cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com

It: a coisa ou uma metáfora de todos os monstros da sociedade

Como é típico na obra de King, o terror nunca vem desconexo de uma mensagem maior , de uma questão dramática e humanista. Muito mais do que um filme de terror sobrenatural, o palhaço Pennywise parece realmente uma metáfora de todos os monstros que existem na sociedade.


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O remake do filme It : a coisa , baseado no romance de Stephen King, em um primeiro momento é mais um filme de terror , que se aproveita de uma fobia bastante comum para fazer as pessoas sentirem medo: o palhaço aparentemente bonzinho e divertido que se mostra um perverso e horrendo monstro.

Porém, como é típico na obra de King, o terror nunca vem desconexo de uma mensagem maior , de uma questão dramática e humanista. Muito mais do que um filme de terror sobrenatural, o palhaço Pennywise parece realmente uma metáfora de todos os monstros que existem na sociedade.

Temos em It situações altamente aterrorizantes que nada têm a ver com o palhaço. Temos um pedófilo, que faz a filha adolescente cortar os lindos cabelos ruivos para ficar menos atraente aos olhos do pai. Esta mesma adolescente é perseguida por colegas de escola que jogam lixo sobre ela. Temos o pai de Stanley, um rabino que exige do filho um profundo conhecimento religioso, de forma rude. Stanley morre de medo de um quadro muito estranho. O quadro apresentado no filme foi baseado em pinturas do artista italiano Amadeo Modigliani.

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Temos o ultra perverso Henry que com mais três colegas promovem o tipo mais violento de bullying. Temos a mãe de Eddie, uma mulher superprotetora no pior sentido do termo , que para manipular o filho instiga no mesmo a hipocondria. Temos o avô de Mike que força o garoto a trabalhar num matadouro.

Adultos manipuladores , autoritários e desajustados. Jovens violentos e sádicos. O pesado universo onde vivem os adolescentes protagonistas do filme parece representado pelo palhaço Pennywise. É como se o palhaço encarnasse os piores pesadelos de cada personagem. Para vencer Pennywise , os garotos precisaram enfrentar seus próprios medos e fantasmas interiores. Eddie precisou fugir do controle da mãe dominadora. Beverly precisou enfrentar o pai pedófilo. Ben se socializou, Finn lutou contra seu individualismo, Mike descobriu seu lado mais ativo, Stanley enfrentou o medo do quadro, Bill não se deixou levar pela saudade que sentia pelo irmãozinho Georgie, devorado por Pennywise.

Outro elemento muito interessante , que merece destaque , é mostrar uma criança sendo punida por falar com um estranho. O perigo de falar com estranhos na infância nunca deixa por completo de existir em nossa vida. O estranho não precisa necessariamente ser um malfeitor, mas qualquer pessoa ou qualquer coisa que venha a desorganizar o controle da vida adulta.


Sílvia Marques

Profa. Doutora, escritora e psicanalista lacaniana. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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