cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Sobre medos inexplicáveis e sensações estranhas

Um exemplo bem interessante de estranho que ilustra muitos filmes de terror é a figura do palhaço. Muitas pessoas têm fobia de palhaço. No entanto, ele faz as crianças rirem. Está presente nas festas infantis. É uma figura familiar. As fobias têm forte relação com o estranho. Algo do inconsciente vem à tona e se instala num objeto cotidiano, como insetos, animais de estimação, plantas, situações específicas como ficar em um ambiente pequeno, por exemplo. O estranho não pode ser traduzido em palavras e auxilia muito o processo psicanalítico por se tratar de algo que gera desconforto e também por ser algo que vem do inconsciente.


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Em Psicanálise , estuda-se um termo chamado o estranho. O estranho é o que nos assusta ou o que nos causa uma impressão desagradável sem sabermos exatamente o porquê. São temores inexplicáveis. Existe muito de estranho no ambiente familiar. Um cineasta que trabalhou muito bem este tema foi o sueco Ingmar Bergman, que retratou relações familiares cheias de estranhamento, em que um verniz de polidez disfarçava a repulsa entre pessoas que teoricamente deveriam se amar.

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Cena do filme Gritos e sussurros. Mulher se corta possivelmente para sentir alguma emoção.

O estranho tem forte relação com o ambiente familiar, pois é na família que desenvolvemos os nossos maiores afetos e os nossos maiores traumas também. O estranho é algo que vem à tona do próprio inconsciente, é algo que nos remete a um desejo recalcado, que pode surgir nos sonhos, que pode surgir como impressões desagradáveis sem explicação racional. Ter medo de andar numa rua violenta da cidade ás duas da madrugada é um temor objetivo e compreensível. Mas o que dizer sobre o medo em relação a uma fotografia invertida? Sentir medo de filmes declaradamente assustadores, com imagens grotescas como a garota do O exorcista fazendo suas peripécias parece simples de entender. Mas o que dizer de uma simples imagem levemente desfocada, que pode angustiar muitas pessoas? O filme O chamado apresenta muito bem o estranho. Talvez, a morte em si das pessoas, uma semana após receberem um telefonema seja o menos assustador. Talvez, o mais assustador seja o vídeo em si: as imagens em preto e branco, levemente desfocadas, sem muito sentido.

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Cena do filme O chamado

Um exemplo bem interessante de estranho que ilustra muitos filmes de terror é a figura do palhaço. Muitas pessoas têm fobia de palhaço. No entanto, ele faz as crianças rirem. Está presente nas festas infantis. É uma figura familiar. As fobias têm forte relação com o estranho. Algo do inconsciente vem à tona e se instala num objeto cotidiano, como insetos, animais de estimação, plantas, situações específicas como ficar em um ambiente pequeno, por exemplo. O estranho não pode ser traduzido em palavras e auxilia muito o processo psicanalítico por se tratar de algo que gera desconforto e também por ser algo que vem do inconsciente.

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Apesar de lindas e inofensivas, a fobia por borboletas é bastante comum

Um ótimo exemplo literário sobre o estranho é o conto O gato preto, de Edgar Allan Poe. O animal de estimação que mais despertava amor em seu dono, passou a ser seu maior objeto de repulsa e ódio. O romance Outra volta do parafuso, de Henry James, nos assusta muito mais por aquilo que não é dito, mas que causa estranhamento por atiçar a nossa imaginação. Os livros de Stephen King utilizam muito o conceito do familiar como perigoso. Basta pensarmos no pai do livro O iluminado e na mãe de Carrie. Podemos pensar também em Cujo, um cachorro São Bernardo, uma raça bondosa e calma, que se reverte numa fera.

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Cena do filme argentino O gato desaparece, baseado no conto O gato preto.

O filme australiano The Babadock, além de trabalhar a questão da loucura a dois, nos remete constantemente à questão do estranho. Não é à toa que quase toda a trama acontece dentro de casa. O estranho também tem relação com o oculto, com aquilo que fica nas entrelinhas.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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