cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Two and a half men: um olhar lúdico sobre a psicanálise e a autosabotagem

Podemos encarar alguns fracassos de Charlie como golpes de má sorte. Por outro lado, pelo viés da Psicanálise, inconscientemente , fazemos escolhas que contrariam o bom senso ou o senso comum ou aquilo que aparentemente queremos. De uma forma ou de outra , Charlie encontra um modo de sabotar as suas relações amorosas, estragando com comodismo, falta de atenção ou traições aquilo que poderia dar certo no plano afetivo.


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Two and a half men, célebre série de humor americana , produzida de setembro de 2003 a fevereiro de 2015, apresenta um lúdico e feroz olhar sobre as relações humanas sob o viés psicanalítico. Os personagens protagonistas, os irmãos Charlie e Alan Harper, possuem uma relação extremamente tensa e problemática com a mãe , uma charmosa , egocêntrica e insensível corretora de imóveis de sucesso.

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Holland Taylor como Evelyn Harper

A relação entre os irmãos também é bastante conturbada e marcada pelo sadismo irônico de Charlie e pela inveja rancorosa de Alan. Charlie não esconde o horror que sente pela mãe nem o desprezo que nutre pelo irmão. Alan, por sua vez, tenta conquistar o amor materno, mesmo reconhecendo os defeitos da mesma. Evelyn Harper dispensa um afeto desdenhoso aos dois filhos e ao neto.

Os traumas da infância e a relação conflituosa, insatisfatória e frustrante com a mãe gera problemas bem diferentes nos irmãos. Charlie se torna um solteirão convicto, viciado em jogo, álcool, prostitutas e sexo casual de um modo geral. Alan, ao contrário, se interessa por mulheres que o subjugam. Aparentemente , apenas Alan é o fracassado da família pois perde tudo o que tem para a ex-esposa megera , precisando viver de favor na casa do irmão. Além disso, não faz sucesso com as mulheres. Mas, Charlie , de certa forma , também é um perdedor pois utiliza o álcool para sublimar seus problemas e tem sérias dificuldades para confiar e se comprometer com as mulheres. E toda vez que se apaixona sinceramente por alguma , algo dá errado.

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Jennifer Taylor como Chelsea, o relacionamento mais duradouro e estável de Charlie

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Emmanuelle Vaugier como Mia, grande paixão da vida de Charlie que quase o levou para o altar

Charlie teve outras namoradas importantes, entre elas, a insuportável Lydia , cópia mais jovem da sua mãe, escancarada referência freudiana, uma bela juíza chinesa e uma escritora de livros de autoajuda mais velha, outra clara referência freudiana. E talvez, a mais intrigante personagem feminina da série: a transtornada e passional Rose, sua vizinha milionária, que nutre um sentimento obsessivo por Charlie e o ama como ele é. De certa forma , Rose é tudo o que é Charlie quer: uma mulher que não o tira da zona de conforto. Mas, por outro lado, a teme pois ela é a possibilidade de um vínculo perene.

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Melanie Lynskey como Rose

Podemos encarar alguns fracassos de Charlie como golpes de má sorte. Por outro lado, pelo viés da Psicanálise, inconscientemente , fazemos escolhas que contrariam o bom senso ou o senso comum ou aquilo que aparentemente queremos. De uma forma ou de outra , Charlie encontra um modo de sabotar as suas relações amorosas, estragando com comodismo, falta de atenção ou traições aquilo que poderia dar certo no plano afetivo.

Porém, Alan não é tão diferente de Charlie porque mesmo sendo um homem submisso às mulheres, alguém realmente disposto a formar vínculos, também sabota as suas relações, fazendo escolhas imaturas ou sufocando as parceiras com suas obsessões, insegurança e tacanhez.

Two and a half men é um prato cheio para os interessados no comportamento humano e em como podemos errar feio mesmo quando aparentemente queremos acertar. É um prato cheio também para quem entende o quanto as relações são frágeis, complexas e paradoxais e que nem tudo é o que aparenta ser.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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