cinematografando

"É curioso como as cores do mundo real parecem muito mais reais quando vistas no cinema."

Taís Holetz

Não sabe o quer da vida, moraria no cinema se fosse permitido.


A FINALIDADE DA FILOSOFIA HOJE: UMA ANÁLISE DA SÉRIE MERLÍ

A análise consiste em levantar o assunto da filosofia como disciplina, virtude ou ferramenta de condução ao senso crítico, uma vez que tem sido vítima de boicote em nossa esfera pública.


“Tudo fora da norma é desconcertante para a sociedade.”


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Algumas séries buscam retratar determinadas áreas profissionais, assim como Mad Man (publicitários), Breaking Bad (química), Suits (advogados), Merlí parece ter sido um tanto quanto inovador, poucos esperariam uma produção sobre um professor de filosofia. Longe se estar nos moldes hollywoodianos, a séries espanhola, de acordo com a produtora, alcançou as expectativas. Merlí é a série que poucos deram atenção, mas quem gosta de filosofar e teve a sorte de encontrá-la, provavelmente gostou. Cada episódio leva o nome de um filósofo, o que é bastante interessante, e todo ele é desenvolvido através da filosofia do mesmo em situações cotidianas. Narrada quase que totalmente em ambiente escolar, Merlí é o tipo de professor que chega para romper paradigmas com intuito de fazer seus alunos aprenderem a pensar por si mesmos. Para que serve a filosofia? Somos condicionados a acreditar que essa é apenas mais uma disciplina obrigatória nas escolas porquê de qualquer forma, no sistema a qual estamos inseridos o que de fato importa é o que faremos para ganhar dinheiro. A filosofia funciona como uma maneira de atribuir senso crítico aos seres humanos, questionar o mundo e a vida como já pregava Sócrates, talvez seja por isso que ela é tão ameaçadora no contexto político e econômico atual.

O QUE É FILOSOFIA?

Isaiah Berlin, em A finalidade da filosofia, um dos ensaios da obra A força das Ideias, traz à superfície a questão.

Qual é o tema da filosofia? Não há nenhuma resposta universalmente aceita para essa pergunta. As opiniões diferem, desde aqueles que a consideram uma contemplação de todo o tempo e de toda a existência – a rainha das ciências, a pedra angular de todo o arco do conhecimento – até aqueles que desejam descarta-la como uma pseudociência que explora confusões verbais, um sintoma de imaturidade intelectual, destinada junto com a teologia e outras disciplinas especulativas ao museu da antiguidades curiosas [...] (BERLIN, 2005)

No primeiro episódio da série, Merlí Bergeron é contratado como professor substituto de filosofia num instituto, no momento em que está sendo apresentado para os professores, um comentário é tecido por um deles: “Era previsto que a filosofia acabaria desvalorizada por todos. Fui o primeiro a publicar um artigo a respeito.” Para Severino (2010), a filosofia caracteriza-se, então, como uma experiência intelectual específica, peculiar, que busca explicitar, na teia complexa dos dados de toda experiência humana, aqueles sentidos que exprimem relações e nexos que satisfazem, com maior profundidade, rigor e abrangência, as próprias exigências da subjetividade humana. Ainda:

Preocupada, então, com o todo da realidade — tudo que pode ser objeto de toda a experiência humana —, ela busca o sentido dessa realidade, mas a partir do sentido da realidade humana. Isso porque, até para abordar o mundo objetivo, precisa dar-se conta de sua capacidade de fazê-lo e, para não entrar num círculo vicioso, a Filosofia começa perguntando-se quem vem a ser o sujeito que passa por tão complexa experiência. Por isso mesmo, a Filosofia, como modalidade específica de conhecimento, encontra sua legitimação última ao comprometer-se com a busca do sentido da existência humana. (SEVERINO, p. 64-65)

Em sua primeira aula em classe, Merlí discursa para os alunos do primeiro ano como está exausto de ouvir que a filosofia não serve para nada e argumenta o que já se esperava: o sistema educacional não se importa mais com senso crítico ou questionamentos sociais e sim o quão preparado os jovens estarão para empreender e ganhar dinheiro. E conclui que é por esse motivo que desejam eliminá-la.

