cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

Atendo adolescentes e adultos em São Paulo.
www.psicanalistasilviamarques.com

O filho protegido: nem sempre a mãe é a parte mais apta a cuidar do filho

Desde o início do filme , é possível perceber que existe algo de estranho com a aparentemente doce Sigrid. Com postura antissocial, ela aceita acompanhar o marido a uma festa de amigos. Após ter o sonhado filho pelo casal, se recusa a receber qualquer tipo de cuidado médico e passa pelo parto com a ajuda de uma conterrânea que não fala uma palavra em espanhol, mas que compreende o que Lorenzo fala. Fica uma dúvida: a parteira é realmente apenas uma parteira ou é a mãe de Sigrid?


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O filho protegido, filme argentino exibido pela Netflix , não nega a sua origem. O cinema argentino preza pelo politicamente incorreto e desconstrói sem dó nem piedade os paradigmas sociais. O filho protegido como um bom filme argentino deixa bem claro a que veio: colocar o dedo bem fundo na ferida e questionar o inquestionável: Toda mãe está realmente apta a cuidar do filho?

Sigrid , uma jovem doutoranda norueguesa se envolve com Lorenzo , um pintor de meia idade que teve problemas com bebida e perdeu o contato com as duas filhas do primeiro casamento, que moram com a mãe no Canadá.

Desde o início do filme , é possível perceber que existe algo de estranho com a aparentemente doce Sigrid. Com postura antissocial, ela aceita acompanhar o marido a uma festa de amigos. Após ter o sonhado filho pelo casal, se recusa a receber qualquer tipo de cuidado médico e passa pelo parto com a ajuda de uma conterrânea que não fala uma palavra em espanhol, mas que compreende o que Lorenzo fala. Fica uma dúvida: a parteira é realmente apenas uma parteira ou é a mãe de Sigrid? Como biológa , cuida do filho, apartando-o de qualquer cuidado médico.

Muitas críticas associam o filme com o cult O bebê de Rosemary devido ao seu clima sombrio, que coloca em questão se o personagem protagonista é paranoico ou está sofrendo uma perseguição real. No caso do filme argentino, o possível paranoico ou perseguido é Lorenzo.

Lorenzo está sendo apartado do convívio com o filho ou é apenas um paranoico? Subjetividades à parte , vou colocar o meu ponto de vista neste pequeno artigo. Em minha opinião, Lorenzo está sendo vítima de uma conspiração promovida por Sigrid. Ela se mudou de país , sob o pretexto de fazer um doutorado, para engravidar e depois ficar com o filho apenas para ela. Para pai da criança, escolheu um homem sem respaldo social: um pintor mal-sucedido, que teve problemas com bebida e uma relação distante com as outras filhas.

Durante todo o filme , fica muito clara a ideia de que a palavra de Sigrid vale muito mais do que a palavra de Lorenzo por dois motivos. Em primeiro lugar por se tratar de uma mulher que acusou o marido de violência doméstica. O ferimento no nariz decorrente de um empurrão dado pelo marido foi considerado pela lei, mas as marcas da agressão que Lorenzo sofreu antes de dar o empurrão nem foram percebidas pelos policiais. Em segundo lugar , Sigrid é uma escandinava. Socialmente considerada mais importante do que um latino.

O filme escancara preconceitos e este é para mim o seu maior mérito. Uma doutoranda escandinava é socialmente mais considerada do que um latino mal sucedido profissionalmente. A sua palavra não exige provas. Ela está acima de qualquer suspeita devido à sua origem. Em segundo lugar , o filme parece criticar também de forma bem contundente o mito de que a mãe é sempre a parte certa e mais zelosa do casal. Até que ponto , todas as mães estão realmente aptas a cuidar do filho? Muitas mulheres podem manipular o filho a seu bel prazer, guiadas pela fantasia da supremacia materna.

Sigrid não quer dividir o filho com o pai e leva um homem naturalmente instável a picos intoleráveis de loucura, para que ele caia em total descrédito, até mesmo perante seus melhores amigos.

Devida a forma que Sigrid utiliza e descarta Lorenzo , tudo indica que a personagem é uma psicopata. E quantas mães na vida real não são? Quantas mães não se escondem atrás de uma couraça superprotetora para isolarem o filho do mundo e saciarem seus desejos megalomaníacos?


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. Atendo adolescentes e adultos em São Paulo. www.psicanalistasilviamarques.com.
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