cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

Atendo adolescentes e adultos em São Paulo.
www.psicanalistasilviamarques.com

A intimidade do amor nos desnuda

Já na intimidade do amor, a coisa muda de figura. Muda bem. A gente não pesa nem escolhe tanto as palavras e vinho bom é aquele que custa menos de 100 reais. A gente come bife com fritas e até mesmo miojo com queijo se der na telha. Não preciso parecer descolada. Nem convencional. O amor é o mais alto dos penhascos. O amor é a mais firme das terras.


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Primeiros encontros. Frio na barriga. Qual roupa vestir? Será que o decote está muito ousado? Ou certinho demais? Os brincos extravagantes de strass fazem o sorriso e os olhos brilharem mais. Pesamos as palavras juntamente com o menu do restaurante caro. Peço algo exótico para parecer descolada, estilo esta mulher vai me fazer cair de um penhasco sem paraquedas ou vou no tradicional mesmo para inspirar confiabilidade, estilo esta mulher é convencional e com ela pisarei em terra firme?

Agito os brincos enquanto falo sobre o meu trabalho. Não quero parecer confiante demais, workaholic, mas intenciono mostrar que faço o que amo. Sou do tipo que racha a conta, mas não faço um escândalo se o homem puxar a minha cadeira. Agito novamente os brincos enquanto falo de mim mesma. Não quero parecer sexy demais, perigosa, devoradora de homens, com taras malucas, mas intenciono mostrar que não tenho medo de pedir o que eu gosto. Ou o que eu imagino gostar. E que se ele tiver espírito de aventura, posso ser perigosa sim e machucá-lo, nem que seja por brincadeira e de leve. Após a sobremesa, saboreando a última taça de vinho, surge a pergunta que não quer calar: ser descolada e esticar o programa ou ser convencional e me despedir na porta do bistrô com aquele sorrisinho a la Mona Lisa?

Primeiros encontros são estressantes! Mas ao mesmo tempo, cheios de glamour, salpicados por mistério e expectativa. Podemos ser o que quisermos. Podemos conduzir o outro por um labirinto de meias luzes e meias verdades, flashes favoráveis de uma vida meio sem sal 95% do tempo. Posso parecer muito mais louca do que sou, muito mais perigosa, muito mais tudo o que não sou ou que sou moderadamente.

Já na intimidade do amor, a coisa muda de figura. Muda bem. A gente não pesa nem escolhe tanto as palavras e vinho bom é aquele que custa menos de 100 reais. A gente come bife com fritas e até mesmo miojo com queijo se der na telha. Não preciso parecer descolada. Nem convencional. O amor é o mais alto dos penhascos. O amor é a mais firme das terras. Posso ser sofisticada comendo burritos na cama, vestida com uma camisola de bolinhas. Posso ser descolada rindo de uma piada trash de alguma série da Netflix. Posso ser convencional guardando no micro-ondas as sobras da lasanha do almoço, para que ele tenha o que comer quando voltar cansado de um compromisso. Posso ser louca e perigosa quando me mostro como um quadro sem retoques. O amor é a maior das loucuras. Amor é filme surrealista , obra nonsense. Posso ser perigosa com um simples sorriso. Como diria Graham Greene, um sorriso é perigoso tanto durante um ato de ódio como num de amor.

Na intimidade do amor, também podemos ser o que quisermos, mas sem um script. A intimidade do amor desnuda todas as nossas possibilidades, desde as mais divas agitadoras de brincos de strass até as mais besuntadas por manteiga e afeto.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. Atendo adolescentes e adultos em São Paulo. www.psicanalistasilviamarques.com.
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