cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

Atendo adolescentes e adultos em São Paulo.
www.psicanalistasilviamarques.com

Cemitério maldito: do terror clássico ao pesadelo erótico

Cuidado! Este artigo apresenta spoilers!


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O romance O cemitério, de Stephen King, foi adaptado para o cinema duas vezes: em 1989 , pela cineasta Mary Lambert e trinta anos mais tarde pelos diretores Kevin Kolsch e Dennis Widmyer.

A primeira versão me parece mais um clássico filme de terror. O objetivo central é dar medo, apesar de ser possível captar um conteúdo psicológico por meio de um pai que não aceita a morte do seu filho ainda bebê , atropelado por um caminhão ao som de Ramones. A segunda versão, ao colocar como vítima do atropelamento a filha mais velha do doutor Creed e o pequeno Gage como um mero coadjuvante de uma trama terrível , apresenta um teor psicanalítico bastante denso e perturbador.

Ver uma criança de nove anos matando pessoas é assustador , mas colocar como assassino morto vivo um bebê com menos de dois anos de idade é apavorante. Zelda , a irmã de Rachel, falecida há muitos anos , na versão de 1989, é interpretada por uma atriz adulta que foi caracterizada para se assemelhar a um ser malévolo enquanto que a de 2019 é vivida por uma menina que representa uma criança destruída por uma doença.

O Dr. Creed da primeira versão, como os personagens típicos de filmes de terror , parece ter uma inteligência mais limitada cometendo com a esposa o mesmo erro que cometera com o filho. Em resumo: o filme de Mary Lambert funciona melhor como obra de terror do que o atual.

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Gage na versão de 1989

Por outro lado, a versão de 2019 adentra no suspense e no psicanalítico ao vitimizar Ellie. Quando o pai desenterra a menina morta vestida de branco e a carrega nos braços , a imagem se assemelha a de uma noiva , a de uma mulher amada por aquele homem no sentido erótico do termo. Quando questionado pela esposa a respeito da filha falecida que volta à vida, Dr. Creed afirma que precisa de mais tempo com Ellie. A mãe em nenhum momento se sente seduzida pela imagem da menina morta , tendo consciência total de que a garota não era realmente sua filha. Por outro lado, a menina também quer eliminar a presença materna. Inclusive , antes da chegada de Rachel, Ellie pergunta ao pai como ele explicará a presença dela para a mãe , o que pode representar a fantasia da menina em compartilhar um segredo com o pai, deixando a mãe de fora.

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Fazendo uma leitura mais direta , nenhuma questão a ser pensada. Rachel reconhece que a garota não é Ellie e a rejeita. A garota por não ser Ellie ataca Rachel. Porém, se fizermos uma segunda leitura , no sentido metafórico, talvez possamos perceber elementos perturbadores da psique. A menina quer ocupar o lugar da mãe perante o pai. Quer o amor do pai para si , mas quer ser amada como mulher. A mãe , por sua vez, luta contra o domínio da filha e tenta manter o seu lugar. Ao final, as duas mulheres se unem para matar o pai, objeto disputado.

Num primeiro momento da vida , a menina volta-se mais para o pai. Posteriormente , perto da puberdade, se aproxima mais da mãe.

O próprio gato Church ganha muito mais destaque na versão atual, sendo praticamente o responsável pelo atropelamento que matou Ellie e que quase matou Gage, enquanto que no primeiro filme a morte de Gage é acidental, obra do acaso, outro elemento típico dos filmes clássicos de terror. O gato, metaforicamente , está relacionado à sexualidade e à sensualidade. A presença mais constante do gato nesta versão nos remete ao "terror" da própria sexualidade, que aprendemos a reconhecer como perigosa. Church e Ellie , uma garota de nove anos , com ares de mocinha, proporcionam uma aura subliminarmente erótica ao filme , tornando-o mais um suspense do que um filme de terror no sentido stricto da palavra.

Gage , o bebê inocente, tudo presencia , cada um dos horrores vivenciados por sua família , enxega inclusive um rapaz morto. Gage funciona na versão de 2019 como uma espécie de testemunha da crueza do mundo adulto, se deparando constantemente com o estranho, que pode ser melhor encontrado dentro de casa, no seio da família , entre as pessoas que mais amamos. O simples mal estar em relação à casa nos remete à ideia do estranho, que nada mais é que o mistério da nossa sexualidade.

Um detalhe que merece destaque é o fato de Rachel e o Dr Creed não saberem ao exato a extensão da propriedade que compraram. O vizinho, Jud , afirma que suas terras vão mais longe do que eles gostariam de conhecer. Mais uma vez , a casa surge como representação da sexualidade e o terreno desconhecido e temível que é melhor não conhecer pode nos remeter aos mistérios da sexualidade.

As duas versões apresentam seus méritos e propostas bem definidas. Cada um , com seu estilo, trouxe á tona uma questão de suma importãncia tratada por King: a morte não é natural embora seja o destino de todo ser vivente. Ela é um mistério e nunca estaremos preparados o suficiente para experenciar a dor provocada pela partida de quem amamos.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. Atendo adolescentes e adultos em São Paulo. www.psicanalistasilviamarques.com.
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