cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Muito bem acompanhada e o que o cinema comercial diz sobre amor, coragem e liberdade

Enfim, para viver o amor é preciso enfrentar o passado, aceitar correr riscos , aceitar ser criticado e julgado. É preciso sair do casulo do politicamente correto. Sem senso de liberdade e um pouco de ousadia , a vida não sai da mesmice. Excesso de convenção nunca combinou com amor verdadeiro e feliz.


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Cena do filme Muito bem acompanhada

Quem conhece meus artigos ou é meu aluno ou tem amizade comigo sabe o quanto defendo fervorosamente e apaixonadamente filmes cult, com linguagem elaborada , recheada de simbologias, com tramas marcantes , finais realistas, com temáticas e abordagens questionadoras. Sim, acho que o cinema vai muito além da tríade pipoca amanteigada , sofá macio e neurônios desligados para relaxar as tensões de uma semana dura de trabalho. Para mim, cinema vai muito além do entretenimento, embora seja entretenimento também.

Porém, neste artigo, citarei três filmes comerciais , bem comerciais, que deixam algumas lições interessantes para a gente refletir. Filmes que apesar de se voltarem para o entretenimento, ajudam a quebrar preconceitos, estereótipos e tabus. A grande crítica que faço ao cinema ultra comercial não é a preocupação em si com a diversão. A grande crítica que faço é com o reforço de ideias preconceituosas , que são apresentadas como verdades absolutas. Por mais incrível que pareça, muitas vezes, são os filmes comerciais os mais ideológicos pois não abrem espaço para a reflexão. As verdades do cineasta são apresentadas como o único caminho possível. Não existe raciocínio dialético. Por meio da catarse , muitos filmes nos conduzem a crer que existe apenas uma maneira de viver a vida , que existe apenas uma maneira de obter sucesso, compactando as pessoas em caixinhas rotuladas.

Onde não existe espaço para dúvidas e perguntas, não existe espaço também para mudanças. Sem dúvidas, caímos no determinismo ideológico. Mas vamos aos filmes deste artigo?

O filme Muito bem acompanhada , de Clair Kilner, do ano de 2004, mostra uma trama bastante simples: uma jovem precisa reencontrar o ex-noivo na festa de casamento da irmã caçula. Muito preocupada com a opinião alheia, não quer chegar à festa sozinha e contrata um charmoso garoto de programa para se passar por seu bem sucedido namorado.

Muito bem acompanhada trabalha dois temas bem interessantes: até onde nos importamos com a opinião alheia e até que ponto não somos responsáveis pela vida amorosa medíocre ou inexistente que temos. O filme mostra que , muitas vezes, nos importamos mais em aparentar felicidade do que lutar para sermos realmente felizes. Mais do que isso: nos acomodamos com o sofrimento, com a solidão, usando o passado como desculpa para evitarmos novas experiências.

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Cena do filme Muito bem acompanhada

Enfim, para viver o amor é preciso enfrentar o passado, aceitar correr riscos , aceitar ser criticado e julgado. É preciso sair do casulo do politicamente correto. Sem senso de liberdade e um pouco de ousadia , a vida não sai da mesmice. Excesso de convenção nunca combinou com amor verdadeiro e feliz.

O filme Legalmente loira , de Robert Luketic , do ano de 2001, apesar de ser muito simplista no que diz respeito ao desenrolar dos fatos, principalmente na parte que se refere a um julgamento, mostra como podemos nos deixar levar erroneamente pelas primeiras impressões. Como, muitas vezes, perdemos a chance de conhecer pessoas maravilhosas por puro preconceito.

Mostra também que , muitas vezes, nem nós mesmos sabemos como nós somos fortes e capazes de realizar tarefas inimagináveis. Legalmente loira é uma grande homenagem ao nosso poder pessoal, à nossa força interior, à nossa capacidade de nos reinventarmos. Mais do que isso: como a vida pode ser surpreendente e nos levar por caminhos criativos. A jovem que queria apenas reconquistar o noivo babaca acaba se descobrindo uma grande advogada. A jovem aparentemente fútil, se mostra uma garota inteligente , determinada e extremamente solidária e afetuosa.

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Cena de Legalmente loira

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Cena de Legalmente loira

O diário de Bridget Jones, de Sharon Maguire , do ano de 2001, apesar de usar alguns elementos meio exagerados ou clichê, também mostra o equívoco de algumas primeiras impressões e como o amor e a felicidade não são exclusividade das mulheres que se encaixam perfeitamente nos padrões estéticos da moda ou adotam o comportamento considerado ideal para uma sociedade pseudo moralista e extremamente convencional, que de forma subliminar, exclui quem difere mesmo que minimamente.

Bridget quer imensamente o amor. Mas está muito longe de ser uma protagonista convencional de comédia romântica: beberrona , boca suja , acima do peso, sem grande instinto maternal e dada a entrar em situações ridículas, Bridget questiona os próprios lugares comuns dos filmes do gênero, colocando na linha de frente uma protagonista realista.

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Cena do filme O diário de Bridget Jones

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Cena do filme O diário de Bridget Jones

Vale ressaltar que O diário de Bridget Jones foi livremente inspirado no célebre romance inglês, Orgulho e preconceito, de Jane Austen, que tinha como pedra de toque a feroz crítica social.

Sim, alguns filmes comerciais têm coisas interessantes a dizer. Basta termos olhos para enxergar além da trama aparentemente superficial.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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