cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

De olhos bem fechados: um filme para abrir os olhos

A sequência do ritual erótico que o Dr. Bill assiste sem ter sido convidado, com mulheres mascaradas e de corpos esguios nos remete a ideia de que o sexo é um tema misterioso e assustador. Nos remete também ao próprio voyeurismo dos cineastas e dos cinéfilos. De certa forma , todo cinéfilo é um voyeur.


Thumbnail image for De-Olhos-Bem-Fechados.jpg

De olhos bem fechados , último filme dirigido pelo célebre Stanley Kubrick de 2001 e Laranja mecânica, recupera a aura assustadora de O iluminado, mas sem focar na relação entre pai e filho. A bola da vez deste angustiante filme é a dinâmica entre marido e mulher. O filme começa com o casal vivido por Tom Cruise e Nicole Kidman se preparando para uma festa ao som da música Suíte para Orquestra de Jazz número 2, composta por Dmitri Schostakovich.

Transitando pela bela casa com seus trajes impecáveis , parecem o casal perfeito: atraentes , elegantes , bem-sucedidos e polidos. Mas , quando Dr. Bill desliga a música antes de sair do quarto e descobrimos que a trilha era incidental, podemos perceber que talvez a vida de ambos não fosse tão harmoniosa como uma música erudita.

Para Kubrick, cinema era montagem e trilha sonora. E por trilha sonora , entende-se qualquer tipo de ruído. Basta pensarmos na apavorante sequência de O iluminado, em que o garotinho protagonista anda de velotrol pelo hotel, alternando momentos de ruído quando passa pelo assoalho de madeira e outros de silêncio quando passa pelos tapetes.

Em um filme , quando a trilha não é incidental , ela sugere o estado de espírito dos personagens. Em De olhos bem fechados a trilha inicial é incidental, enfim, foi colocada pelo personagem. Tal fato demonstra que aquela aura plácida e refinada é apenas um disfarce. É algo artificial.

Durante a festa , Alice , esposa de Dr. Bill é assediada por um homem mais velho enquanto ele se diverte num joguinho de sedução com duas jovens modelos.

Depois de voltarem da festa , o casal protagonista tem uma relação sexual. Mas enquanto Dr. Bill se entrega ao ato, Alice olha fixamente para o espelho. Como diria o cineasta do tédio Michelangelo Antonioni , as mulheres são muito mais lúcidas nas relações amorosas.

Em uma outra noite , enquanto fumam um baseado, Alice questiona o marido a respeito das jovens modelos e é questionada sobre o homem mais velho que a seduziu. Mas fica nítido para o espectador e para Alice que Dr Bill não sente ciúme algum. A conversa prossegue e ele realmente admite não sentir ciúme da esposa por ela ser sua esposa. Ele a considera uma partida ganha e tal fato a machuca muito mais do que o flerte com as jovens modelos.

Alice narra um episódio da sua vida que acaba afetando a relação de ambos. Ela conta sobre um homem por quem ela teria deixado tudo. A partir deste relato, Dr. Bill entra numa espiral erótica que se assemelha a um pesadelo. Porém, ele não faz sexo com ninguém, o que provavelmente indique , que muito mais do que prazer físico, ele busca o mistério perdido durante os 9 anos de casamento.

Com uma fotografia primorosa , as cores vão mapeando as emoções e papeis sociais dos personagens. Vemos Nicole Kidman envolta numa fria luz azul enquanto fala ao telefone com o marido, preocupada com o seu atraso, com ares de dona de casa e mãe de família. Na cena seguinte , uma iluminação amarelada envolve Dr. Bill com uma sedutora prostituta.

A sequência do ritual erótico que o Dr. Bill assiste sem ter sido convidado, com mulheres mascaradas e de corpos esguios nos remete a ideia de que o sexo é um tema misterioso e assustador. Nos remete também ao próprio voyeurismo dos cineastas e dos cinéfilos. De certa forma , todo cinéfilo é um voyeur.

De olhos bem fechados é um filme para quem não tem medo de abrir os olhos para as mazelas das relações e para a imprevisibilidade do desejo.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Sílvia Marques