cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

Excesso de críticas: o túmulo dos relacionamentos

Mais terrível ainda é ver que as mesmas pessoas que criticam sem o menor pudor, sem o menor constrangimento, que não filtram aquilo que elas vão falar , muitas vezes, são as mais sensíveis na hora de receberem uma crítica. Enfim, despejam no outro aquilo que elas não suportam que seja despejado nelas.


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Ok.Ok.Ok. Algumas críticas são necessárias. Não dá para aturar tudo de boca fechada. Algumas críticas são importantes para o crescimento do parceiro e o bem estar da relação. Por outro lado, algumas pessoas criticam excessivamente , quase que por vício. Precisam comentar qualquer gesto que o outro faça. Precisam jogar na cara as menores falhas do parceiro. Se qualquer detalhe sair do esquema que elas desejam, o tempo fecha . Caras feias são feitas. Escorpiões saem pela boca. Outros preferem criticar na forma de piadas bobas e sem graça que magoam do mesmo jeito ou até mais.

Corrigir um erro de Português , por exemplo, é benéfico. Por outro lado, tirar sarro quando o outro comete um erro é muito chato. Esculhambar a pessoa porque ela carece de alguma habilidade também é terrível. Fazer piadinhas para o parceiro sobre sua aparência é o túmulo do desejo. Ironizar falhas de memória, falta de coordenação motora, falta de conhecimentos em áreas que são importantes para nós , mas nem tanto para o outro é broxante. E se as críticas e piadas forem feitas perto de outras pessoas , pior ainda. Além do desejo, morre a cumplicidade , a confiança.

É um horror ver homens e mulheres ironizando e criticando o jeito de ser dos parceiros sem papas na língua, sem demonstrarem o menor respeito ou empatia por seus defeitos, por suas dificuldades e limitações.

Mais terrível ainda é ver que as mesmas pessoas que criticam sem o menor pudor, sem o menor constrangimento, que não filtram aquilo que elas vão falar , muitas vezes, são as mais sensíveis na hora de receberem uma crítica. Enfim, despejam no outro aquilo que elas não suportam que seja despejado nelas.

Conversar sobre problemas graves , incentivar o parceiro a crescer como ser humano são atitudes inteligentes, promovidas por pessoas que querem aprimorar a relação, aparando arestas e evitando que questões pequenas tomem proporções maiores por falta de um bom papo. Por outro , passar o dia criticando em nada ajuda. Muito pelo contrário. A pessoa vai criar uma resistência tão grande ao outro que quando ouvir uma crítica construtiva , que vale a pena ser ouvida, vai ignorar porque já está saturada, de saco cheio. Mesmo que o parceiro queira realmente ajudar , a pessoa excessivamente criticada já não consegue mais confiar no conselho do outro. Tudo vira um grande blá blá blá.

Sim, o excesso de críticas é o túmulo dos relacionamentos , mesmo quando as pessoas continuam juntas. Estar junto , vivendo debaixo do mesmo teto ou namorando há séculos, não é prova definitiva de harmonia e felicidade. Sim, tem muita gente que por variados motivos se sujeita a ser saco de pancada do parceiro. E normalmente , quem critica demais , não está bem consigo mesmo. Olhar para o outro , apontando os seus defeitos a todo momento , é uma maneira de não olhar para si. De não encarar aquilo que incomoda em nós mesmos.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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