histórias que inventamos para nós mesmos para sobrevivermos às tragédias cotidianas

Sim, criamos histórias e encaixamos as pessoas que nos ferem em categorias de estereótipos para nos sentirmos menos infelizes e desconfortáveis, para não pensarmos que talvez quem nos feriu teve os seus motivos. Para justificar a permanência em uma relação problemática. Para desmerecer o outro e nos sentirmos menos inseguros.


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Sim, algumas vezes inventamos histórias para nós mesmos para suportamos tragédias cotidianas, para digerirmos mais facilmente o que nos é amargo demais, o que para nós é intragável.

A partir da necessidade de sobrevivermos às experiências ultra dolorosas do dia a dia , começamos a criar alguns mitos e a nos amparar em estereótipos para suportamos com mais tranquilidade o que nos machuca , o que desestrutura o nosso cotidiano.

Não é à toa , que quando uma mulher casada descobre que o marido tem uma amante , costuma imaginar a rival como alguém extremamente vulgar e promíscua. Imaginar a amante como uma fêmea fatal, como uma personagem de filme pornô, torna de certa forma a experiência amarga mais aceitável. Imaginar a amante como uma mulher comum, que chora à noite por se sentir sozinha, que vai ao supermercado aos sábados vestindo calças largas e confortáveis pode nos fazer pensar que talvez a traição não tenha sido apenas sexual, mas afetiva também.

Por outro lado, a amante imaginar a esposa como aquela mulher chata e fria na cama, é uma maneira também de tentar ignorar que o homem desejado esteja ainda no casamento por amor e não apenas pelos filhos ou porque não quer ferir os sentimentos de uma mulher indefesa e sem atrativos. O mesmo vale para homens que são preteridos por suas parceiras.

Sim, criamos histórias e encaixamos as pessoas que nos ferem em categorias de estereótipos para nos sentirmos menos infelizes e desconfortáveis, para não pensarmos que talvez quem nos feriu teve os seus motivos. Para justificar a permanência em uma relação problemática. Para desmerecer o outro e nos sentirmos menos inseguros.

Enxergar os nossos rivais , tanto afetivos como profissionais, como pessoas como a gente , movidas por sentimentos semelhantes aos nossos, nos fere porque não queremos nos identificar com quem nos prejudicou, conscientemente ou não, tanto no âmbito afetivo quanto no profissional. Creio que se identificar com quem de certa forma "nos atropelou" existencialmente é uma das tarefas mais árduas que precisamos enfrentar em nossa vida porque nos obriga a gostar de quem odiamos ou queremos odiar.

Para um intelectual descobrir que o rival não é tão ignorante como ele pensava , pode doer muito. Para alguém extremamente performático e habilidoso na cama , descobrir que o rival não é tão inexpressivo sexualmente, pode incomodar muito. Para alguém extremamente charmoso e descolado , descobrir que o rival não é tão sem graça como ele imaginava, pode ser muito desconcertante. Quando reconhecemos o mérito do outro, de certa forma , passamos a desconfiar dos nossos próprios méritos e se autoanalisar é tarefa para os realmente fortes.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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