cinema pensante

Como um bom filme pode mudar a nossa vida

Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU.

Atendo adolescentes e adultos em São Paulo.
www.psicanalistasilviamarques.com

Coringa: a loucura como resposta à indiferença

Cuidado! O artigo tem spoilers!


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O filme Coringa , de Todd Phillips, estrelado por Joaquin Phoenix, que estreou nos cinemas brasileiros no dia 4 de outubro, é muito mais do que um belo poema cinematográfico sobre a loucura. É uma feroz crítica ao sistema e às instituições. As instituições que deveriam proteger os cidadãos, os ignoram. O sistema apresenta a lógica psicopata.

O filme parece defender a ideia de que apenas a lógica psicótica pode combater a lógica psicopata , pois a primeira é amorosa e criativa apesar de violenta . A segunda é só violenta , mas não suja as mãos.

O comediante Arthur Fleck parece simbolizar a força devastadora daqueles sem voz nem vez na sociedade. Humilhado e desprezado por quase todos que passam por seu caminho, começa o filme sendo espancado por um grupo de delinquentes juvenis , meninos sádicos que fazem o mal pelo mal. Por causa de uma intriga perde seu trabalho como palhaço e devido à cortes de verba do governo fica sem acesso aos seus medicamentos psiquiátricos. No ambiente doméstico , tenta cuidar bem de sua mãe que futuramente ele descobre ser paranoica e negligente.

O rapaz ingênuo e infeliz do começo do filme , portador de uma estranha patologia que faz a pessoa rir compulsivamente nos momentos mais inadequados , torna-se um ícone da luta de classes. Milhares de homens pobres , cidadãos comuns , tachados pelo poderoso empresário e candidato a prefeito Thomas Wayne como palhaços, começam a usar máscaras circenses e a cometer atos de vandalismo inspirados pelo palhaço que assassinou três jovens de classe alta e pelo ódio reprimido durante uma vida de ostracismo.

Muitos personagens do filme são arquetípicos. Temos o empresário e candidato a prefeito representando o encontro dos poderes econômico e político, temos o famoso apresentador de TV representando o poder midiático, temos a entediada assistente social que atende Arthur de forma desumanizada pois ela mesma se reconhece como uma ignorada pelo sistema, a bela vizinha representando uma possibilidade de bondade e amor num mundo em que todo mundo é rude , como disse o próprio Arthur. Os homens mascarados de palhaço representam a massa de desprezados e Arthur, o poder revolucionário da loucura.

Uma cena igualmente poética e sombria do filme é quando Arthur brinca com uma criança no ônibus e a mãe do menino se irrita. Nesta cena , podemos perceber claramente como é complexo tentar fazer rir num mundo em que todos estão contaminados pelo medo e pelo ódio. Muito mais do que um filme sobre heróis e vilãos , violência e loucura , Coringa mostra os efeitos devastadores da indiferença.


Sílvia Marques

Doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. Indicada ao Jabuti 2013. Idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU. Atendo adolescentes e adultos em São Paulo. www.psicanalistasilviamarques.com.
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