cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

13 reasons why e 13 milhões de temas

13 reasons why sugere mais perguntas do que respostas e embora em alguns momentos a série possa soar um pouco açucarada, ela é um tapa bem forte no rosto de todos nós. Um tapa que nos acorda para uma questão seminal: não salvaremos ninguém colando cartazes nos corredores das escolas e das faculdades. Não resolveremos os dramas humanos fazendo palestras motivacionais ou demonstrando uma piedade que não sentimos, uma piedade protocolar.


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Recentemente lançada no Netflix , a série 13 reasons why tem causado polêmica, dividindo opiniões. Ouvi dizer que se tratava de uma boa série adolescente. Não creio que os 13 porquês seja uma série adolescente. Em primeiro lugar por ser uma produção que trata a realidade de forma nua e crua. Sim, 13 reasons é cruel. Em segundo, porque muitos dos nossos piores dramas atuais vem da adolescência. O artigo apresenta alguns spoilers.

Os 13 porquês é cruel por muitos motivos. Os mais óbvios são os temas do bullying e do abuso sexual, desencadeadores de milhares de angústias que no caso da protagonista Hannah culminaram no suicídio.

Falar que Os 13 porquês é uma série sobre os estragos que os valentões podem causar na vida de outros adolescentes é o lado mais óbvio da série.

O que realmente me intrigou e me estimulou a escrever a respeito são os temas que surgem de forma subjacente , mas nem por isso, menos importante.

Muitas vezes , o que leva um adolescente a estágios terríveis de depressão , ansiedade e desespero não são apenas os atos de bullying em si, mas todo um contexto. Hannah não chegou ao nível mais baixo de desesperança apenas pelo que lhe fizeram de mau, mas também por tudo o que deixaram de fazer de bom. Sim, a omissão também machuca , também afeta. Muitas pessoas não humilham, não abusam sexualmente , não difamam, mas nada fazem para atenuar o sofrimento de quem é perseguido. Muitas vezes , até mesmo riem das piadas que os perseguidos sofrem, como se tudo se tratasse de uma brincadeira. Como se o único responsável pelo sofrimento causado fosse a pessoa que o promoveu.

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Sim, é simples identificar personagens como o de Bryce como um vilão. Sim, ele é o vilão clássico, o que está na linha de frente das piores agressões.

Sim, é simples identificar em Courtney e Marcus o lado mais frio e manipulador do politicamente correto, daqueles que para livrarem a cara deixam outras pessoas pagarem pelas consequências de seus atos e segredos.

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Mas o que dizer daqueles que presenciam o sofrimento de um colega e nada dizem e nada fazem para defendê-lo ou ao menos consolá-lo? Sim, 13 reasons why não é apenas sobre bullying e abuso sexual. É também sobre a omissão. É sobre os que se calam diante dos horrores praticados por aqueles que detém mais poder.

Quase todos os personagens são meio omissos , incluindo os pais da garota suicida. Sim, eram bons pais , mas sempre preocupados com o trabalho, com as finanças, sempre desatentos , sempre oferecendo à filha aquele tipo de afeto meio sem sal nem pimenta, comida congelada que se joga no microondas e que se come sem sentir o gosto.

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O conselheiro da escola também indica bem como as instituições educacionais estão despreparadas para lidar com o bulliyng. Talvez , um dos aspectos mais aterrorizantes da série foi perceber que a escola estava mais preocupada em se livrar de um processo do que descobrir a verdade. Falando em verdade, este é outro tema de suma importância abordado pela série. O que é a verdade?

Alguns colegas presentes nas fitas de Hannah se identificaram nos relatos da colega morta. Outros não. Os que não se reconheceram, não se reconheceram de fato ou simplesmente não queriam arcar com as consequências de seus atos? E os que se identificaram? Se identificaram de fato ou se deixaram levar pelos relatos de uma garota extremamente sedutora? Independente dos horrores sofridos, Hannah é uma garota narcísica. E narcísicos seduzem.

Hannah não é uma personagem empática. Pelo menos em minha opinião. Em primeiro lugar porque ela nos remete a tudo de mais frágil e instável que existe dentro de nós. Ela nos remete , talvez , a tudo que queiramos esquecer e/ou negar a respeito das agressões que sofremos um dia ou que praticamos.

Em segundo lugar , ela é uma garota difícil. Sim, ela sofria , era assediada, zombada e tinha motivos de sobra para querer sumir. Por outro lado, ela também dificultava qualquer tipo de ajuda. Ela também era fechada e agressiva. Efeitos colaterais do bullying sofrido? Provavelmente. Mas independente de todos os maus tratos sofridos , Hannah teve um décimo quarto porquê que ela não gravou em nenhuma fita. Ela não quis seguir em frente.

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Sim, pode soar perverso, pode soar cruel, mas o suicídio é uma escolha e independente de todos os motivos que tenhamos para cometê-lo, ele continua sendo um ato opcional. Estou julgando Hannah? De forma alguma. Não temos o direito de julgar as escolhas alheias. De repente , para ela , morrer era o melhor. E escrevo tal frase sem nenhuma gota de moralismo. Por outro lado, dizer que os colegas não deram outra escolha a ela a não ser morrer , é equivocado. Sim, Hannah queria morrer e os 13 porquês talvez tenham sido um atalho. Posso afirmar com certeza absoluta? De forma alguma novamente. Quando se trata de suicídio, nada ou quase nada pode ser dito de forma categórica.

Sim, 13 reasons why é uma série séria. Séria e incômoda. Muito incômoda. Pois mostra como todos nós estamos imersos no nosso egoísmo cotidiano, na nossa incapacidade de ver o outro, de estender a mão na hora certa. Na nossa incapacidade de compreender a extensão das consequências dos nossos atos e de como pequenos gestos ou até mesmo uma omissão pode gerar efeitos homéricos na vida de outra pessoa.

Acusaram a série de romantizar o suicídio. Não creio. Pelo contrário. Hannah é uma anti-heroína. Ela não nos induz a nenhum desejo de segui-la porque qualquer identificação com ela soa meio desagradável. Principalmente quando ela se nega a viver um momento de amor com Clay. Sim, mais uma vez, reitero minha teoria: Hannah era fechada. Ela acusava o mundo de abandoná-la , mas ela também se abandonou. Ela também se negou o amor.

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13 reasons why sugere mais perguntas do que respostas e embora em alguns momentos a série possa soar um pouco açucarada, ela é um tapa bem forte no rosto de todos nós. Um tapa que nos acorda para uma questão seminal: não salvaremos ninguém colando cartazes nos corredores das escolas e das faculdades. Não resolveremos os dramas humanos fazendo palestras motivacionais ou demonstrando uma piedade que não sentimos, uma piedade protocolar. Na verdade , não resolveremos nada , apenas poderemos atenuar os efeitos de alguns dramas se formos capazes de nos reavaliar como seres humanos e desta forma sairmos mesmo que parcialmente da nossa bolha de egoísmo e dogmatismo. Acusaram a série de estimular o suicídio. Será mesmo? Será que negá-lo também não é uma forma de incentivo? Mais do que isso: uma forma de não nos responsabilizarmos por ele , dividindo as pessoas entre aquelas que são capazes de cometer suicídio ou não?


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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