cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

Atendo adolescentes e adultos em São Paulo.
www.psicanalistasilviamarques.com

Peles: somos muito mais do que as nossas deformidades

Com uma pitada surrealista na estética, traço típico dos espanhóis, Peles se assemelha a uma fábula. As deformidades exageradas são uma espécie de metáfora das pequenas quebras de padrão as quais todos nós estamos submetidos. Pequenos defeitos físicos ampliados por mentes angustiadas, grandes sofrimentos emocionais escondidos por detrás de uma aparência perfeita e plácida, o medo infantil de passar o resto da vida dormindo sozinho.


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Peles , primeiro longa do espanhol Eduardo Casanova , produzido em 2017, mostra uma série de personagens com deformidades físicas bastante bizarras, como por exemplo, a ausência de olhos e o ânus no lugar da boca. Existem também personagens fisicamente perfeitos que apresentam deformidades graves na alma.

Num primeiro momento, encontramos em Peles uma espécie de deserto existencial. O filme se inicia por meio da fala de uma cafetina idosa, obesa e nua , descrevendo o mundo como um lugar árido e sem saídas. Nos preparamos emocionalmente para um circo de horrores em estado cinematográfico.

Conforme a trama vai se desenrolando, entramos em contato com a realidade dolorosa de muitos personagens deformados que precisam sobreviver num mundo em que a beleza tem um peso decisivo. O mais angustiante do filme é deparar-se com o preconceito e com a crueldade que estas deformidades despertam em mentes propensas ao sadismo.

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A doce Samantha foi vivida por Ana Polvorosa. Ela possui o ânus no lugar da boca e a boca no lugar do ânus. Sofre um ataque por parte de jovens perversos

Existe um personagem muito interessante na trama, fisicamente perfeito, mas que consegue se apaixonar apenas por pessoas deformadas. Ele namora Ana, uma mulher com um grave defeito no rosto , mas emocionalmente madura e equilibrada. Ele a deseja pelo defeito físico e não por sua independência , por seu senso de liberdade e capacidade de lidar bem com as adversidades. Ana tem um amante igualmente deformado, mas que a aceita por acreditar que não conseguiria uma parceira fisicamente perfeita. Em resumo: ambos se fixam em sua deformidade , deixando em segundo plano o seu temperamento, os seus gostos e anseios. Eles veem apenas o defeito físico , numa relação metonímica. A deformidade deixa de ser um componente de Ana. Para seu namorado e para seu amante , a deformidade é Ana.

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Ana foi vivida por Candela Peña

Deformidades surreais , obesidade exagerada e transtornos psicológicos graves são colocados todos em uma mesma categoria: defeitos que dificultam uma vida feliz e a concretização do amor.

Durante quase toda a trama , ficamos imersos numa aura de melancolia e solidão. Mas quando o filme se aproxima de seu desfecho , encontramos um toque almodovariano. Luzes começam a piscar no fim de um túnel. Começamos a perceber que , talvez, existam possibilidades de felicidade, mesmo para aqueles que estão mais fora de qualquer padrão, pois a vida é surpreendente e quando pensamos que tudo está perdido, algo inusitado acontece.

Com uma pitada surrealista na estética, traço típico dos espanhóis, Peles se assemelha a uma fábula. As deformidades exageradas são uma espécie de metáfora das pequenas quebras de padrão as quais todos nós estamos submetidos. Pequenos defeitos físicos ampliados por mentes angustiadas, grandes sofrimentos emocionais escondidos por detrás de uma aparência perfeita e plácida, o medo infantil de passar o resto da vida dormindo sozinho.

O cor-de-rosa surge nesta obra aparentemente pessimista como um signo de toda a felicidade e amor que estão por vir. As pedras brilhantes que ocupam o vazio dos olhos de Laura, bela jovem que se prostitui desde a infância, metaforizam a capacidade que algumas pessoas têm de embelezar até mesmo os contextos mais tristes.

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A bela Laura, que nasceu sem olhos, enfrenta os desejos perversos de homens fisicamente perfeitos

No início do filme , quando Laura é apenas uma menina e ganha de presente duas pedras coloridas para colocar no lugar dos olhos , temos uma das mais belas passagens de Peles. O cliente que a presenteia afirma que é melhor não ver algumas pessoas no mundo. Este homem refere-se a ele mesmo, fisicamente perfeito, mas com um grave transtorno que o fez se afastar da esposa e do filho.

Peles nos deixa uma lição vital e poética: somos seres desejantes. E independentemente da pele que nos habita e de todas as cicatrizes emocionais que escondemos, ansiamos acima de tudo pelo amor e pela felicidade e podemos sim obtê-los.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. Atendo adolescentes e adultos em São Paulo. www.psicanalistasilviamarques.com.
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