cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Sou Professora Doutora em Comunicação e Semiótica , escritora e psicanalista lacaniana. Idealizadora do curso de Pós-graduação em Cinema do Complexo FMU e indicada ao Prêmio Jabuti em 2013. Autora do blog Garota desbocada. Meu canal no You Tube é Sílvia Marques Garota desbocada.

O nevoeiro ou a metáfora de estar no mundo

O artigo apresenta alguns spoilers. King transforma o banal e cotidiano em algo extremamente ameaçador. Basta pensarmos no cachorro Cujo. Mais do que isso: King apresenta os nossos pensamentos como os piores algozes. Sua obra fala principalmente sobre a nossa culpa. Sobre o que calamos , sobre o que revelamos. Sobre as mentiras que contamos a nós mesmos e principalmente sobre a hipocrisia social que faz vista grossa para os crimes dos poderosos e coloca num altar as falsas virtudes em detrimento a tudo que é espontâneo e intenso.


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Imagem de O nevoeiro, série Netflix baseada em conto de Stephen King

O nevoeiro parecia mais uma série sinistra exibida pelo Netflix para prender o espectador no sofá por algumas horas. Mas , quando se trata de algo baseado em Stephen King, vale a pena um olhar mais atencioso. King não assusta por assustar. Sua obra não é construída sobre uma sequência de cenas meramente grotescas e bizarras. Embora exista muito de estranho e visualmente apavorante em filmes inspirados em seus livros , sempre paira no ar um clima de questionamento , de enfrentamento dos nossos fantasmas e demônios interiores e particulares.

King transforma o banal e cotidiano em algo extremamente ameaçador. Basta pensarmos no cachorro Cujo. Mais do que isso: King apresenta os nossos pensamentos como os piores algozes. Sua obra fala principalmente sobre a nossa culpa. Sobre o que calamos , sobre o que revelamos. Sobre as mentiras que contamos a nós mesmos e principalmente sobre a hipocrisia social que faz vista grossa para os crimes dos poderosos e coloca num altar as falsas virtudes em detrimento a tudo que é espontâneo e intenso.

Pessoas consideradas de "bem" afundam em seus vícios e crueldades enquanto julgam sem piedade quem ousa desviar um milímetro do script social. Em O nevoeiro, uma estranha tragédia natural começa a matar de forma aparentemente aleatória. As pessoas se perguntam o porquê da morte de alguns e da sobrevivência de outros. Por que , por exemplo, o nevoeiro engoliu uma menina e poupou uma adolescente? O nevoeiro leva com ele os mais inocentes ou os que têm algum tipo de culpa? A menina inocente não poderia , talvez , estar expiando a culpa da mãe, que é altamente julgadora?

A personagem Nathalie, vivida pela atriz Frances Conroy, estabelece uma espécie de antagonismo com o padre local, pois encontra para o nevoeiro explicações que divergem da proposta pelo Catolicismo. No embate, Nathalie vence, deixando para o espectador o seguinte questionamento: o nevoeiro é uma vingança da natureza ultrajada? O nevoeiro é uma série ambientalista?

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Frances Conroy como Nathalie: mística e complexa

Uma cena bastante perturbadora é quando a bondosa Nathalie recusa ajudar um homem que se feriu gravemente. Ela prossegue na sua caminhada ao lado do policial , alegando que faz parte das leis naturais deixar para trás os animais feridos. Neste momento , mais uma questão se abre: o natural é necessariamente bom?

Além da questão ambiental , me parece que O nevoeiro faz uma crítica feroz ao pensamento dogmático e brinca com a possibilidade do acaso. Talvez , o nevoeiro seja uma metáfora da própria vida cheia de desencontros , repleta por perguntas sem resposta e situações aparentemente injustas e sem sentido. Buscar respostas conclusivas para o mistério da vida pode ser o atalho para a loucura e para o desespero.


Sílvia Marques

Sou Professora Doutora em Comunicação e Semiótica , escritora e psicanalista lacaniana. Idealizadora do curso de Pós-graduação em Cinema do Complexo FMU e indicada ao Prêmio Jabuti em 2013. Autora do blog Garota desbocada. Meu canal no You Tube é Sílvia Marques Garota desbocada. .
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