cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

Nem sempre estamos preparados para ouvir a verdade

Quando a pessoa não está preparada para aceitar determinados fatos , ouvir certas verdades ou receber determinadas notícias e recebe, pode ser muito prejudicial à sua saúde física e mental. Em relatos que leitores fazem a mim por meio das redes sociais , uma das queixas mais comuns é a de que presenciaram fotos românticas de seus ex parceiros, semanas ou até mesmo dias após a relação terminar.


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Cena do filme Closer, perto demais

Nada é mais inevitável do que a verdade. Cedo ou tarde , ela chega: imperiosa , altiva . Algumas vezes, redentora. Em outras , cruel. Dizem que não podemos culpar quem fala a verdade e que é melhor sofrer com uma bem dolorosa do que ser acariciado com uma mentira suave.

Não nego o poder e a beleza da verdade. Não nego que ela seja muito importante e que cedo ou tarde temos que nos deparar com ela , temos que prestar contas , encarar a vida , a nós mesmos e a quem mais amamos sem os filtros amenizadores da mentira.

Por outro lado, dependendo do estado emocional da pessoa , ouvir certas verdades pode ser destruidor. Sim, nem sempre estamos prontos para aceitar certas verdades. Nem sempre estamos prontos para encarar certas realidades. Por tal motivo, no processo psicanalítico, o analista não vomita "verdades" na cara do analisando. Coloco a palavra verdades entre aspas, pois psicanalistas sabem que não existem verdades absolutas. Ele induz o analisando a perceber os porquês da sua vida, o que torna a sua vida menos feliz , menos saudável. Quando a verdade vem na hora certa , em doses homeopáticas , ela desce melhor. Ela não traumatiza. Ela agrega.

Quando a pessoa não está preparada para aceitar determinados fatos , ouvir certas verdades ou receber determinadas notícias e recebe, pode ser muito prejudicial à sua saúde física e mental. Em relatos que leitores fazem a mim por meio das redes sociais , uma das queixas mais comuns é a de que presenciaram fotos românticas de seus ex parceiros, semanas ou até mesmo dias após a relação terminar. É completamente diferente ver que o ex está numa boa com outra pessoa muito tempo após o fim do namoro e se deparar com esta realidade enquanto a pessoa ainda está no auge do luto amoroso. Por tal motivo, pessoas que tentam preservar o ex parceiro , não divulgando fatos e fotos do relacionamento atual por algum tempo, não me parecem falsas. Me parecem gentis e generosas.

É muito diferente um professor dar pistas para o aluno, indicando que talvez ele não tenha talento para uma determinada área profissional e simplesmente dizer de forma curta e grossa que ele deve buscar outra carreira.

É muito diferente uma pessoa confessar uma infidelidade quando o parceiro está altamente desconfiado e confessar quando o outro nem suspeita de nada.

É muito diferente apontar um defeito numa pessoa amiga quando ela está aberta para se conhecer e se entender melhor e apontar determinado defeito quando a pessoa está fragilizada ou fechada demais para encarar as próprias limitações.

Sim, nem sempre dizer a verdade , na lata , é o melhor. O que pode ser uma verdade cruel e devastadora hoje , pode ser uma verdade tranquila e normal daqui 6 meses , daqui um ano, em algum momento do nosso futuro.

Sim, certas mentiras e omissões , muitas vezes, são sinais de amor. Mais do que isso: são sinais de compaixão.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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