cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

Você está realmente vivendo a sua vida?

Qual foi a última vez que você gemeu baixinho ao mastigar um alimento ou suspirou profundamente por compartilhar uma cumplicidade deliciosa numa conversa que poderia durar milênios? Qual foi a última vez que você sentiu , que apesar dos pesares, estar no mundo é uma experiência doida no bom sentido da palavra? Ou recebeu um abraço que fez o mundo se calar? Qual foi a última vez que você amou ser quem você é?


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Viver é diferente de existir. Viver inclui o conceito de escolha. Estamos fazendo escolhas ou estamos simplesmente permitindo que as circunstâncias decidam por nós?

Sabemos que liberdade irrestrita é um conceito utópico. Somos , em muitos momentos , condicionados pela liberdade alheia , pelas limitações inerentes à raça humana, entre diversos outros fatores. Por outro lado, algumas pessoas conquistam mais liberdade do que outras.

Para alguns , liberdade é fazer o que se quer. Para outros , liberdade é desprender-se do próprio desejo. Independente do conceito de cada um, algumas pessoas conseguem mais do que existir. Conseguem viver com uma dose razoável de autonomia de ação e pensamento. Conseguem viver. Conseguem, apesar dos problemas e dificuldades do dia a dia e das crises existenciais , amarem a vida que possuem, mesmo que esta tenha sido traçada sobre um trajeto cheio de curvas sinuosas e idas e vindas.

É preciso coragem e muita honestidade para refletir e admitir que talvez estejamos apenas existindo. Que estejamos apenas agindo ou deixando de agir em função dos outros , das expectativas alheias. Que estamos nos deixando levar por um esquema de vida que desconsidera o nosso desejo, que coloca tudo no piloto automático, que rouba a espontaneidade dos pequenos gestos cotidianos.

Talvez , estejamos expressando pouco o nosso amor , a nossa raiva , a nossa vontade de fazer algo novo. Talvez , estejamos deixando sempre para depois aquilo que realmente queremos fazer. Talvez , em nome do urgente , estejamos sempre ignorando o importante.

Qual foi a última vez que você realmente se divertiu? Qual foi a última vez que você esteve em algum lugar que realmente te fez sentir vontade de ali ficar por tempo indeterminado? Qual foi a última vez que você desejou que o tempo congelasse para nunca mais se despedir daquele momento?

Qual foi a última vez que você perdeu a noção da hora, que você foi a um evento social por realmente querer ir , que passou uma tarde inteira lendo um livro pois não conseguiu despregar os olhos dele?

Qual foi a última vez que você gemeu baixinho ao mastigar um alimento ou suspirou profundamente por compartilhar uma cumplicidade deliciosa numa conversa que poderia durar milênios? Qual foi a última vez que você sentiu , que apesar dos pesares, estar no mundo é uma experiência doida no bom sentido da palavra? Ou recebeu um abraço que fez o mundo se calar? Qual foi a última vez que você amou ser quem você é?

Qual foi a última vez que você se sentiu em paz com você mesmo, por saber que você conseguiu ser você e não aquilo que esperavam de você ou que projetaram em você, colocando em seus ombros um peso que não é seu? Qual foi a última vez que você se sentiu em paz com você por ter deixado de ser o seu próprio algoz? Qual foi a última vez em que você sentiu a sua vida se ampliar , abrindo como um leque, num movimento cheio de possibilidades?


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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