cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Mother e o cinema alegórico de Darren Aronofsky

Como uma boa alegoria , existe uma grande dose de surrealismo no filme , o que , talvez , remeta a ideia de que a personagem protagonista seja uma psicótica que enxerga a todos os dramas e quebras de privacidade de uma forma muito mais exagerada. Talvez , o filme seja a simbologia do relacionamento amoroso entre um narcisista e uma psicótica. Como Nina de Cisne negro, a personagem mãe parece sempre assustada , mergulhada num mundo hostil e cheio de perigos. A própria confusão que acontece na casa pode ser uma metáfora da psiquê da personagem, que não possui limites entre o sonho e a realidade. De certa forma , o filme é metalinguístico também porque faz parte da linguagem do cinema o caráter onírico, a não distinção entre sonho e realidade.


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O mais recente filme de Darren Aronofsky , Mother, têm despertado reações acaloradas do público em geral e gerado inúmeras críticas cinematográficas. Algumas bastante questionáveis por se basearem unicamente no gosto pessoal de quem escreve.

Este artigo intenciona servir como um pequeno guia para quem deseja adentrar no universo alegórico do cineasta de Cisne negro e Réquiem para um sonho. Em Cisne negro, já era bem perceptível a presença de muitas metáforas. Isto é , nem tudo o que aparece na tela é o que o diretor pretende mostrar. É preciso decodificar os signos , tentar entender o que existe por detrás das simbologias. São obras que vão se revelando a cada apreciação. A cada vez que assistimos a um filme alegórico , percebemos um detalhe a mais , deciframos mais uma simbologia e o que em princípio pareceu confuso e caótico vai se elucidando, embora alguns mistérios sempre permaneçam porque a matéria-prima de filmes alegóricos é o estranhamento.

Filmes como Cisne negro e Mother não devem ser vistos como uma crônica , mas sim, como uma poesia ou um quadro abstrato. Nem tudo numa poesia pode ser entendido racionalmente. Algumas coisas precisam ser simplesmente sentidas, tocar o campo do real , como se diz em Psicanálise.

Quem encarou Mother como um filme realista , se revoltou ou ficou completamente perdido. O próprio diretor , em uma entrevista, afirmou que Mother era uma alegoria do planeta Terra sendo destruído pelas pessoas.

Como toda obra de arte permite diversas interpretações , farei a minha baseada em alguns pressupostos estéticos, psicanalíticos e sociológicos.

Para Freud , a figura da casa , principalmente a parte interna , tem relação com a sexualidade. Começamos o filme com uma jovem e bela mulher tentando seduzir o marido sem sucesso. Pouco tempo depois , esta mesma mulher tenta encontrar a cor ideal para pintar paredes arruinadas. Esta mesma mulher não tem um nome. Nenhum personagem tem um nome pois representam algo maior , são arquetípicos, são alegóricos.

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A personagem mãe tenta cuidar da casa da melhor forma possível, mas o marido não faz nada para ajudá-la , muito pelo contrário. Enquanto ela restaura , ele abre as portas para estranhos e para todo o caos que segue a entrada dos desconhecidos. A casa pode ser vista como uma metáfora do relacionamento afetivo. Para ela , é a coisa mais valiosa da vida , mas o marido nada faz para preservá-lo , levando-o à destruição.

O filme me pareceu uma feroz crítica à falta de limites entre o público e o privado. O marido, poeta de sucesso, permite que fãs enlouquecidos , jornalistas famintos por entrevistas invadam sem pudor algum a sua privacidade , desestruturando a vida do casal e transformando em espetáculo as situações mais íntimas. A esposa é um mero objeto decorativo para ele. Como ela mesma afirma no final da trama , ele não a ama . Ele ama o amor que ela sente por ele.

A pia da cozinha não está chumbada. Por tal motivo , ela pede insistentemente que os convidados do marido não se sentem nela. A pia não chumbada , portanto frágil, parece mais uma metáfora de uma relação amorosa que ainda não se sedimentou. Interferências externas num relacionamento não sedimentado podem ser devastadoras.

Como uma boa alegoria , existe uma grande dose de surrealismo no filme , o que , talvez , remeta a ideia de que a personagem protagonista seja uma psicótica que enxerga a todos os dramas e quebras de privacidade de uma forma muito mais exagerada. Talvez , o filme seja a simbologia do relacionamento amoroso entre um narcisista e uma psicótica. Como Nina de Cisne negro, a personagem mãe parece sempre assustada , mergulhada num mundo hostil e cheio de perigos. A própria confusão que acontece na casa pode ser uma metáfora da psiquê da personagem, que não possui limites entre o sonho e a realidade. De certa forma , o filme é metalinguístico também porque faz parte da linguagem do cinema o caráter onírico, a não distinção entre sonho e realidade. No final, quando a personagem acorda , nos deparamos novamente com a questão do sonho e do inconsciente.

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Falando ainda em metáfora da psiquê , talvez , a personagem vivida por Michelle Pheiffer , chamada de mulher , represente mais do que o arquétipo da mulher que tem filhos , mas que também deseja ferozmente no sentido sexual. Talvez , ela simbolize o superego da mãe, pois é ela quem vai jogando as "verdades mais duras" na cara da personagem.

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Além de criticar a sociedade do espetáculo e a transformação de celebridades em deuses, o filme parece fazer também uma crítica ao próprio sistema de pensamento religioso. E por pensamento religioso , entende-se algo que vai muito além das próprias religiões. Inclui-se qualquer tipo de pensamento dogmático e que cultua ídolos. É um filme iconoclasta. Em certo sentido, me pareceu um filme nietzschiano...independente de qualquer opinião , de qualquer crítica positiva ou negativa , vale a pena vivenciar esta experiência cinematográfica , que é sempre algo muito subjetivo e sensorial.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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