cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

A felicidade não cabe nos padrões. Ela transborda.

Enquanto insistirmos em sermos juízes do amor alheio, deixaremos de viver o nosso. Enquanto insistirmos em definir o que é normal, o que é saudável, o que o outro deve fazer ou deixar de fazer , esqueceremos de cultivar os nossos próprios sonhos , a nossa própria vida.


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Imagem do filme Ensina-me a viver

A felicidade não cabe nos padrões. Ela transborda. Quando falo padrões me refiro aos padrões sociais , a esta presença invisível que paira sobre a cabeça de todos dizendo o que devemos fazer , o que é normal sentir , qual tipo de amor tem o direito de acontecer.

Como um juíz implacável ou um rei absolutista , os padrões sociais formulam para todos um único modo de viver. Tudo o que escapa um milímetro da receita estipulada por esta força sem rosto deve ser rechaçado.

Vejo pessoas se depreciando, infelizes , desorientadas , porque não conseguem viver , sentir , pensar e se expressar exatamente como a maioria das pessoas vive e se expressa. Como a maioria das pessoas afirma sentir e pensar. Mas o que é ser normal? Quem é realmente normal? E se fosse possível atingir este selo de qualidade da normalidade , será que não seríamos pessoas chatérrimas, com vidas completamente previsíveis e torturantes por excesso de perfeição? Como diria Deleuze, muitas vezes , somos amados pelo nosso toque de "loucura".

Enquanto insistirmos em defender receitas fechadas , fórmulas moralistas , padronizadas , que desconsideram a subjetividade alheia , iremos reforçar uma sociedade doente, incapaz de vivenciar a alteridade , incapaz de sentir compaixão e respeito. Incapaz de viver o amor . Incapaz de usufruir da própria sexualidade. Cegos para o próprio desejo.

Enquanto insistirmos em sermos juízes do amor alheio, deixaremos de viver o nosso. Enquanto insistirmos em definir o que é normal, o que é saudável, o que o outro deve fazer ou deixar de fazer , esqueceremos de cultivar os nossos próprios sonhos , a nossa própria vida.

Não. A felicidade não cabe em padrões. Para algumas pessoas , até pode ser. Por que não? Algumas pessoas podem realmente se sentir muito bem vivendo de acordo com um rígido script social. Mas , me parece que a maioria , deseja algo além daquilo que foi ensinado e estipulado. Algo além daquilo que foi permitido, autorizado.

Quanto mais vivermos o nosso próprio desejo com todo o esplendor da sua singularidade , menos nos importaremos com o desejo alheio. Como se diz , quando apontamos um dedo para o outro, apontamos quatro para nós.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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