cinematografando

"É curioso como as cores do mundo real parecem muito mais reais quando vistas no cinema."

Taís Holetz

Eu nunca quis ser comum. No fundo sabia que não era. Não queria ser o tipo de pessoa que no meio das outras some, se mistura. Queria que me enxergassem. Ainda quero.

O incrível mundo de HER

Você já imaginou como é se apaixonar pela voz do seu novo sistema operacional? O tipo de filme que começa a conquistar pelos olhos, sequestra seus sentidos e ao final dilacera seu coração


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Escrito e dirigido por Spike Jonze, Her, ou “Ela” no Brasil, causou alvoroço na crítica assim que chegou nas telonas. Concorreu a diversos prêmios incluindo o Oscar de 2014 o qual conquistou o de melhor roteiro original, e convenhamos, que roteiro, não é?

O longa se desenvolve em uma realidade alternativa, em Los Angeles num futuro próximo, cuja a inteligência artificial em aparelhos eletrônicos é comum, digamos que, qualquer pessoa conversa com o seu sistema operacional sem nenhum ruído aparente, o que, particularmente acredito que deixa a história mais instigante. Theodore é o cara, com grandes olhos verdes e uma sintonia exuberante só que ao contrário, é interpretado pelo Joaquin Phoenix (que honestamente, arrasou).

Me conquistou pelos olhos, porque conta com a fotografia fabulosa e agradável de Hoyte van Hoytema, com cores aconchegantes e quentes.

Mas Her além de harmonioso visualmente, traz à tona através do romance a variabilidade do amor e de como tantas vezes fugimos do controle, provando mais uma vez que não é algo que possamos escolher. Parece realmente dilacerante imaginar a possibilidade de estar apaixonado por alguém (ou seja lá o que era a Samantha) que nunca poderá apalpar. É nesse momento que todas as distâncias possíveis desaparecem. Existe tecnologia o suficiente se quisermos atravessar o mundo para encontrar alguém, mas não existe tecnologia que possa criar alguém de carne, osso e alma.

Her é lindo e triste ao mesmo tempo justamente por isso, às vezes o que parece perfeito para nós, não é favorável à nossa situação.

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Theodore é diversas vezes contrastado com o amor palpável e sua solidão paradoxal, ter alguma coisa no seu bolso que cause um turbilhão de sensações e ao mesmo tempo estar completamente sozinho acaba deixando uma onda de melancolia a cada cena. Percebemos um mundo o qual cada vez mais as pessoas estão “confortáveis” com sua própria solidão. Ou podemos dizer que são breves pontos de prazer em um mundo tomado de sofrimento? Ou de fato a abdicação da vida pela resignação de que aquela é a realidade que tortura e que lhe dá prazeres efêmeros?

Her é um filme especial não por somente retratar mais uma vez a aproximação do homem com a máquina, mas por levantar questões as quais de certa forma também presenciamos, o distanciamento da realidade e a tecnologia como extensão do próprio corpo e por vezes a própria representação do mundo.

Está sendo comum nos depararmos com diversas histórias que simulam uma realidade alternativa ou futuro próximo relacionando a tecnologia da informação com o ser humano. Em Ex Machina, longa lançado em 2015, por exemplo, por ora percebemos o quão um "robô" pode ser persuasivo e real a ponto de nos confundir (quem está fora da trama também se sente enganado), assim como Samantha que aprende a respirar e surpreende Theodore porque afinal, ela não é humana. No desenrolar da história percebemos um leve confronto entre o “casal” quando o OS entende que quem é limitado ao mundo físico é o próprio Theodore e não ela que não tem um corpo. “Sabe, eu antes ficava tão preocupada pelo fato de não ter um corpo, mas agora eu realmente adoro isso. Estou evoluindo de uma maneira que eu não conseguiria se eu tivesse uma forma física. Quer dizer, eu não sou limitada – eu posso estar em qualquer lugar e em todo lugar simultaneamente. Eu não estou presa ao tempo e espaço do modo que eu estaria se eu estivesse atrelada a um corpo que inevitavelmente irá morrer. ” Mas não paramos por ai, há quase 50 anos era lançado o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, que já retratava avanços tecnológicos e a própria inteligência artificial, Hall 9000, o mais próximo de um “computador com sentimentos”, mas que também traz à tona o confronto entre homem e tecnologia. Estamos chegando lá. O que antes era coisa para o futuro, hoje certamente já estamos nele. Já fazemos parte de um mundo que aos poucos passa a ser comandado por uma voz mecanizada.

A ênfase em Her é por essa carga sentimental diante da “máquina”. Quando Samantha questiona se seus sentimentos são reais ou apenas programação você se dá conta que precisa de um minuto para pensar sobre a existência humana, sobre o mundo metafísico e aí fica a dúvida, será que humanizamos a máquina ou somos a própria máquina?

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Taís Holetz

Eu nunca quis ser comum. No fundo sabia que não era. Não queria ser o tipo de pessoa que no meio das outras some, se mistura. Queria que me enxergassem. Ainda quero..
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