cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

www.psicanalistasilviamarques.com

A esposa: um olhar melancólico sobre o feminino

Cuidado! O artigo apresenta milhares de spoilers!


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A esposa , filme de 2018 , dirigido por Björn Runge, gira em torno de uma trama aparentemente muito simples: uma esposa dedicada que vive em função do marido, um escritor famoso, que acabou de ganhar o prêmio Nobel de literatura.

Enquanto Joe Castleman , interpretado por Jonathan Pryce, é bajulado por todos , Joan , sua esposa , vivida por Glenn Close é apenas tratada com cortesia. A cortesia destinada a alguém que teve a sorte de receber por praticamente a vida inteira o amor de um gênio.

Porém, logo no início, podemos ver que Joan é muito mais do que a esposa que segura o casaco para o marido e tira as migalhas da sua barba. Tampouco Joan parece interessada nas compras sugeridas por uma espécie de dama de companhia das esposas dos escritores famosos.

Logo no início, podemos identificar que Joan é uma mulher altamente sagaz e inteligente enquanto que Joe parece um garoto deslumbrado com o prêmio recebido.

Um detalhe que pode ter passado despercebido é o fato dos nomes Joe e Joan serem muito parecidos. Joan, foi a ghost writer dos livros de Joe. É como se os nomes semelhantes indicassem uma relação simbiótica. O ditado "Por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher" foi levado às últimas consequências neste filme , salpicado com uma dose cavalar de ironia. Joe não era um grande homem. Ele se aproveiteu de todo um contexto social que dificultava a leitura de escritoras para forjar uma carreira literária de sucesso. Mais do que isso: tentou convencer a esposa de que o arranjo era favorável a ela também.

À esposa , foi oferecida uma vida de luxos materiais mas de ostracismo social. A visão de Joe revela a objetificação pela qual muitas mulheres ainda passam. Em troca de conforto e estabilidade financeira , precisam renunciar a elas mesmas.

Joan não foi forçada de forma direta a escrever os romances do marido. Muito pelo contrário. Foi ela quem se ofereceu para corrigir as falhas de um livro do homem amado quando eram jovens. Por outro lado, ela se sentiu forçada pelas próprias circunstâncias. Acreditando que, por ser mulher , nunca seria lida , resolveu emprestar o seu talento ao marido. Sua atitude , foi muito mais do que um gesto de amor profundo, foi um gesto de profunda desesperança.

Outro elemento que, provavelmente , a impulsionou a corrigir o trabalho do marido foi a necessidade de manter a relação. Joe não aceitava ser amado como homem e desprezado como escritor. Fazê-lo um autor respeitado , de certa forma , era condição para a união permanecer.

Quando Joe recebe o prêmio Nobel, Joan sai de uma espécie de transe. Ela viveu anestesiada e diante de todos os frutos que ela plantou e não colheu, ela saiu do seu estado de apatia. Decidiu pedir o divórcio, mas nesta mesma noite , seu marido falece. E mais uma vez , as circunstâncias falam mais alto para Joan. Mais uma vez , Joan aceita e se conforma com o papel de apêndice na vida do marido, quando ameaça um jornalista que pretende revelar o verdadeiro autor dos livros de Joe.

Embora , uma grande escritora , Joan não estava preparada para ser mulher e para receber o seu lugar ao sol. Para gerações mais jovens , A esposa revela um olhar muito melancólico sobre o feminino. Mas não podemos nos esquecer de que estamos , muitas vezes , condicionados ao nosso tempo. Talvez , o mais melancólico em Joan seja ver que ela não consegue transpor as barreiras do seu contexto, o que tira o seu status de heroína, no sentido mais grandioso da palavra. Joan é uma grande escritora , mas uma mulher comum. Tal fato é o que torna A esposa uma obra seca e dolorida.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. www.psicanalistasilviamarques.com.
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