O DESPREZO DA FILOSOFIA E O PERIGO IMINENTE

Quando se trata de filosofia na escola, não é algo muito fácil para se empreender. Há muitos obstáculos para serem superados, uma vez que, a filosofia na escola geralmente é instituída para cumprir um currículo já pré-estabelecido e determinados interesses quase sempre deslocados da vida e do cotidiano (GALLO, 2012, p. 27). Observamos explicitamente essa dificuldade na série, Merlí muitas vezes é malvisto por ministrar suas aulas de modo inovador e cativante, mas que por ora se distancia cada vez mais do currículo já estabelecido. Merlí com seu jeito nada ortodoxo, conquista seus alunos ao mesmo tempo que rompe com a ideia de que a filosofia é uma disciplina densa, cansativa e inútil. O desenvolvimento do senso critico pode ser perigoso e na maior parte das vezes, a filosofia na educação, tem a tendência a ser considerada uma espécie de doutrinação ideológica, momento a qual o professor se torna militante e perde credibilidade. “[...] ‘doutrinar não é ensinar uma doutrina, mas ensina-la como se fosse a única’. Ensinar é, necessariamente, uma tomada de posição [...] (GALLO, 2012 apud MORAIS, 1986). Um exemplo disso é apresentado em uma das cenas de Merlí quando o pai de um de seus alunos, Joan, é levado a crer que o professor de filosofia está a fazer uma “lavagem cerebral” no filho. [...] penso que podemos investir em pensar a educação filosófica como uma forma de resistência. Resistência ao momento presente, momento de continua aceleração, no qual nada mais é duradouro; e resistência a opinião generalizada, ao jogo daqueles que tudo sabem sobre todas as coisas. Resistencia singular de si mesmo contra um mundo de finalidades generalizadas. Dizendo de outro modo, reivindico a possibilidade de afirmarmos: “conheço filosofia e sou cidadão”, em vez de “sou cidadão porque conheço filosofia”. (GALLO, 2012, p. 22) Para Gallo (2012), é necessário que se tome uma posição na filosofia, já que é uma atividade de criação e acaba nos levando para um ensino ativo imersa na experiência do pensamento. Ainda na obra de Gallo (2012), ele menciona um texto de Nietzsche escrito em 1874 denunciando o ensino de filosofia da escola média alemã de sua época e também no ensino desta disciplina nos cursos universitário, como o exercício de um desprezo pela filosofia. O ensino criticado por Nietzsche era um ensino “enciclopédico”: os jovens aprendiam uma serie de sistemas filosóficos, seus princípios doutrinários e depois deviam fazer uma prova em que demonstrassem o aprendizado. Segundo o filosofo, o resultado era que os estudantes decoravam os sistemas e suas refutações as vésperas do exame, faziam a prova e esqueciam tudo em seguida. Esse era o desprezo pela filosofia: algo que se decora para passar num exame e esquecer em seguida. (GALLO, 2012, p. 121)

O que de fato pode-se afirmar, é que Merlí ensinava de maneira oposta ao que tratamos acima. Pouco interessado em exames, o professor tinha como objetivo, através de diálogos socráticos, o incentivo ao exercício da reflexão.

