cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu.

Elle : o lado perigoso do desejo

A personagem vivida por Huppert, a bem-sucedida e arrogante empresária Michéle, sofre um estupro em sua própria casa , mas o que deveria traumatizá-la e torná-la desesperada e infeliz , passa como um simples incidente narrado durante um jantar com o seu ex-marido e um casal de amigos.


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O filme francês Elle, de 2016, dirigido por Paul Verhoeven, que concedeu a Isabelle Huppert uma indicação ao Oscar de melhor atriz, mostra um lado do desejo muito perigoso e angustiante. Sim, Elle fala sobre o prazer na dor , na humilhação. Elle é um filme sobre uma relação sadomasoquista levada a extremos , com consequências trágicas.

Freud trabalhava com dualidades: Voyeurismo X Exibicionismo, Ativo X Passivo e Sadismo X Masoquismo. Para o Pai da Psicanálise , todos nós temos tudo dentro de nós , mas uma das funções aparece recalcada e a outra se externaliza. Portanto, para Freud, todo sádico é um masoquista recalcado e todo masoquista é um sádico recalcado. Enfim, o masoquista nada mais que um sádico que volta contra si próprio todo o seu desejo de violência e crueldade.

A personagem vivida por Huppert, a bem-sucedida e arrogante empresária Michéle, sofre um estupro em sua própria casa , mas o que deveria traumatizá-la e torná-la desesperada e infeliz , passa como um simples incidente narrado durante um jantar com o seu ex-marido e um casal de amigos.

A frieza e despreocupação com que conta o fato choca os ouvintes. Em princípio, ela parece estar vivendo um processo de negação da dor . Mas , conforme a trama vai se desenrolando o lado sombrio de Michéle vai surgindo , até tomar proporções homéricas.

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Com o desenrolar da trama , podemos perceber que ela é mais sádica do que o seu algoz , que concentra toda a sua crueldade durante o ato sexual. Michéle não. Se no sexo ela é masoquista e passiva , no dia a dia , ela é déspota e controladora, uma perita em causar angústia nas pessoas.

A casa onde vive a protagonista , grande e imponente , cheia de janelas , numa rua elegante e respeitável nos remete ao mundo externo , cheio de hipocrisias e máscaras sociais, que tanto destoa da realidade íntima das pessoas , cheia de dicotomias e notas destoantes. Seu gatinho de estimação, frio e indiferente como a própria dona , que a tudo assiste sem nada fazer , pode ser visto como mais uma metáfora de Michéle que não se abala com o sofrimento que provoca nos outros e nem com a dor que sente.

Em uma cena ocorrida num porão, podemos encontrar outra simbologia do mundo subterrâneo de nossa sexualidade cheia de pontas soltas. Em outra cena , quando Michèle e seu vizinho fecham com dificuldade as janelas de sua casa durante uma ventania , nos deparamos com uma das mais belas e vigorosas metáforas do filme: o desejo é uma força da natureza , portanto incontrolável.

Alguns críticos consideraram o desfecho de Elle um ato de vingança da protagonista ultrajada. Para mim, o buraco é bem mais embaixo. Mais do que se vingar , Michéle golpeia o seu próprio desejo , aquilo que ela não pode conter nela mesma e que é detonado por meio do outro.

Um filme intimista , tenso e denso sobre a imprevisibilidade do desejo.


Sílvia Marques

Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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