cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Merlí e a filosofia como paixão pela vida

Filosofar é saber que felicidade nada tem a ver com cumprir metas. Cumprimos metas para substituir a felicidade que não sentimos. Filosofar é saber que nada na vida é realmente do jeito que nos ensinaram. Filosofar é saber guardar o melhor do seu veneno para mentes instigantes. Filosofar é saber desviar do caminho trilhado pela boiada.


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Entre os dias 23 e 31 de dezembro assisti a uma série deliciosa no Netflix: Merlí. Uma série espanhola, mais especificamente catalã, lançada em 2015. A série tem duas temporadas de 13 episódios cada, mas apenas a primeira está disponível no Netflix. A trama gira ao redor de um irreverente professor de Filosofia que ensina Filosofia como deve ser ensinada: com paixão.

Diferentemente do que a maioria das pessoas imagina , Filosofia não é disciplina de gabinete , para pessoas enfadadas e medrosas , que usam pilhas de livros mofados como barreiras para enfrentar o mais comezinho do dia a dia. Que usam bibliotecas e escritórios como trincheiras para fugir da vida real: medonha e fascinante em proporções quase idênticas. Que usam os livros para sublimar a falta de sexo, a falta de romance , a falta de aventura , a falta de paixão pela vida e pelas as outras pessoas.

Merlí mostra que os conceitos deixados pelos filósofos da Grécia Antiga , pelos filósofos do século 18 e de qualquer outro século extrapolam as páginas de qualquer livro e podem ser encontrados e vivenciados no nosso banal dia a dia.

Usa Foucault para falar sobre a tacanhez das nossas escolas nos dias de hoje . Usa os céticos para nos propor um olhar mais contemplativo e menos julgador sobre a vida. Usa os sofistas para mostrar que às vezes precisamos defender uma ideia a qual não acreditamos para obter um objetivo importante. Usa Guy Debord para mostrar os estragos feitos pela sociedade do espetáculo. Usa Nietzsche para falar sobre o super homem ou simplesmente alguém que se reinventa, utilizando como combustível a sua própria força.

Cada episódio, uma aula. Cada episódio, um deleite.

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Sim, Merlí mostra que não existe nada mais cotidiano, prático e aplicável à vida real do que o amor ao saber. Sim, filosofamos quando jogamos fora ou simplesmente questionamos qualquer coisa que é aceita como inquestionável pela sociedade. Sim, filosofamos quando chutamos regrinhas bobas que não servem para nos tornamos melhores ou mais felizes. Sim, filosofamos quando optamos pelo amor , quando nos arriscamos a sermos nós mesmos , quando escolhemos um estilo de vida que faça sentido para nós e não para os outros.

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Sim, filosofamos quando rimos , brincamos , quando bebemos vinho, quando fazemos amor , quando nos apaixonamos, quando lutamos contra aquilo que luta contra nós. Quando simplesmente olhamos para o espelho e pensamos que tudo poderia ter sido muito diferente para nós.

Merlí é uma boa oportunidade para conciliar humor , drama , conhecimentos filosóficos e inspiração para uma vida mais espontânea e menos dominada pelo senso comum, que muitas vezes nos ajuda , mas que em muitos momentos nos arrasta para a mesmice , para o tédio e para uma vida sem graça , sem paixão, sem atitude , sem amor.

Filosofar é saber que não precisamos comer lentilhas no réveillon e peru no Natal porque todos comem. Filosofar é optar por sua cor favorita mesmo sabendo que outra cor está na moda. Filosofar é saber que não precisamos aparentar 20 anos aos 30 ou aparentar 30 aos 40. Filosofar é saber que sempre somos crianças quando o assunto é amor. Filosofar é saber que às vezes é preciso mandar ir à merda mesmo. Filosofar é saber que nada na vida é realmente do jeito que nos ensinaram. Filosofar é saber que o mundo não vai acabar porque não estamos usando o sapato da moda e que um pouco de intelectualidade evitaria algumas faturas altas do cartão de crédito.

Filosofar é saber que felicidade nada tem a ver com cumprir metas. Cumprimos metas para substituir a felicidade que não sentimos. Filosofar é apreciar uma instigante comida conceito, mas saber que quando a fome bate para valer, um bom bife acebolado pode ser a grande resposta. E que pão com ovo não é coisa de pobre. É coisa de gente com apetite. Filosofar é saber que o amor é a grande solução para a vida , que desconstrói todas as outras soluções.

Filosofar é tirar o telefone do gancho para ligações inoportunas. Ser bom é diferente de ser bonzinho. Filosofar é saber guardar o melhor do seu veneno para mentes instigantes. Filosofar é usar um vestido preto em pleno verão. Não para contrariar. Porque está com vontade de usá -lo. E não venham me dizer que vestidos pretos de tecidos vaporosos são menos frescos do que colantes shortinhos jeans.

Filosofar é saber desviar do caminho trilhado pela boiada.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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