cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Psicanalista, escritora, atriz. Professora e Doutora em Comunicação e Semiótica. Fundadora da empresa Sílvia Marques Produções Artísticas Independentes.

Cinema e perversão

O cinema deita e rola com os perversos , fazendo filmes altamente provocantes , angustiantes , reveladores e obscuros simultaneamente.


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Cena do filme Lua de fel, de Roman Polanski

Para quem conhece um pouco sobre Psicanálise , sabe que Freud e Lacan dividiram as pessoas em três estruturas clínicas: neuróticos, psicóticos e perversos. As opções não são muito atraentes ...mas como disse uma médica...são as opções disponíveis...piadas à parte.

Perversos raramente procuram psicanálise ou qualquer tipo de psicoterapia pois se sentem muito bem com a forma que são e que vivem. Normalmente , as pessoas buscam por análise quando se sentem angustiadas. O perverso , em muitos casos , curte mesmo é angustiar o outro. Psicopatas e sociopatas apresentam estrutura perversa. Perversos desprezam os valores morais compartilhados pela sociedade e se sentem seres superiores. Não apresentam problemas cognitivos e conseguem reproduzir condutas não perversas quando é conveniente , porém, sem compreender questões ligadas à empatia.

Porém, é possível uma pessoa ser pervertida sexualmente sem apresentar a estrutura perversa. Podemos dividir os pervertidos em basicamente três categorias: sádicos, masoquistas e fetichistas. Sádicos adoram subjugar as outras pessoas, provocando sofrimento nas mesmas. Tal sofrimento não precisa necessariamente ser físico. Basta pensarmos nas pessoas que se divertem fazendo tortura psicológica. O assédio moral, por exemplo, é uma modalidade de tortura psicológica. Vale ressaltar que o assediador moral é um psicopata ou tem fortes traços psicopatas. Já aquele que gosta de práticas sádicas durante o sexo com a aprovação do parceiro é um pervertido apenas. Os masoquistas apreciam sofrer. Sentem prazer por meio do sofrimento. Os fetichistas dirigem sua libido para um objeto específico que pode ser um objeto mesmo ou uma parte do corpo humano. Algumas pessoas adoram seios ou nádegas , por exemplo. Mas os seios ou as nádegas são apenas um meio de excitação, não um fim. Para o fetichista , o contato com o objeto ou a parte do corpo é o fim, é o que promove o seu gozo.

O cinema deita e rola com os perversos e pervertidos , fazendo filmes altamente provocantes , angustiantes , reveladores e obscuros simultaneamente.

Em Lua de fel, por exemplo, de Roman Polasnki, podemos encontrar uma assustadora relação de amor e ódio em que num primeiro momento o homem assume o papel do sádico , deixando o masoquista para a mulher. Depois , o jogo se inverte , mas as crueldades permanecem igualmente ferozes. De certa forma , eles reiteram o amor por meio das maldades que praticam. Mais do que isso: envolvem um casal inocente em seus jogos perversos porque se divertem com a angústia alheia.

Em Veludo azul, de David Lynch, podemos presenciar também a uma relação sadomasoquista , em que dor e prazer se misturam e se confundem para a personagem de Isabella Rossellini. O filme tem uma aura sombria e psicodélica que nos remete ao clima de um pesadelo.

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Cena do filme Veludo azul, de David Lynch

Em O cheiro do ralo, do cineasta brasileiro Heitor Dhalia, o personagem protagonista Lourenço é um psicopata comunitário e também um fetichista. Psicopata pois é um déspota que não ama ninguém e que se compraz humilhando as pessoas. Fetichista pois tem verdadeira obsessão pelas nádegas de uma jovem garçonete a ponto de desejar comprá-las. Lourenço aprecia o sexo pago pois para ele é sempre tudo uma questão de dinheiro. Dinheiro e bunda são seus objetos de fetiche. A bunda apresenta relação com as fezes e por sua vez as fezes se relacionam com a maneira que lidamos com o dinheiro. Possivelmente , Lourenço deve ter sofrido algum problema na sua fase libidinal anal.

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Cena do filme O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia

Talvez, o mais emblemático exemplo de sadismo no cinema , seja o filme Saló ou 120 dias em Sodoma , de Pier Paolo Pasolini, baseado na obra do Marquês de Sade. Embora Pasolini tenha utilizado a obra sadiana para fazer uma alegoria da Itália fascista , ele o fez por meio de quatro homens poderosos da sociedade que se realizam torturando e molestando jovens indefesos.

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Cena do filme Saló ou 120 dias em Sodoma, de Pier Paolo Pasolini

Os exemplos de personagens perversos no cinema são muitos , pois apesar de causarem grandes danos na vida real, possuem grande força dramática nas telas do cinema porque são inconsequentes, desprezam as regras , desconsideram o outro, não sentem culpa nem vergonha. Eles são protagonistas de terríveis jogos sexuais, que despertam a curiosidade dos cinéfilos interessados em compreender mais profundamente as obscuridades do inconsciente.


Sílvia Marques

Psicanalista, escritora, atriz. Professora e Doutora em Comunicação e Semiótica. Fundadora da empresa Sílvia Marques Produções Artísticas Independentes..
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