cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Baleia azul , sadismo e a precariedade da vida

Se em tempos de Lord Byron, os jovens caíam na boemia , no gosto pela morbidez , se embriagavam de poesia trágica pelos amores frustrados , pela impossibilidade de viver o amor plenamente numa sociedade marcada e pautada por formalismos , por excesso de convenções, o jovem de hoje , possivelmente , se entrega a jogos macabros , drogas lícitas e ilícitas , desprezo pela própria existência por motivo inverso: num tempo em que praticamente tudo é possível e as convenções não esmagam mais a possibilidade de amores irreverentes, tememos o amor. Tememos qualquer tipo de vínculo que dure mais do que alguns dias ou semanas.


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Recentemente , soube da existência de um jogo macabro chamado Baleia azul. Foi confundido por alguns pais como um mero aplicativo, um jogo a mais. Mas Baleia azul é um convite , uma indução ao suicídio. Além de estimular a morbidez de alguns adolescentes naturalmente depressivos e instáveis emocionalmente , o jogo os coage a cumprir todas as tarefas sob pena de perseguirem a pessoa e a família da pessoa na vida real. Assistir a filmes de terror por 24 horas seguidas é um dos cinquenta desafios que o adolescente que aderiu ao grupo precisa executar. Talvez , o desafio mais emblemático mesmo seja o de desenhar com um estilete uma baleia no braço. O desafio final é cometer o suicídio.

Não podemos dizer que práticas como esta sejam exclusivas da nossa época. O gosto pela morbidez , o colocar a vida em risco por falta de um sentido para a mesma , comportamentos depressivos , adolescentes desejando morrer e pessoas se divertindo á custa do sofrimento alheio sempre existiram.

O jogo me fez pensar no filme inglês Chat: a sala negra. Um excelente filme por sinal, que todo pai , mãe ou responsável por um adolescente deveria assistir. Um jovem visivelmente desequilibrado , com tendências sádicas , cria uma sala de bate papo na internet e tenta convencer os participantes de que suas vidas não valem a pena e que o melhor que eles fazem é morrer. O filme apresenta um desfecho bem interessante. Sem perder o tom realista , típico do sóbrio e maduro cinema inglês, nos oferta uma luz no fim do túnel, mostrando que a solidariedade ainda existe e que um pouco de afeto e demonstrar interesse por quem sofre pode ser um divisor de águas.

Não pretendo discutir neste artigo o tema do suicídio em si. Mas ressaltar a importância do diálogo com as pessoas , principalmente com as mais jovens, que podem se tornar presas mais fáceis de tipos sádicos. Não podemos acusar o jogo Baleia azul e seus administradores por injetarem a morbidez em seus participantes. Quem busca por este tipo de jogo, provavelmente é alguém com problemas sérios. Mas o jogo potencializa. Mais do que isso: o jogo coage mesmo aqueles que desistem da ideia de suicídio. Mais do que induzir , ele limita drasticamente o livre arbítrio dos participantes.

Se em tempos de Lord Byron, os jovens caíam na boemia , no gosto pela morbidez , se embriagavam de poesia trágica pelos amores frustrados , pela impossibilidade de viver o amor plenamente numa sociedade marcada e pautada por formalismos , por excesso de convenções, o jovem de hoje , possivelmente , se entrega a jogos macabros , drogas lícitas e ilícitas , desprezo pela própria existência por motivo inverso: num tempo em que praticamente tudo é possível e as convenções não esmagam mais a possibilidade de amores irreverentes, tememos o amor. Tememos qualquer tipo de vínculo que dure mais do que alguns dias ou semanas.

Estamos na Modernidade líquida , como diria Bauman, em que nada deve durar , desde o smart phone até o relacionamento afetivo, passando por amizades e empregos. Era de objetos descartáveis, viramos mais um objeto tanto no mercado de trabalho como nas relações de um modo geral. Mais importante do que a história construída ao lado de uma pessoa , é a possibilidade de viver algo mais emocionante com um desconhecido que surge em nosso caminho, cheio de promessas brilhantes e vazias. Como diria Dan, personagem vivido por Jude Law , no célebre e angustiante filme Closer, perto demais , ele trai sua parceira amorosa não por sentir-se infeliz com ela. Pelo contrário. Ele a amava e tinha uma boa vida com ela. Ele a traiu e a trocou por outra por achar que poderia ser ainda mais feliz do que ele já era. Resultado: perdeu as duas e precisou se deparar com sua própria solidão. Não solidão no sentido de estar só. Solidão no sentido de não saber amar.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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