cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

Se não estamos arrasando, talvez estejamos arrasados

Inúmeras vezes, nos calamos diante de injustiças porque entrar em conflito cansa demais e desta forma perpetuamos sistemas cruéis e relações doentias. Desta forma, indiretamente e inconscientemente , aumentamos o volume da voz de quem optou oprimir. Desta forma, indiretamente e inconscientemente , acatamos as ordens de quem mais desgostamos.


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Dar murro em ponta de faca. Esta é uma realidade altamente indesejável, mas muito mais comum do que se possa imaginar. Constantemente , estamos tentando calçar um pé 38 num sapato 36 ou se fazer entender por quem não está nem um pouco a fim de ouvir as nossas explicações.

Constantemente, estamos dando o melhor da nossa energia para quem não a merece. Constantemente estamos tentando nos enquadrar em esqueminhas apertados demais para não contrariar o status quo, para ficar bem na foto da sociedade e do facebook.

Constantemente, a gente se acomoda em relações porque não sabemos para onde ir , porque não sabemos encarar a própria solidão. Porque temos medo ou vergonha de admitirmos que deu errado, que o que começou cor-de rosa e cheio de purpurina perdeu o brilho, o vinho azedou e virou vinagre.

Constantemente , tentamos nos enganar , pensando que certas crises vão se resolver sozinhas, com o tempo, porque temos preguiça de tomar uma atitude e mudar de lugar em nossa vida o que está atravancando a entrada de coisas novas. Não me refiro apenas à parcerias amorosas. O nosso comodismo modorrento invade diversos setores da vida , nos imobilizando e nos impedindo de viver uma vida verdadeira. Uma vida significativa e por que não feliz?

Inúmeras vezes colocamos a opinião alheia à frente da nossa. Inúmeras vezes importamos culpas que não são nossas, exigimos de nós mesmos uma paciência que não teríamos coragem de exigir dos outros. Inúmeras vezes deixamos de seguir o caminho que desejamos porque ninguém mais o escolheu.

Inúmeras vezes fazemos as coisas simplesmente porque precisamos fazê-las. Sem nenhum sentido. Sem nenhuma paixão. Tudo no piloto automático. Quantas pessoas não levam carreiras com a barriga durante anos e anos? Quantas pessoas não mantém vínculos afetivos igualmente inexpressivos porque não conseguem mais acreditar de que existe a possibilidade de se conectar verdadeiramente com as pessoas?

Inúmeras vezes, nos calamos diante de injustiças porque entrar em conflito cansa demais e desta forma perpetuamos sistemas cruéis e relações doentias. Desta forma, indiretamente e inconscientemente , aumentamos o volume da voz de quem optou oprimir. Desta forma, indiretamente e inconscientemente , acatamos as ordens de quem mais desgostamos. Desta forma , perdemos o melhor do nosso tempo, desperdiçamos vida. Se para o mundo da Economia , tempo é dinheiro, para muitos , tempo é vida. Talvez , não haja desperdício maior e mais triste do que o do tempo. O tempo mal vivido não volta. O bem vivido também não, mas pelo menos , ele fica na memória de uma forma prazerosa.

Uma vida vivida no piloto automático, escrita por outras pessoas, motivada pelos interesses alheios , pautada pelo medo e pelo desconhecimento de si mesmo, provavelmente é muito mais dramática do que a realidade de alguém que se atirou na linha de frente da vida , encarando os próprios sentimentos , contradições e lacunas.

Sim, somos paradoxais, confusos e cheios de paixões que vão se esvaindo no medo de viver. Permitimos que a criança interior morra muito cedo. Confundimos maturidade com uma vida fake. Para muitos , ser maduro é deixar de ser si mesmo. É viver um personagem atrás do outro numa sequência infinita de protocolos que , na maioria das vezes, não fazem o menor sentido.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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