cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

Atendo adolescentes e adultos em São Paulo.
www.psicanalistasilviamarques.com

Sete filmes sobre o desejo de transcender

Muitas pessoas buscam o transcendental por meio da fé religiosa , por meio da esperança de outra existência que ainda virá. Outros passam pela vida sem pensar muito a respeito. E existem aqueles que tentam fazer algo especial neste plano: humano e limitado. É sobre esta categoria que pretendo falar neste artigo: os que tentam transcender por meio do trabalho, por meio da relação amorosa , da arte , do conhecimento etc


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Cena do filme Foi apenas um sonho, de Sam Mendes. Adaptado do romance Revolutionary road, de Richard Yates

Transcender vem do latim: transcendere. Trans= através. Scandere= escalar , subir , elevar. Transcender é se superar , é ultrapassar algum limite , ir além.

Muitas pessoas buscam o transcendental por meio da fé religiosa , por meio da esperança de outra existência que ainda virá. Outros passam pela vida sem pensar muito a respeito. E existem aqueles que tentam fazer algo especial neste plano: humano e limitado. É sobre esta categoria que pretendo falar neste artigo: os que tentam transcender por meio do trabalho, por meio da relação amorosa , da arte , do conhecimento etc

Já dizia Freud , que os mais nobres destinos das pulsões eram a sublimação por meio da arte e da ciência. A fome pelo saber e a capacidade de criar artisticamente são duas estratégias comumente utilizadas por pessoas que desejam ir além delas mesmas , de suas limitações , das limitações do senso comum, do status quo que dita regras e padrões.

Para Nietzsche , a arte era algo espetacular. Mas o sentido de arte para Nietzsche ia além das sete catalogadas ( em seu tempo produtivo, seis). Para ele, qualquer trabalho feito com paixão era artístico. O próprio sentido de arte nietzschiano era transcendental.

O atual artigo irá citar sete filmes que mostram personagens que desejam transcender e a sua importância para o desenvolvimento de uma forma de pensar mais crítica , mais irreverente , no bom sentido da palavra irreverente. Quebrar regras por quebrar , apenas para escandalizar ou gerar caos nada tem a ver com quebrar regras que tornam a nossa existência mais significativa.

A ordem dos filmes é alfabética.

1. A festa de Babette, de Gabriel Axel

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Esta belíssima obra dinamarquesa , vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1988, mostra uma mulher francesa que se refugia na casa de duas bondosas senhoras num pobre vilarejo da Dinamarca , no século 19. Babette, durante anos , esconde de suas benfeitoras que foi uma grande chef de cozinha em Paris e se restringe a fazer uma simples sopa todos os dias para agradar às senhoras. Apenas no final da trama , após receber um prêmio em dinheiro, prepara um jantar suntuoso para os moradores do vilarejo e transcende por meio da sua arte. A mais bela passagem deste filme é quando Babette afirma às senhoras que uma artista nunca é pobre.

2. A filha de Ryan, de David Lean

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Épico romântico de 1970, este filme pouco reconhecido pela crítica e pelo público, foi a obra favorita do seu diretor. Ambientado na República da Irlanda , no ano de 1916 , tendo como pano de fundo o conflito entre ingleses e irlandeses , A filha de Ryan tem como protagonista uma jovem mulher que deseja acima de tudo transcender por meio do amor. Uma das mais belas passagens do filme é quando o padre pergunta o que ela espera do casamento e Rose olha para o céu enquanto passa uma revoada de pássaros. A presença constante do mar durante os passeios solitários de Rose , durante seus encontros fortuitos com o amante , nos remete o tempo todo às forças da natureza, ao inevitável, ao próprio feminino: fluido e devastador. A filha de Ryan combina magistralmente elementos do cinema comercial com elementos do cinema de arte. Infelizmente , um filme incompreendido.

3. Cisne negro, de Darren Aronofsky

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Este sombrio e intenso filme sobre o duplo, mostra o pesadelo interior de uma bailarina esquizofrência paranoide, ultra perfeccionista , que começa a se deparar com ela mesma , com o seu lado B enquanto compõe o personagem cisne negro para o balé O lago dos cisnes. Nina que no início do filme parecia ser capaz de viver apenas o cisne branco por ela mesma ser doce e cordata , começa a se tornar o cisne negro no decorrer da trama. Mais do que isso: começamos a perceber que talvez o cisne branco nunca tenha existido de fato, foi apenas uma invenção proposta pela mãe de Nina. A protagonista deste filme tenta transcender por meio da arte: o encontro ideal entre a técnica apurada e a paixão.

4. Foi apenas um sonho, de Sam Mendes

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Neste tenso e visceral filme sobre o fracasso do American way of life , baseado no contundente romance de Richard Yates , temos April, uma mulher passional e intensa , que não se contenta com o casamento e a maternidade. Ela quer transcender , mas não sabe exatamente como. Deposita suas esperanças em Paris. Imagina que por meio da cidade luz e da descoberta de uma possível vocação do marido, ela possa ir além, já que fracassou no seu sonho de ser atriz. April tenta com todas as forças pegar a Estrada revolucionária.

5. O piano, de Jane Campion

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Vencedor do Oscar de melhor filme em 1994, O piano mescla com maestria poesia e erotismo, por meio da enigmática personagem Ada , vivida por Holly Hunter , também premiada como melhor atriz por esta obra. Mais do que um filme sobre o amor, O piano fala sobre o feminino e seu universo insondável. É sobre uma mulher que se expressa por meio do seu piano, que transcende por meio do seu piano e da possibilidade de experenciar os mistérios do seu feminino.

6. Paixão proibida, de Michael Winterbottom

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Neste melanólico e sensível filme , baseado na célebre obra naturalista de Thomas Hardy , Judas , o obscuro, vemos a tragédia de um homem que quer transcender por meio do conhecimento, mas por pertencer a uma sociedade sem mobilidade, a inglesa do século 19 , precisa viver a vida inteira como um artesão. Judas acreditava que poderia ir além se tornando um acadêmico. De certa forma , Sue , personagem vivida por Kate Winslet também deseja transcender, mas por meio do seu senso de liberdade , por meio do questionamento que faz ao próprio sistema em que vive.

7. Sociedade dos poetas mortos, de Peter Weir

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Este tocante filme sobre um professor que leciona para garotos em uma tradicional escola dos anos 1950 é um belo exemplo de obra que fala sobre o desejo de transcender. John Keating , vivido por Robin Williams , de certa forma , tentou transcender por meio de seus alunos , por meio da possibilidade de ver os seus alunos transcendendo.

Nem sempre os personagens que desejam transcender têm um final feliz nos filmes , mas de qualquer forma , os sofrimentos enfrentados por eles não deveriam ser encarados como uma desculpa para deixarmos de vivermos a nossa vida apaixonadamente. Em nossa sociedade , cada vez mais horizontalizada , que questiona constantemente os padrões , temos espaço sim para repensarmos a nossa existência e tentarmos pegar um caminho mais realizador. Muitas vezes , os caminhos realizadores são os mais longos e tortuosos , mas podem valer muito a pena sim.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. Atendo adolescentes e adultos em São Paulo. www.psicanalistasilviamarques.com.
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