cinematografando

"É curioso como as cores do mundo real parecem muito mais reais quando vistas no cinema."

Taís Holetz

Eu nunca quis ser comum. No fundo sabia que não era. Não queria ser o tipo de pessoa que no meio das outras some, se mistura. Queria que me enxergassem. Ainda quero.

Explosão de morangos, Beatles e a Guerra do Vietnã

No musical Across The Universe, composto exclusivamente por músicas da banda mais aclamada de todos os tempos, nos deparamos com uma cena trilhada pela música “Strawberry Fields Forever”, a qual caracteriza o filme através dos morangos e sobrepõe imagens do contexto histórico o qual o longa está inserido.


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Jude, em Liverpool se despede da namorada cantando romanticamente All My Loving enquanto Lucy, nos Estados Unidos se despede de seu namorado que está indo para a guerra. Max está na faculdade e falta pouco para os três se encontrarem. Isso é tudo. Ou quase tudo.

Com morangos dilacerados Jude compõe uma tela que sangra enquanto Lucy vê através de uma televisão, cenas de Max, seu irmão, sofrendo os horrores da Guerra do Vietnã. Morangos explodem feito bombas. A imprensa teve papel considerável neste período, divulgando imagens e vídeos de soldados feridos durante as batalhas sem nenhuma censura e fazendo com que a população continuasse com a ideia de revolução.

Across The Universe foi lançado em 2007 com a direção de Julie Taymor, de Frida, que trouxe em forma de musical um roteiro que encaixou perfeitamente nas letras das canções dos Beatles. Retratando a sociedade dos anos 60 em plena Guerra do Vietnã, o longa faz referência aos impactos culturais americanos e os movimentos sociais que ascenderam a juventude da época.

Na década de 60 os movimentos sociais marcaram a sociedade com a influência e disseminação comportamental, o movimento de contracultura, por exemplo, criou uma personalidade que ainda conhecemos: os hippies. Os Beatles participaram intensamente nesse processo de influência. O próprio nome da banda foi inspirado na geração beat, que assim como hippies posteriormente, os beatnik levavam o mesmo estilo de vida: viviam em comunidades nômades e usufruíam do que a natureza os oferecia. Com uma frase bem conhecida “paz e amor”, os contestadores lutavam por uma sociedade igualitária e livre do patriarcalismo, militarismo, massificação, capitalismo e o autoritarismo. Os hippies protestavam principalmente contra a guerra do Vietnã.

A Guerra do Vietnã foi um conflito armado que ocorreu no período da Guerra Fria com a intervenção dos Estados Unidos em tentativa de combater o comunismo, o famoso “efeito dominó”. O que, por ora, foi sem sucesso, uma vez que os Estados Unidos não venceram. O conflito contabilizou milhares de mortes e marcas traumáticas entre soldados. Muitos jovens norte-americanos eram obrigados a servir o exército durante a guerra, é o que acontece com Max (Joe Anderson) e isso fica explicito quando contracena com Tio Sam e interpreta a música I Want You, a qual faz total sentido no contexto.

Beatles e a guerra se relacionam diretamente uma vez que John Lennon foi um dos defensores do movimento antiguerra, o musical nada mais é que uma releitura das situações vivenciadas no período.

Tendo em vista a quantidade de filmes que tematizaram este conflito, Across The Universe nos proporciona um retrato diferente por contar a história de garotos aleatórios que se encontram e musicalizam toda a trajetória angustiante que se passará na época, além de analogias históricas muito bem implícitas nas canções.

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O longa conta com várias apresentações corriqueiras que faz com que quem esteja assistindo se sinta confortável com o enredo. A ideia de juntar a história com música e Beatles faz de Julie Taymor uma diretora (da Broadway) premiada, mesmo que Across the Universe não tenha levado algumas estatuetas para casa.

Bono, vocalista da banda U2 faz uma participação como Dr. Robert e apresenta I'm The Walrus e proporciona não apenas para os personagens da diegese como para quem aprecia do outro lado da tela, uma viagem psicodélica com muitas cores.

Dentre as músicas apresentadas é difícil escolher a melhor interpretação. São cenas bem elaboradas capazes de traduzir a mensagem que John Lennon e os Beatles talvez quisessem transmitir na época. Revolution nos faz vibrar e sentir o momento, Lucy queria uma revolução, queria mudar o mundo.

O final fica por conta de All You Need Is Love fazendo cada minuto do filme ter valido a pena.


Taís Holetz

Eu nunca quis ser comum. No fundo sabia que não era. Não queria ser o tipo de pessoa que no meio das outras some, se mistura. Queria que me enxergassem. Ainda quero..
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