cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

Medo e antipatia excessiva por gatos ou o receio de amores muito independentes

Os gatos estão muito relacionados ao mistério , ao oculto. Mais do que isso: estão relacionados a tudo aquilo que não podemos prever nem controlar. Vou mais longe ainda: Gatos nos ameaçam pois são mais independentes afetivamente do que cachorros , exigem menos cuidados, nos amam com mais liberdade. Toda esta conduta desprendida dos pequenos felinos pode inconscientemente nos remeter a amantes que nos desejam com mais desprendimento. Amantes que apesar de nos quererem em sua vida , precisam do seu espaço, da sua autonomia. A independência do outro põe em dúvida se somos amados, cutuca as nossas feridas da carência.


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Ok.Ok.Ok. Gatos são felinos e se assemelham em muito com seus primos pouco amistosos. Ok.Ok.Ok. Muitos filmes de terror utilizam gatos e tais imagens grudam na nossa memória. Por outro lado, existe algo de muito instigante na antipatia excessiva que muitas pessoas sentem pelos gatos. Gostar de cachorro é normal. Gostar de gatos gera preconceito em muitas pessoas que consideram seus admiradores e donos como pessoas mais frias e egoístas.

Psicanaliticamente falando, entendemos que as fobias carregam um conteúdo simbólico. Como assim? Muitas pessoas morrem de medo de borboletas mesmo sabendo que elas são inofensivas. Muitos outros temem os palhaços e/ou bonecas. Existem os que se apavoram diante da possibilidade de ficarem presos em pequenos ambientes. Ou ainda que temem qualquer tipo de exposição social. As fobias são muitas. O mais importante é compreender que o problema não reside nas borboletas , nos gatos ou nos palhaços. Tais objetos representam algo para quem sente medo. Algo que a pessoa não consegue identificar.

Os gatos estão muito relacionados ao mistério , ao oculto. Mais do que isso: estão relacionados a tudo aquilo que não podemos prever nem controlar. Vou mais longe: Gatos nos ameaçam pois são mais independentes afetivamente do que cachorros , exigem menos cuidados, nos amam com mais liberdade. Toda esta conduta desprendida dos pequenos felinos pode inconscientemente nos remeter a amantes que nos desejam com mais desprendimento. Amantes que apesar de nos quererem em sua vida , precisam do seu espaço, da sua autonomia. A independência do outro põe em dúvida se somos amados, cutuca as nossas feridas de carência.

Vou mais longe ainda: quantas pessoas que não aceitam a própria independência não podem se incomodar com os bichanos pois veem neles toda a liberdade que negam para si mesmos? Fazemos parte de uma cultura que enaltece a subserviência, a falsa modéstia e confundimos amor com dependência afetiva. Identificar-se com um gato é admitir que o amor é maravilhoso, mas que temos nossas necessidades individuais. É dizer para si mesmo que não é preciso estar junto o tempo todo com a pessoa amada para viver o amor, que precisamos dos nossos momentos de solidão, que às vezes queremos pensar apenas na gente.

Além da independência , gatos estão muito associados à sensualidade/sexualidade. Inconscientemente falando, o gato pode incomodar aqueles que temem a própria sexualidade ou investem pouco na sensualidade.

Cachorros e gatos são fascinantes de formas diferentes. Os primeiros , talvez , por tudo que idealizamos. Os segundos , por tudo que podemos de fato ser.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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