cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

Corra! : uma crítica contundente à objetificação do homem negro

Com referências à hipnose, com cenas que nos conduzem à uma aura onírica, Corra! nos faz mergulhar num verdadeiro pesadelo. Provavelmente , uma das cenas mais dramáticas e aterrorizantes simultaneamente, é quando vemos num primeiro plano o rosto de Georgina , divido entre as lágrimas espontâneas de uma mulher subjugada e a polidez arrogante de uma déspota.


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Quem assistiu Corra! esperando levar sustos homéricos ou ver cenas bizarras carregadas de efeitos especiais , provavelmente se desapontou. Sim, Corra! é um filme de terror, mas não do tipo que nos conduz à uma catarse fácil. Não do tipo que nos prende a atenção por 100 minutos e depois o esquecemos.

Por meio de uma mescla de terror com ficção científica, Corra! bota o dedo em uma ferida muito antiga e dolorida: o sentimento de superioridade do caucasiano sobre o negro e o racismo subliminar.

A trama gira em torno de uma perversa família caucasiana que levou adiante um projeto criado pelo patriarca. O objetivo do projeto é unir a vitalidade física dos negros com a determinação caucasiana. O termo determinação foi utilizado no filme. Em suma: quem criou o projeto e quem o executa acredita que do negro pode-se aproveitar apenas qualidades físicas como força muscular , boa capacidade para os esportes, melhor desempenho sexual. Aos caucasianos , cabe ofertar à inteligencia, à capacidade de liderar , à chamada determinação.

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Casal Armitage

Mais do que racista , é uma perspectiva muito semelhante ao olhar dos nazistas que não se contentavam em subjugar povos. Eles intencionavam o extermínio dos mesmos. No racismo existe um desejo de dominação, de impor a superioridade de um povo sobre outros. Em Corra! vemos praticamente uma tentativa de extermínio, mesmo que numa pequena escala.

O filme trabalha com duas questões de vital importância:

1. A arrogância de muitos caucasianos que se consideram mais inteligentes do que os negros

2. A objetificação do homem negro

Sobre a primeira questão, vale ressaltar que muitas pessoas ainda acreditam que as ciências, a filosofia e as artes eruditas são áreas de atuação exclusiva dos brancos. Aos negros restam as manifestações artísticas populares e os esportes. Porém, o que sabemos sobre a produção acadêmica , filosófica e artística de outros povos que não sejam os europeus? Na escola , quando estudamos História Geral, nada mais aprendemos do que a História da Europa. O que lemos , o que conhecemos sobre autores africanos , muçulmanos , orientais?

Ainda , prioriza-se o dito e o estabelecido pelo homem branco ocidental. E se este mesmo homem já estiver morto, mais valor tem a sua produção.

Sobre a segunda questão, em nossa cultura , o homem negro é visto como objeto sexual, desejado por suas qualidades físicas, despido de um olhar intelectual, num processo muito semelhante ao ocorrido com as mulheres de aparência atraente. A intelectualidade e inteligência cabem às mulheres sem atributos físicos. Como os negros, uma mulher atraente , normalmente, é vista com desconfiança quando tenta se impor como uma intelectual ou como uma artista.

Com referências à hipnose, com cenas que nos conduzem à uma aura onírica, Corra! nos faz mergulhar num verdadeiro pesadelo. Provavelmente , uma das cenas mais dramáticas e aterrorizantes simultaneamente, é quando vemos num primeiro plano o rosto de Georgina , dividido entre as lágrimas espontâneas de uma mulher subjugada e a polidez arrogante de uma déspota.

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Georgina

Quase toda trama acontece na propriedade do casal Armitage e este simples elemento já nos faz pensar na própria questão das patologias familiares. Como os membros de uma família alimentam nos outros membros uma série de dinâmicas neuróticas ou até mesmo psicóticas ou perversas.

Outro detalhe que merece destaque é o aparelho de televisão utilizado para fazer a lavagem cerebral. O filme parece criticar também a interferência não só das mídias em nossa maneira de pensar e agir , mas também qualquer tipo de filosofia de vida que visa sugestionar e de certa forma adestrar as pessoas por meio do controle de suas mentes. Entram nesta categoria as terapias milagrosas que prometem resultados fantásticos em dez ou doze sessões, os livros de autoajuda.

Corra! é um sopro de ar fresco para o gênero terror , tão banalizado ultimamente pelo abuso dos efeitos especiais e pelo excesso de cenas visualmente grotescas, sem um conteúdo profundo e crítico por trás.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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