O PROFESSOR DE FILOSOFIA

Merlí em uma de suas aulas apresenta o filosofo contemporâneo Michel Foucault aos seus alunos do primeiro ano do colegial. O professor “desajustado” inicia a aula com o conceito de normalidade atribuído por Foucault. O normal é variável, introduz Merlí e é nesse sentido que Foucault desenvolve seu pensamento e sua filosofia, “a confusão entre o que é normal e o que é correto.” Segundo Foucault, a normalidade implica uma relação de poder. O poder classifica, ordena e controla. Decide o que é correto em determinado momento. Quem sai da norma passar a ser considerado estranho ou “anormal”. Merlí se coloca no próprio exemplo, “por isso eu me meto em problemas”. Merlí, como professor, causou tumulto desde sua chegada. Enquanto professores e pais discutiam o novo “fenômeno”, os alunos eram de varias maneiras cativados com a filosofia de Merlí. Segundo Gallo (2012), o professor de filosofia é o intercessor e ao mesmo tempo o catalisador para o exercício do pensamento. “O professor de filosofia é aquele que, na contramão da aceleração e da imediatez dos tempos hipermodernos, chama seus alunos à paciência do conceito, ao movimento do pensamento, ao trato com a filosofia.” (GALLO, 2012, p. 119) Merlí com sua filosofia transformou o habito sistemático que muitos alunos seus estavam expostos. Trouxe de volta Ivan ao mundo, um de seus alunos que sofria de agorafobia, apenas ensinando filosofia, não permitiu que Pol, quem se mostrou muito interessado na disciplina, largar os estudos, auxiliou Joan se libertar da constante imposição do pai, possibilitou a todos com quem se relacionava o contato palpável com a filosofia. “O professor de filosofia, então, é aquele que faz mediação de uma primeira relação com a filosofia, que instaura um novo começo, para então sair de cena e deixar que os alunos sigam suas próprias trilhas.” (GALLO, 2012, p. 129)

Sem Sócrates, Platão não teria iniciado em filosofia; mas sem o desaparecimento (a morte) de Sócrates, Platão não teria feito o movimento de um novo começo, produzindo, ele mesmo, filosofia. O professor de filosofia e aquele personagem que, a um só tempo, sabe e ignora; com isso, não explica, mas medeia a relação dos alunos com os conceitos, saindo de cena em seguida para que tal relação seja desenvolvida por cada um e por todos. (GALLO, 2012, p. 129)

O professor de filosofia, Merlí, foi o filosofo que se libertou das correntes e saiu da caverna. Assim como na alegoria de Platão, no momento em que o filosofo se liberta e tenta fazer com que os demais indivíduos a sua volta percebam a realidade, passa a ser deveras estranhado e insultado. “O que se espera desse novo professor de filosofia é que decline em detalhes a contribuição que pretende dar, que fale sobre as habilidades e competências típicas de sua disciplina, sobre sua metodologia, sobre o planejamento curricular que tem em mente [...]” (ROCHA, 2008)

A maneira de Merlí filosofar, atinge de fato o que sempre se esperou da filosofia, a transformação e o abrir de olhos. Apesar de ser deveras contestado, pode-se perceber que o professor, com sua personalidade curiosa, no desenvolver da diegese, causou algum efeito tanto na vida dos personagens quanto no espectador. A filosofia tem sido constantemente boicotada enquanto disciplina na educação, a série visou retratar esse problema e desconstruir a ideia de uma disciplina densa, obrigatória e com exclusivo objetivo de cumprir currículo. Em uma das cenas, a mãe de um aluno, em uma conversa com Merlí, declara: “Gerard estava muito mal, e suas aulas o incentivaram. Embora seja apenas filosofia. [...] Quero dizer, não é tão importante quanto as outras matérias. Não é matemática ou literatura.” Observa-se, portanto, que esse tipo de opinião é por vezes massificado erroneamente. Merlí inaugura no instituto uma filosofia prática capaz de interagir com quem não está participando diretamente das aulas e com um objetivo claro descrito ate mesmo pelo protagonista: combater a tolice e a conformação de uma existência inumada e superficial. A série termina com seus alunos o nomeando oficialmente como Filósofo: Merlí Bergeron Calduch: Filósofo catalão que estabeleceu as bases do Merlinismo, doutrina filosófica baseada em aproveitar o tempo sendo feliz, em beber e comer bem como terapia para superar a decadência política, na defesa da igualdade sexual para homens e mulheres e no ensinamento da filosofia de maneira divertida como ferramenta prática para aprender sobre o mundo e melhorá-lo.

REFERÊNCIAS

BERLIN, Isaiah. A força das ideias. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

GALLO, Silvio. Metodologia do ensino de filosofia: Uma didática para o ensino médio. Campinas, SP: Papirus, 2012.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Formação política do adolescente no Ensino Médio: a contribuição da Filosofia. Revista Pro Posições, Campinas: v. 21, n. 1 (61), p. 57-74, jan./abril. 2010.

ROCHA, R. P. da. Ensino de Filosofia e currículo. Petrópolis: Vozes , 2008.


Taís Holetz

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