cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

O verdadeiro sucesso é ser feliz: uma divagação em primeira pessoa

Acho que prosperei pois me tornei a pessoa que gostaria de ser. Aprendi a respeitar os meus defeitos e a me orgulhar pelas minhas qualidades. Fiz as pazes com o meu passado e deixei de projetar o futuro. Me tornei o tipo de pessoa que eu acho que vale a pena conhecer.


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Os conceitos de sucesso e fracasso me parecem muito relativos. A gente, quando mais jovem, se cobra demais. Confunde felicidade com cumprir metas, protocolos, atender às expectativas alheias.

Ser feliz é mais do que receber uma promoção na empresa, trocar o carro todo ano, comprar uma casa. Não desmereço o conforto das conquistas materiais até mesmo porque o dinheiro viabiliza muitas coisas importantes sim. O problema é achar que o dinheiro vai resolver tudo. Mais do que isso: o problema é pensar que existe um receituário para viver, um manual dividido em dez passos.

Eu cheguei aos 40 anos sem estabilidade financeira, desafio que ainda preciso vencer. Não faço o estilo Barbie nem estou casada nem tenho filhos. Fracassei? Depende do ponto de vista! Aos trinta anos, se pudesse me ver como sou hoje por meio de uma bola de cristal, ficaria horrorizada. Mas atualmente, acho que prosperei.

Não tenho casa própria nem carro. Para falar a verdade, nem dirijo. Há muitos anos, não uso mais manequim 38. Mas vivo um relacionamento por amor. Meu namorado e eu nos aceitamos com as nossas imperfeições. Compartilhamos de muitas ideias e gostos em comum e conseguimos nos sentir bem fazendo coisas simples juntos como assistir a um filme cult ou dormir abraçados. Ele sempre diz que estou linda quando me vê e me acha muito inteligente. Ele adora filosofia e psicanálise. E eu amo isso.

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Acho que prosperei pois boto libido em tudo que faço: desde a montagem de um espetáculo teatral até o cozimento de uma sopa de legumes, passando pela escritura de um artigo psicanalítico e pela exibição de uma palestra. Me expresso por meio da minha fala, da minha escrita, das minhas panelas.

Acho que prosperei pois me tornei a pessoa que gostaria de ser. Aprendi a respeitar os meus defeitos e a me orgulhar pelas minhas qualidades. Fiz as pazes com o meu passado e deixei de projetar o futuro. Me tornei o tipo de pessoa que eu acho que vale a pena conhecer.

Descobri que planejamentos são muito bons, mas a curto prazo. Descobri que não quero ser mãe por n motivos. Fico realmente aliviada por não ter tido filhos na mocidade quando eu imaginava os desejar. E que me identifico mais com gatos do que com cachorros. Descobri que algumas amizades se desfazem mesmo, sozinhas, com o tempo e que investir no próprio prazer é o que faz a vida vibrar. Descobri que não preciso de um papel para confirmar o meu amor nem de uma prática religiosa para fazer o bem. Mas respeito quem pensa desta forma. Até mesmo porque já pensei assim.

Descobri que ser feliz não é ter tudo para sempre, mas é saber usufruir de tudo enquanto a vida nos permite. Descobri que assumir responsabilidades e sermos prestativos no ambiente em que vivemos, é para mim, o melhor antídoto contra a depressão. Descobri que só vale a pena argumentar com quem tem abertura para ouvir.

Acho que prosperei pois voltei a falar e a escrever em primeira pessoa e não me vejo mais como uma vítima de um destino cruel. Como muitas pessoas , fiz escolhas erradas , apenas isso.

Sim, acho que prosperei. Digo acho porque não intenciono fechar com grandes verdades. Descobri que quase nunca temos certeza de nada.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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